Vamos falar sobre cassetes? É que estão de volta e a regressar às coleções…

A cassete, como a conhecemos – a chamada “compact cassette” –,  surgiu na década de 60 e representou então um desenvolvimento das possibilidades da fita magnética de gravação inventada em 1928 por Fritz Pfleumer (alemão de origem austríaca) e que esteve na base do gravador de bobinas que a AEG apresentou em 1935. Houve tentativas de desenvolvimento para a utilização da fita magnética, a mais popular tendo sido lançada pela RCA em 1958 na forma dos cartuchos de oito faixas que conquistariam adeptos na indústria automóvel. A cassete “compacta” foi inventada pela Phillips em 1962 e servia originalmente as funções de um dictafone, gravando vozes. Apresentada em 1963, numa feira em Berlim, a cassete venceu uma disputa entre alguns formatos alternativos e em 1964 ganhou forma a sua produção em massa.

O mercado começou por receber cassetes-virgem (comercializadas sem quaisquer gravações) até que, em 1965, surgiram os primeiros títulos de música pré-gravada em cassete. Foi então adotada a designação “music cassette” (daí as referências com as iniciais MC), correspondendo a sua proliferação à criação de estratégias para melhorar a gravação e reprodução do som. Afinal a cassete tinha surgido para gravar voz…. Essas estratégias passaram por melhorias na qualidade das fitas, na criação de filtros e sistemas de leitura de áudio, assim como novas máquinas que a escutassem com outra fidelidade. E a verdade é que o formato cresceu.

Se os leitores instalados nos carros e os “decks” caseiros deram à cassete a possibilidade de se expandir no mercado, o aparecimento de formatos portáteis acabaria por a levar ainda mais longe. A “boombox” (entre nós havia quem chamasse “tijolo” a esses leitores portáteis) e, mais ainda, o Walkman (lançado pela Sony em 1979), deram à cassete possibilidades de utilização que os discos em vinil não tinham. E a cassete conquistou o mundo, obtendo picos de vendas entre 1985 e 1992, entrando o formato em declínio com a chegada e expansão do CD.

A produção diminuiu drasticamente, mais ainda com a entrada em cena de suportes digitais para a gravação de voz. Durante anos a fio a cassete quase andou invisível. Até que sinais de interesse começaram a despontar já no século XXI. Uma das responsáveis pelo ressurgimento da cassete foi a rede de lojas de roupa Urban Oufitters que começou a incluir nos seus espaços, tal como o fizera com o vinil e os gira-discos, leitores de cassetes e uma oferta de títulos de música gravada no velho formato. A oferta começou por apresentar bandas sonoras de filmes populares (sobretudo “Guardians of The Galaxy”, cuja capa reproduzia de resto a imagem de uma cassete) e títulos de referência por bandas como os Queen ou Nirvana… Entretanto espaços da cultura pop, como a série “13 Reasons Why”, ajudaram a dar visibilidade ao formato que começou a cativar, mais do que a indústria da reedição, uma série de artistas que ali encontraram veículo para a sua música.

É certo que a cassete não tem a visibilidade nem do vinil nem será contribuição significativa para a gradual queda do CD no grande mercado. Mas é uma possibilidade presente sobretudo entre artistas de vários caminhos fora do mainstream – do rock à eletrónica – que têm muitas vezes optado pela criação de edições em cassete como expressão física em detrimento do CD ou vinil, juntando algumas um código para download.

Esta nova oferta em vários nichos e frentes não apaga o facto de haver artistas na linha da frente das atenções a editar em cassete. Os mais recentes álbuns de Madonna ou dos Vampire Weekend surgiram em cassete ao mesmo tempo do que as respetivas edições em vinil e CD. E Björk fez notícia quando, este ano, reeditou os seus álbuns de estúdio no formato de cassete.

O mercado do colecionismo e dos usados está também a reagir a este novo surto de interesse, notando-se em algumas lojas a presença de uma oferta de títulos, tanto novos como antigos… E aqui e ali, sobretudo na oferta online, já há preços a escalar… Quanto às reedições, que fizeram os primeiros apetites nos escaparates da Urban Outfitters, não serão mais as razões mais fortes para explicar o atual estado de inesperada (boa) saúde da cassete.

Haverá assim tanta gente que ainda tenha em casa ‘decks’ que leiam cassetes? Há muito que as aparelhagens deixaram de os incluir por norma. Mas também aí há um mercado de usados… E reapareceu uma oferta (pequena, mas existe) de leitores portáteis… Além disso haverá quem à cassete adira como objeto para ter e não necessariamente para ouvir (os códigos para download são aí uma boa estratégia)… Nada contra. O certo é que a cassete anda novamente por aí…

2 thoughts

  1. Queria deixar o meu testemunho de alguém que já na casa dos 50, nunca abandonou certos prazeres da vida como a audição da música e manteve sempre a funcionar o seu gira-discos e os seus leitores de cassetes áudio.
    É com muito gosto que assisto ao reaparecimento, primeiro do vinil e agora da cassete.
    Há que manter todos os sentidos a funcionar. Não só a audição mas o tato e o cheiro, já para não falar de todas as rotinas na colocação do vinil e cassete nos respetivos dispositivos. A paixão pela música só está completa, quando todos este fatores são encadeados. Boas audições.

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  2. O problema das cassetes são os aparelhos que avariam, nem sempre há peças (plásticas que partem) e nem sempre os técnicos reparadores gostam de perder tempo a retirar correias desfeitas tipo chiclete. O som da cassete depende da qualidade gravação, da fita boa e do aparelho leitor. Numa boa aparelhagem o som não deve nada ao digital… No suporte analógico a musica passa pelas nossas mão e isso é uma forma de prazer…

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