Rui Miguel Abreu

Veterano do jornalismo musical e incansável divulgador de música, o Rui Miguel Abreu é ávido colecionador de discos. É a alma da revista digital Rimas e Batidas (que dirige) e podemos lê-lo também regularmente na BLITZ e escutá-lo na Antena 3. Agora é tempo para as suas confissões… de colecionador…

O primeiro disco que compraste.

Depois de receber a discografia quase completa dos Queen no meu aniversário (maio) e Natal de 1984, o primeiro disco que comprei com o meu dinheiro, mesmo, foi o “Heroes” do David Bowie, parte de uma encomenda coletiva de amigos (dava jeito poupar nos portes…) feita com o catálogo da Gema. Se a minha memória não me falha, o primeiro disco que terei comprado numa loja mesmo terá sido uma compilação na Joker (penso que a prensagem portuguesa era da Dargil) do “Original Folk Blues”, do John Lee Hooker.

E o mais recente…

Aquele que acaba de aterrar aqui em casa, acabadinho de chegar dos Estados Unidos, é o single que o DJ Shadow fez com os De La Soul, “Rocket Fuel”, numa edição limitada de 300 exemplares carimbados à mão que o próprio Shadow vendeu na quarta edição da sua popup shop na Rappcats de Los Angeles, pertença do meu amigo Egon que teve a amabilidade de me reservar uma cópia. Neste passado fim de semana, uma investida na feira de velharias de Portimão rendeu um disco de folk dos Clancy Brothers com Tommy Makem. Mas quando cheguei a casa, no domingo, vindo de umas curtas e merecidas férias, tinha à minha espera um lote de discos vindos da Flur, incluindo as duas reedições de obscuros clássicos do brasileiro Fernando Falcão na Selva Discos, o “Memória das Águas” e o “Barracas Barrocas”.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

O que procuro juntar mais? Discos que me apaixonem, que me intriguem, que me perturbem, que me façam dançar ou pensar, discos que eu compreenda e discos obtusos que resistam à minha compreensão. Não sei… na verdade. Acho que procuro os discos que me procuram a mim, de todos os géneros e épocas.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Hummm… Ainda procuro a edição original, a preço simpático, claro, do “Ctu Telectu” dos Telectu. Assino o texto de capa da recente reedição na Golden Pavilion, tinha o CD que julgo que abriu a série Do tempo do Vinil que o Jorge Mourinha e o Miguel Cadete criaram para a Valentim de Carvalho, mas continua a faltar-me um original. Um dia destes cruza-se comigo… Procuro também, por exemplo, os famosos “discos de serapilheira” com as recolhas do Giacometti e do Lopes Graça, a série Antologia da Música Regional Portuguesa, na Arquivos Sonoros Portugueses.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

O “Regra do Fogo” do Luís Cília, que arranjei, a preço decente, lá está, numa das melhores lojas do mundo, a Matéria Prima, no Porto.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

O limite é o que a minha carteira comporta, mas isso é relativo porque pode gastar-se 500 euros num lote grande ou 300 ou 400 num só e depois ter que andar à míngua uns tempos… Em discos muito raros tento não pagar mais de 100 euros (mas já paguei bem mais do que isso…).

Lojas de eleição em Portugal…

Carbono, Peekaboo, Flur e Groovie, em Lisboa. Lucky Lux em Coimbra. Matéria Prima, no Porto. Essas devem ser, certamente, aquelas em que sou mais assíduo.

Feiras de discos. Frequentas? Quais?

Já frequentei mais, mas sempre que possível tento não perder. As minhas favoritas – e espero que estejas a referir-te a feiras de velharias – e as que me renderam scores incríveis ao longo dos anos eram as da linha: Algés, Oeiras, Paço de Arcos, às vezes a da Parede. Claro que em tempos idos a Feira da Ladra foi um filão incrível, mas já não me lembro de comprar um disco na Feira da Ladra. Sempre que passeio gosto de verificar se há feiras de velharias por perto: Setúbal e Azeitão já me renderam bons discos, por exemplo. 

Fazes compras ‘online’?

Claro. Boomkat, Bleep, Dodax, sites de editoras, Bandcamp, Discogs… Acho que vou a todas…

Que formatos tens representados na coleção?

Vinil de todos os tamanhos, LPs, Boxsets, maxis, 10 e 7″ (julgo que tenho também um de 5″ e outro de 3″), alguns flexi discs… Algumas bastas centenas de cassetes. Muitos milhares de CDs…

Os aristas de quem mais discos tens

DJ Shadow, Sun Ra, James Brown, Miles Davis, Herbie Hancock, Legowelt, Demdike Stare (acho que tenho tudo…), Pierre Henry… Lou Reed… David Bowie… Tom Waits… Cabaret Voltaire também tenho muita coisa.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Muitas, algumas são fetiche aqui em casa: Now Again, Mo Wax, Stones Throw, Finders Keepers, Vinyl on Demand, Numero Group, Light in the Attic, Tommy Boy, Ze Records, Celluloid, On-U Sound, Prospective 21e Siecle da Philips, a série Avantgarde da Deutsche Grammophon, a INA-GRM, Ninja Tune…

Uma capa preferida.

Gosto imenso das capas prateadas da Prospective 21e Siecle. Adorava (lá chegarei…) ter a série completa e criar um mural com elas. 

Uma disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Ahhhh…. podia escolher qualquer um de música concreta, algum do Schaeffer ou do Parmegiani ou algo assim que normalmente não consigo convencer ninguém a ouvir. Ou dos 2 Live Crew… Ou o “Jump” dos Van Halen (imagino que haja muita gente que goste, já que vendeu à pazada, mas normalmente ninguém dos meus “circulos”…)… Coisas de free jazz mais abrasivo também costumam incomodar pessoas. Ou o álbum do Bad Bunny, que adoro.

Como tens arrumados os discos? E como é que se lida com o espaço da casa invadido por discos?

Esta é a pergunta mais complicada de responder: os meus discos estão organizados por géneros, mas a divisão por géneros é diferente nos CDs e no vinil (don’t ask). Nalguns casos tenho editoras separadas, como se fossem um género separado (Mo Wax, Stones Throw, Finders Keepers, Ghost Box, Numero, etc, etc). Dentro de cada género, por ordem alfabética. Mas depois posso escolher um artista para estar arrumado separadinho, só porque acho importante fazer isso: o Brian Eno, por exemplo. Ou o King Tubby. Manias… Há uma assoalhada reservada para os discos, onde tenho a sensação de não caber nem mais um single. Os discos já começaram a espalhar-se para fora dessa assoalhada e já se estenderam a um armário que tenho fora do escritório, num espaço de passagem entre quartos. Planeio a curto prazo arranjar um espaço dedicado, um armazém ou algo do género, fora de casa, onde possa ordenar as coisas em condições… Ou isso ou ganhar o Euro Milhões e comprar um prédio inteiro algures… 

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Zappa, Luciano Berio, Scott Walker, Willie Nelson… há muitos…

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Tudo do Robert Wyatt. Custou a entrar… Prova de que não se deve tentar ouvir tudo aos 20 anos…

Já compraste discos que, afinal, já tinhas? Caso sim, quais.

Ahhh… claro que sim, com bastante frequência até. O último foi o “Rosa Cruz” dos Telectu, que estava convencido que não tinha…

O que fazes com os discos repetidos?

Alguns mantenho duplicados (e até triplicados). Outros uso-os como moeda de troca.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Ora bem, os discos da série Grama que já editou coisas do Cândido Lima, Filipe Pires, Armando Santiago e René Bertholo.

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