Buggles, “Video Killed The Radio Star”

Lado A: Video Killed The Radio Star

Lado B: Kid Dynamo

Island, 1979

Poucas canções ficaram na história como símbolos de um tempo. Editado a 7 de setembro de 1979 o single de estreia dos Buggles, “Video Killed The Radio Star”, sugeria, com alma quase profética, a visão de um momento de viragem na história da relação da música com os media. Como tantas profecias não era coisa para leituras literais. Mas quando, em 1981, a MTV escolheu o teledisco desta canção para abrir a sua primeira emissão, a profecia cantada dois anos antes ganhava o peso de uma mensagem: a televisão seria a casa de uma nova era na história da música… O tempo mostraria que, mais do que a televisão (como meio), o que mudava sobretudo – e com o pequeno ecrã como veículo inicial – era a relação da música com as imagens. A televisão não matou a rádio. Tal como antes não matara o cinema. Mas a mensagem dos Buggles, na forma de uma canção, definiu o momento da transição do antes para o depois de uma relação quase inseparável entre a música e as imagens. Já havia telediscos. Mas, depois de 1981 (e aí com a MTV, na altura em que o “m” era de “música”), passam a ser ferramenta fulcral no jogo de comunicação de cada novo disco… E não deixa de ser curioso verificar que há hoje muitas estações de rádio que juntam – online – janelas de vídeo à sua voz áudio mais “clássica”. Os Buggles só não acertaram no verbo. Matar não foi o caso. Mas depois da chegada do vídeo a música, de facto, não mais soube viver sem as imagens.

A canção tem uma história que recua a 1978 e à materialização da ideia que ganharia forma nos Buggles. Trevor Horn, Geoff Downes e Bruce Wooley, que tinham começado a gravar maquetes desde finais de 1977. Horn era já produtor (de jingles publicitários e de bandas punk). Conhecera Geoff nas audições para a formação de uma banda que iria acompanhar Tina Charles, em 1976. Wooley, que tocava na banda residente do Hammersmith Odeon, entra em cena pouco depois. Assim como uma sugestão de Daniel Miller (o futuro “patrão” da Mute Records) para que lessem J.G. Ballard… E na verdade “The Sound Sweep”, um conto de Ballard, assim como uma admiração partilhada por todos pelos Kreaftwerk, são peças-chave na raíz de “Video Killed The Radio Star”.

A canção surgiu numa tarde de ensaios na casa de Geoff Downes e, meses depois, ganhou forma numa série de sessões entre os estúdios Town House (instrumental) e Sarm East (voz), ambos em Londres. A mistura exigiu várias revisões, sobretudo marcadas pela busca de uma maior pujança da secção rítmica que Trevor Horn então buscava. Pelo caminho os Buggles passam de trio a dupla com a saída de Woolley, que gravaria esta mesma canção na nova banda que então forma, os Camera Club.

O single, que assinalou a estreia em disco dos Buggles, chega às lojas a 7 de setembro de 1979 e gera um fenómeno de popularidade que lhes dá visibilidade planetária, conquistando o número um em tabelas de vendas em 16 países. Numa equação com variáveis de preocupação pelo futuro da tecnologia e um sentido de nostalgia (não conservador, sublinhe-se) a canção procurava olhar os tempos que a humanidade tinha pela frente. Temática que, de resto, era então comum a várias outras canções e discos e que acabaria por definir a alma do álbum de estreia dos Buggles, “The Age of Plastic”, que seria editado já em 1980 (e no qual “Video Killed The Radio Star” surge numa versão mais longa.

A letra começa por aludir a memórias de noites passadas a escutar a rádio…

I heard you on the wireless back in fifty two
Lying awake intent at tuning in on you
If I was young it didn’t stop you coming through

O terceiro verso abre caminho a uma alusão a um novo domínio da máquina sobre o homem, aqui claramente fruto dos ecos das leituras do conto de Ballard…

They took the credit for your second symphony
Rewritten by machine on new technology
And now I understand the problems you can see

Mais adiante abre-se uma janela de nostalgia, lembrando tempos passados, talvez perdidos (e com uma curiosa nota autobiográfica pelo facto de Trevor Horn ter sido um produtor de jingles)…

And now we meet in an abandoned studio (ohh)
We hear the playback and it seems so long ago
And you remember the jingles used to go (ahh)

Pelo caminho, ficava ainda uma observação sobre o modo como a chegada das imagens deixara a radio de coração despedaçado…

Video killed the radio star
Video killed the radio star
Pictures came and broke your heart

Se a popularidade que a canção alcança logo entre 1979 e 1980, e o facto de ser um dos primeiros êxitos globais da pop eletrónica, lhe garantia logo um lugar na história, deve-se, contudo, à escolha da MTV o episódio que a mitifica. E para isso foi fulcral a aposta – logo em 1979 – na criação de um teledisco, para o qual os Buggles chamaram o realizador australiano Russel Mulcahy que, pouco depois, ganharia um lugar de ainda maior destaque na história do vídeo musical através de uma série de colaborações com os Duran Duran entre 1981 e 1984.

Os Buggles nunca repetiram o sucesso de “Video Killed The Radio Star” mas mesmo assim tiveram alguns mais episódios de visibilidade com canções como “Clean Clean” ou “I Am A Camera”… Depois de “Adeventures in Modern Recording”, um segundo álbum (editado em 1982), deram a sua história por terminada, seguindo os dois músicos para outros caminhos.

Em 2004, numa gala do Prince’s Trust, juntaram-se em palco os três elementos da formação original dos Buggles para, pela primeira vez, apresentar a canção ao vivo. Nessa ocasião juntaram-se ainda a eles as duas coristas e o baterista que tocou nas sessões em estúdio em 1979.

Já agora, como complemento, aqui fica a versão de “Video Killed The Radio Star” pelos Camera Club, a banda então formada por Bruce Wooley. Pois… não é difícil perceber porque foi a dos Buggles que a memória fixou.

One thought

  1. “Em 2004, numa gala do Prince’s Trust, juntaram-se em palco os três elementos da formação original dos Buggles para, pela primeira vez, apresentar a canção ao vivo. Nessa ocasião juntaram-se ainda a eles as duas coristas e o baterista que tocou nas sessões em estúdio em 1979.”

    …e o “nosso” produtor Luis Jardim na percussão, shakers etc…

    Bom artigo 🙂

    Gostar

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