Os Beatles como mote para lembrar retratos da vida portuguesa na década de 60

Autor de livros como “Beatles em Portugal” e “Biografia do Ié Ié”, ambos disponíveis no catálogo da Documenta, Luís Pinheiro de Almeida apresenta agora, em “Com os Beatles… Caro Jó” uma série de olhares sobre o Portugal de meados dos anos 60. Os “fab four” e outros e artistas daqueles tempos são o mote, mas entre a coleção de cartas que então escreveu de Lisboa para um amigo que ficara em Coimbra (de onde é natural o autor) passam outros ecos daqueles tempos, desde marcas da vida em sociedade até a sinais da emergência de um futuro no jornalismo que, por aqueles dias, Luís Pinheiro de Almeida ainda não imaginava.

As cartas são sobretudo do intervalo entre 1964 e 1966 e, através de experiências pessoais e locais, abrem leituras, com novos pontos de vista, sobre a música, os comportamentos, os ritmos de vida de então. O livro é, por isso, um belo exemplo de como a paixão de alguém pela música (e o gosto de a partilhar) pode servir, anos depois, para criar retratos de tempos passados.

Volume de 104 páginas, este livro junta às cartas uma série de textos complementares, assinados por Marcelo Rebelo de Sousa (que foi colega do autor na universidade), Vitor Soares, Pedro de Freiras Branco e Albino Reis. Às palavras o livro acrescenta imagens que incluem recortes de imprensa da época, fotografias e postais.

Trocámos umas palavras com Luís Pinheiro de Almeida para ler o que nos conta este seu novo livro.

As cartas foram guardadas, ao longo de anos, pelo teu amigo a quem as escreveste. Imaginavas que tinham resistido ao tempo? E o que redescobriste ao reencontrá-las?

De todo! Nem sabia que existiam! Foi uma completa surpresa, pelo que tudo, mas mesmo tudo, foi um “achamento”. E mais! Nem sequer me lembrava de as ter escrito e mais ainda, nem do conteúdo me lembrava. Só um exemplo: não me lembro nada do baile no Hotel Ritz. Por isso, estou eternamente grato ao Jó. Não só me proporcionou este livrinho, que lhe é dedicado, como me avivou memórias e me revelou o “cronista” que eu era.

Achas que o livro recorda o “making of” de um futuro jornalista?

Não tenhas dúvidas! Apesar de ainda inconscientemente, está lá tudo! A vontade de conhecer, a vontade de ir à procura, a vontade de repartir a informação, a vontade do rigor da informação, vide a história da vinda a Portugal dos Animals.

O livro dá a ideia de que havia um fosso enorme a separar o acesso à informação entre Lisboa e Coimbra…

Foi um choque cultural brutal! Coimbra era província, onde nada ou quase nada acontecia e/ou chegava, ainda por cima, sendo uma cidade estudantil e após a crise académica de 1962, a Polícia duplicava os olhos de vigilância, de repressão. Lisboa, ainda assim, era mais cosmopolita e apesar da censura ditada pelo Estado Novo, era mais civilizada. Não me lembro, não conheço qualquer censura aos Beatles em Portugal, com excepção da “pressão” de Cerejeira para não autorizar um concerto no Estádio Nacional (difícil de provar), e a interdição parcial e temporária na Renascença quando das declarações mal entendidas de Lennon sobre Jesus Cristo.

O que sentes que alguém que não tenha vivido esses tempos pode descobrir nesta partilha de memórias?

Muito interessante esta tua questão. Inicialmente, o livro era só para constar de Beatles (daí o título). À medida que ia lendo e relendo as cartas – e fi-lo vezes sem conta – dei conta de que o livro poderia ir muito mais além e além dos Beatles fui juntando outras memórias relacionadas com a música em geral, a moda, o cinema, as raparigas, os locais, que valeria a pena aproveitar. Sem falsa modéstia, acho que foi uma decisão acertada. Deu como resultado uma espécie de “crónica social” da época que pode ser agora apreciada provavelmente com alguma surpresa nalguns casos.

Ainda guardas muitas coisas?

Tudo o que puder, o “bichinho” não morre! Só que agora talvez seja mais selectivo. A falta de espaço não perdoa! Mas inventei uma solução: estou a juntar tudo ou quase tudo para o Ephemera, de Pacheco Pereira.  Aí fica bem arrumado e organizado e eu posso ir ver/consultar sempre que quiser.

Explica aquela “mentira” sobre a vinda dos Beatles a Lisboa… Contas, numa carta de julho de 64, que “os gajos passaram aqui por Lisboa”, que “foram fazer um espectáculo ao Monumental”, com bilhetes “a 35 escudos” e que no “fim deram autógrafos”…

A “imaginação ao poder”! Hilariante não é? Provavelmente a primeira “fake news”. À época chamava-se “peta”. Divertido, se calhar para fazer inveja aos meus amigos de Coimbra. No final, foi a gargalhada geral.

Qual será o próximo livro sobre os Beatles?

Eu e a Teresa [Lage] gostamos de pensar – temos mesmo a veleidade de pensar – que já está tudo dito e redito sobre os Beatles nas duas edições de “Beatles em Portugal”. Mas como tu dizes, há sempre espaço para “experiências pessoais e locais”, sobretudo de quem foi contemporâneo ou então de jovens (vide o último projecto de Springsteen). No meu caso, tenho previsto para 2022 (quando fizer 75 anos) um livro sobre as minhas viagens (profissionais e pessoais), “Viagens Para Fora Da Minha Terra”: tenho a certeza de que vou falar de Beatles. Agradeço à Teresa a ideia.

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