Daniel Johnston: discreto adeus para um ‘outsider’ que nos deixa aos 58 anos

Qual é o poder de uma T-shirt? A história de Daniel Johnston, que hoje morreu, aos 58 anos, pode começar a ser contada através de um pedaço de pano estampado. Porquê? Porque nos MTV Awards de 1992 (e em diversas situações posteriores) Kurt Cobain entrou em cena envergando uma T-shirt com um dos mais míticos desenhos de Daniel Johnston, lançando imediatamente uma vaga de curiosidade sobre o seu autor. Na altura Johston tinha já trabalhado com Jad Fair e mesmo com os Sonic Youth e surgido inclusivamente num especial da MTV sobre a cena musical de Austin. Mas, nessa altura, a sua discografia em CD mal havia começado a nascer, estando então grande parte do seu “catálogo”, registado intensamente desde 1980, disponível apenas em cassetes de gravação caseira.

Natural de Sacramento (Califórnia), onde nasceu em 1961, foi uma figura rara na história da música “lo-fi”. Cantautor frequentemente descrito com adjetivos intensos, Daniel Johnston foi um ‘outsider’ que o tempo acabou por transformar numa referência. Era sobretudo admirado pelo tom direto, puro, quase infantil, das suas canções. E juntava à obra na música – que criava e gravava, sozinho, em casa (nos anos 80, antes das vagas do it yourself que chegaram depis) – um dom igualmente único no desenho. Era por isso o autor das capas das suas cassetes e, mais tarde, discos, que entretanto acabariam por cativar atenções.

Fruto da curiosidade lançada por Cobain e, mais ainda, do impacte gerado pelo documentário The Devil And Daniel Johnston, de Jeff Feuerzeig, o tempo começou finalmente a fazer justiça a um autor que, longe de ser o génio por vezes apregoado numa imprensa com gosto pelo adjetivo superlativo, tem uma obra de talento evidente e que espelha marcas de uma personalidade claramente demarcada.

Daniel acabou por se tornar uma figura de culto, citada como referência por nomes como David Bowie, Tom Waits, Beck ou os Flaming Lips. Atormentado pela doença mental desde muito jovem, assombrado por uma patologia que se projeta na sua obra (e lhe mereceu comparações, nunca absolutamente precisas e exageradas, com Brian Wilson), Daniel Johnston viveu difíceis dias nos anos 90, reduzindo a sua produção a uma mão cheia de discos, sobretudo editados em cassete.

Na primeira década do século XXI, sob medicação nova que lhe deu uma estabilidade mais regular, foi gravando discos e, sobretudo, conquistado maior visibilidade como desenhador, tendo inúmeras obras suas sido entretanto expostas em galerias e museus (o Whitney, de Nova Iorque, por exemplo, expôs trabalhos seus).

Em 2006 ele mesmo trabalhou a criação de “Welcome To My World” uma primeira antologia representativa da sua obra nos anos 80 e inícios de 90. Material até aí disponível em cassete começou então a figurar em novas plataformas digitais, servindo o interesse que, entretanto, se focara em seu redor. Data ainda de meados dessa mesma década o par de álbuns que coincide com um surto de interesse mais vivo por parte da imprensa musical. “Fear Yourself” (2003) e “Lost and Found” (2006) são, mesmo assim, boas portas de entrada para a (re)descoberta de uma obra que envolve títulos marcantes como “Yip/Jump Music” ou “Hi HOw Are You? The Unfinished Album”, ambos de 1983 e hoje verdadeiras preciosidades para colecionador nas suas edições originais em cassete. Os seus discos mais recentes datam de 2013.

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