Para arrumar de vez as histórias do álbum de estreia dos New Order

Editado em novembro de 1981 o álbum “Movement” traduziu um tempo de transição entre a história (recentemente) interrompida dos Joy Division e o achar de um caminho para o futuro dos New Order. No mesmo ano em que se assinalam os 40 anos de “Unknown Pleasures”, o álbum de estreia dos Joy Division surgiu nas lojas uma edição “especial” de “Movement” que, espero, represente o início de uma arrumação progressiva de memórias dos New Order segundo o modelo que aqui se revela.

A edição – que faz jus ao rótulo DeLuxe – inclui numa caixa não apenas uma reprodução do álbum original em vinil (bela prensagem, bom som, artwork bem reproduzido) como junta depois dois CD, um DVD e um livro com conteúdos adicionais. Um dos CD representa uma versão literal do álbum. O outro junta conteúdos áudio inéditos que incluem duas sessões de gravações de maquetes (uma de setembro de 1980, a outra de janeiro de 1981), gravações de ensaios em estúdio (igualmente de 1980 e 1981), uma primeira mistura de “Ceremony” (o single de estreia como New Order) e uma versão alternativa de “Temptation”.

Já o DVD traz gravações ao vivo – que não evitam as “marcas” do vídeo de então de atuações em Nova Iorque em 1980 e 1981, sessões gravadas nos estúdios da Granada TV em 1981 e na BBC em 1982 e ainda uma série de excertos de atuações ao vivo registadas entre 1981 e 1983 em palcos de Manchester, Paris, Toronto, Newcastle, Norwich e Minneapolis.

Estes complementos de arquivo acrescentam imagens e sons ao relato que encontramos no livro, num texto de John McCready onde se contextualiza este álbum tanto na história da música popular como no próprio relato de vida de uma banda que então vivia, mais do que um renascimento, uma transformação. As imagens – desde fotos da banda, dos instrumentos, de bobinas e de documentos da época – completam o quadro de memórias.

A inesperada morte de Ian Curtis, em maio de 1980, colocara um ponto final aos Joy Division mas não aos restantes músicos que completavam a formação da banda. Desaparecera a voz, o maestro, o ideólogo e o fator principal de condução das ideias… Urgia repensar o modo de conduzir os caminhos. Escolher uma voz… E nesta primeira etapa tanto Bernard Sumner como Peter Hook e Stephen Morris dividem entre si o papel de vocalista consoante as canções apresentadas em palco (algo que fica bem claro no registo ao vivo no Hurrah’s, em 1980, que podemos ver no DVD). Convenhamos que o manager Rob Greton fez a opção certa na hora certa, entregando o papel de vocalista a Bernard Sumner (“fardo” que a princípio se queixava de ser difícil de acumular com o facto de ser também ele o guitarrista). Mas igualmente importante neste processo de arrumação dos ecos do que haviam sido os Joy Division e da preparação do caminho para a libertação da visão dos New Order estiveram não apenas a entrada permanente no grupo de Gillian Gilbert (que já assegurara uma ou outra falta em atuações ao vivo) e a aproximação progressiva do grupo às eletrónicas.

É claro que havia já eletrónicas nos Joy Division. Em “Closer” são até um dos elementos de afirmação de desbravamento de novas possibilidades. Mas o interesse (antigo) do baterista por figuras de referência no krautrock, assim como o gosto, ainda não devidamente explorado, que tanto ele como Bernard, nutriam pelos Kraftwerk, começa a tornar-se mais visível. No álbum basta escutar “Chosen Time” para o notarmos… Em palco os sequenciadores e ritmos programados sugerem também ares de mudança a caminho….

Estas novas ideias não casaram contudo bem com os reencontros em estúdio com Martin Hanett. Se a ele os músicos devem a visão que levou a outros patamares as canções de “Unknown Pleasures”, a verdade é que, depois de “Closer”, o trabalho em estúdio com o produtor tornou-se quase cenário de pesadelos. O texto refere momentos de tensão e explosão. Que acabariam por culminar, já nas sessões para o single “Everything’s Gone Green” (depois do álbum, portanto), por representar uma rutura definitiva.

Martin Hannett será, de certa forma, um elemento chave para explicar o sentido de continuidade que faz de “Movement”, apesar de pontuais respirações de outros ares, um disco que sugere ainda evidentes ecos do passado vivido entre os Joy Division. O álbum não é já habitado por composições de Ian Curtis, como o havia sido o single “Ceremony”. Mas as afinidades são ainda bem claras e as distâncias relativamente curtas.

Os indícios mais claros de um salto iminente chegariam, em dezembro de 1981, com o single “Everything’s Gone Green”, cabendo a “Temptation”, já em 1982, ser afirmação já bem nítida de que o grupo partira em busca de novos estímulos descobertos entre o prazer de dançar recentemente encontrado na noite de Nova Iorque.

A reedição – que se fez em simultâneo com esta caixa (mas que aqui podia estar represenrada num terceiro CD) – dos quatro primeiros máxis dos New Order – “Ceremony”, “Posession”, “Everything’s Gone Green” e “Temptaion” – ajuda a completar o quadro que o livro descreve.

Venha lá agora uma edição semelhante para “Power Corruption and Lies”…

“Movement – Defenitive Edition”, dos New Order, está disponível numa caixa com 1 LP, 2 CD, 1 DVD e 1 livro, em edição da Rhino.

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