Memórias de uma grande noite de ‘gospel’ com Aretha Franklin

Editado em junho de 1972 “Amazing Grace” transformou-se rapidamente no maior fenómeno de popularidade, não apenas entre a discografia de Aretha Franklin como na própria história do gospel em disco. O álbum, editado no formato de duplo LP, nascera de gravações captadas ao vivo em duas noites de janeiro desse mesmo ano. E na verdade, desde o início, ao registo do áudio – destinado ao disco – estava prevista a criação de um documento visual. Um filme, para o qual foi convocado o realizador Sydney Pollack e uma equipa que ali o acompanhou durante essas duas noites. Porém, se no plano do áudio tudo bem, já entre as imagens a coisa foi diferente. Ninguém levou claquetes… Nem ninguém se lembrou de usar um dispositivo alternativo pelo que, na hora de procurar o sincronismo entre as filmagens captadas por câmaras de 16 mm e o áudio, as dificuldades foram tais que acabaram por ditar um fim inesperado ao projeto… E, durante anos, o filme, que tinha estreia agendada para 1972, ficou remetido a uma gaveta esquecida.

Passaram anos até que, em 2007, o produtor Alan Eliott adquiriu as bobinas com os brutos das filmagens de janeiro de 1972 na New Temple Missionary Baptist Church, em Los Angeles. Com outra tecnologia disponível lançou-se no desafio de dar voz síncrona às imagens. Mas desta vez as dificuldades chegaram da parte da própria Aretha Franklin, que se opôs à apresentação pública das imagens e processou o realizador. O contrato original, entretanto encontrado, acabou por ajudar a desbloquear o processo, sendo apontada então uma estreia para a edição de 2015 dos festivais de Telluride, Toronto e Chicago. Uma vez mais Aretha reagiu e ameaçou lançar novo processo por não autorizar a divulgação das imagens… O silêncio só foi novamente rompido quando, depois da morte da cantora (em 2018), a família alcançou um acordo, tendo “Amazing Grace” finalmente chegado ao grande ecrã numa estreia acolhida pelo Doc NYC em dezembro de 2018.

Desaparecido em 2008, Sydney Pollack não participou na etapa de (re)construção do filme. Na verdade o que vemos agora em “Amazing Grace” é o resultado da visão de Alan Eliott, trabalhada pelo engenheiro de som Serge Perron e o montador Jeff Buchanan. Mais do que um ‘making of’ ou um filme-concerto, “Amazing Grace” é uma experiência que pisca o olho ao cinema-verité e tem o condão de nos transportar para o local e o tempo em que tudo aconteceu.

As imagens são arrumadas cronologicamente e acompanham a evolução de duas noites nas quais o reverendo James Cleveland (figura de referência do gospel) desde logo explica que se vão viver momentos especiais mas que, no fundo, não deixam de estar numa igreja e aqueles são, de certa forma, serviços religiosos. Desafia assim, como o fazia todos os domingos, a que participassem, respondesse, interagissem, com aqueles que cantavam e tocavam. A verdade participativa que então de vive dilui o que poderiam ser as fronteiras entre o concerto e o serviço religioso. É essa verdade que impede que se estabeleçam muros e distâncias. Antes pelo contrário, plateia, cantora, músicos e coro vivem um momento de comunhão.

Esta ideia de partilha não se limita aos espaços entre artistas e público (entre o qual vemos Mick Jagger e Charlie Watts, que nesse momento estavam em Los Angeles a trabalhar nas sessões do álbum “Exile On Main Street”). A música também atravessa fronteiras. E entre a pop e os terrenos mais claros do gospel emerge uma abordagem que conta com a voz de Aretha Franklin como o fio condutor.

Há uma certa informalidade no ar. Que vem certamente do quotidiano daquela congregação e consegue ignorar a equipa que naquela noite a invadiu com luzes e câmaras. Sente-se o calor dos projetores no suor que escorre nas faces de alguns protagonistas. As trocas de olhares, os movimentos, mostram que não vemos um momento cenicamente projetado a rigor. E a capacidade em não alterar esse sentido de verdade, deixando visíveis alguns enganos, recomeços, ajustes de microfone, juntam-se às grandes interpretações por Artha, músicos e coro, para fazer de “Amazing Grace” um documentário que é bem mais do que um bom filme-concerto.  

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