A história dos Joy Division contada pelas palavras e memórias de quem a viveu

Quando, já em 1980, Ian Curtis deu a entender que o seu futuro poderia não estar na música e que gostava de se mudar para a Holanda e, aí, abrir uma livraria, os seus companheiros persuadiram a não seguir esse caminho. Quem o conta, pelas suas palavras, é Stephen Morris que, depois remata: “Se ele se tivesse agarrado ao que queria fazer, se calhar ainda hoje estaria vivo”. São palavras que lemos em “The Searing Light, The Sun and Everything Else”, uma “história oral” dos Joy Division que Jon Savage publicou este ano pela Faber & Faber. São palavras que o antigo baterista nunca podia ter proferido numa entrevista em 1980 quando, depois da notícia do suicídio de Ian Curtis, os três outros membros da banda olhavam o seu futuro e começavam a moldar a história dos New Order. Só o tempo permite esta capacidade de refletir sobre o que aconteceu e o que podia ter acontecido. Daí que, 40 anos depois do momento em que o mundo descobriu as visões lançadas pelo álbum “Unknown Pleasures”, talvez seja 2019 o tempo certo para, com distância, podermos voltar aos Joy Division pelas palavras dos que construíram a sua história ou a acompanharam bem de perto.

Com uma história pessoal que o fez cruzar com a explosão do punk numa altura em que dava primeiros passos no jornalismo – vindo mais tarde a assinar o livro “England’s Dreaming”, sobre os Sex Pistols e o ambiente em que foram protagonistas de uma revolução – Jon Savage passou por publicações como o “NME”, o “Melody Maker”, a “The Face”… Cruzou-se com os Joy Division, mais tarde com os New Order. Escreveu o prefácio da biografia de Ian assinada por Deborah Curtis. E assinou o guião do documentário sobre a banda que Grant Gee realizou. Regressar aos Joy Division era, agora, como um desafio. O que contar de novo? E sobre que ponto de vista? A escolha apontou a modelos de construção de um coro de vozes que, em conjunto contam uma história. Como o fizeram já os Beatles ou U2. Ou, já este ano, também os Orchestral Manouevers In The Dark (brevemente falarei desse volume aqui). E assim nasceu uma história oral.

O interesse acumulado por quatro décadas que não permitiram a criação de sinais de erosão sobre nem as canções nem os mitos, poderia ter justificado a criação de um tijolo de muitas e muitas páginas. Mas Jon Savage optou pela concisão. Uma concisão que nem omite nem faz ligeiras as observações, mas que edita os cruzamentos de memórias para que a densidade da narrativa e o volume de informação sejam coisa bem estruturada, sem repetições, sem perdas de tempo em detalhes periféricos (que talvez interessassem mais aos que deram as entrevistas do que aos que vão ler as páginas). Uns valentes anos de trabalho no jornalismo deram ao autor a noção do que é uma história, como se conduz, como nela podemos encontrar pontos de respiração e, logo depois, novos motivos para nos fazer querer voltar a página e continuar. Mesmo sabendo de antemão como a coisa acaba…

Jon Savage falou de novo com os vivos e convocou memórias dos que já não estão entre nós. E assim conseguiu juntar aqui “as vozes” dos quatro elementos dos Joy Division, dos fundadores da Factory Records, dos demais músicos e amigos que com eles conviveram, os jornalistas e os fotógrafos que os acompanharam, e tudo isto sem esquecer as famílias. Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris contam a história como a viveram. Palavras de Ian Curtis, pontualmente, acrescentam detalhes. Muito perto, interventivos, estão aqui as memórias de Peter Saville, Tony Wilson, Rob Greton, Martin Hannett. Atentas, porque muito próximas, “escutamos” Deborah Curtis, Gillian Gilbert, Lindasy Reade (que então era casada com Tony Wilson) ou Annik Honoré. Pete Shelley (Buzzcocks), Jeremy Kerr (A Certain Ratio), Richard Kirk (Cabaret Voltaire), os fotógrafos Kevin Cummins ou Anton Corbijn ou jornalistas como Paul Morley ou Mary Harron, acrescentam olhares, recordações, opiniões. A esmagadora maioria das entrevistas surgiu nas filmagens do documentário de Grant Gee. Outras foram feitas em 2018. Os que já não se encontram vivos falaram em tempos com Jon Savage para diversos artigos. E Deborah é citada através do seu livro. Outras fontes são referidas quando usadas.

Jon Savage não condiciona o caminho, deixa as vozes deste coro soar… E tanto escuta os momentos de descoberta, fascínio e entusiasmo, como os episódios difíceis, as lutas, os maus bocados. Paul Morley comenta com desagrado o tom mitómano com que Tony Wilson o chama a ver o corpo de Ian. Os músicos falam dos sinais de alerta que o cantor estava a lançar e que ninguém assimilou devidamente a tempo… A história começa nos subúrbios de Manchester, assimila os lugares e o quotidiano e observa como um foco gravítico acabou por juntar quatro músicos e como, depois, em estúdio, o que era uma força invulgar ganhou forma como peça ainda mais rara e única. Sente-se a mudança de tom entre o antes e o após “Unknown Pleasures”. A vida torna-se mais intensa. A agenda mais carregada. A criação de “Closer” faz-se (porque sabemos o fim) a contra-relógio… E ficam claros, pelos sinais das últimas sessões, que os caminhos de futuro iam levar a música a novos caminhos… A história, como Jon Savage escuta e escreve, termina em 1980, depois dos serviços fúnebres. Stephen Morris explica que decidiram continuar e que, na verdade, nunca se sentaram a pensar “o que vamos fazer?”… Como ele mesmo lembra: “Fomos em frente e esperámos que corresse bem, porque é assim que somos”…

“This Searing Light, The Sun and Everything Else”, de Jon Savage, é um volume de 324 páginas, publicado em 2019 pela Faber & Faber.

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