Janela aberta sobre uma aventura de Miles Davis nos anos 80, entre sabores… pop

Foto: Suzanne Rault Balet/Warner

E de uma velha gaveta, eis que surge um convite para um mergulho no tempo. A história começa em meados dos anos 80, num tempo em que Miles Davis descobria uma nova forma de descobrir música: o teledisco. Tinha por hábito a televisão ligada na MTV, mantendo a imagem sempre presente, só levantando o volume do som de vez em quando… E isso acontecia quando no pequeno ecrã passava um telediscoo que o cativasse ou de alguém de quem gostasse. Tinha já gravado abordado leituras suas a canções de Michael Jackson e Cindy Lauper no álbum que editara em 1985. E surge então um desejo de experimentar uma aventura por esses mesmos caminhos. Mas com temas originais. Marca tempo nos estúdios de Ray Parker Jr. (o mesmo de “Ghostbusters”) e entre finais de 1985 e inícios de 1986 começa a lançar as bases para o projeto de um álbum… pop.

Miles viva então um episódio de transição, preparando a sua estreia no catálogo da Warner, para o qual registaria a etapa final da sua discografia. Acontece que Tommy LiPuma, que então segurava o leme do jazz na editora, sugere um caminho diferente para o álbum de Miles Davis. Abrem-se as portas para as sessões que o levariam a “Tutu”. E “Rubberband”, o disco no qual estava a trabalhar, ficou na gaveta. Na verdade a gaveta não foi estanque e, na estrada, ao mesmo tempo que depois tocou os temas de “Tutu” (editado em 1986), Miles não só chamou ao palco alguns esboços que trabalhara para “Rubberband” como versões de algumas das canções pop que entretanto o motivavam… É assim que o escutamos a tocar ao vivo “Human Nature” de Michael Jackson, “Time After Time” de Cindy Lauper (que chegara a registar no seu último disco gravado para a Columbia), pelo caminho incluindo “Perfect Way”, dos Scritti Politti, no alinhamento de “Tutu”.

O tempo passou, a memória de “Rubberband” foi-se esvaindo, até que recentemente a Rhino desafiou o sobrinho de Miles Davis, Vince Wilburn Jr, que na altura era baterista na banda do tio, a pegar nas fitas para terminar o disco que ficara inacabado em 1986. As sessões estavam inacabadas. Não havia de todo ali uma ideia de um álbum que ficara por editar mas, antes, peças inacabadas que obrigavam a um labor adicional. É dessa necessidade de terminar o que ficara inacabado que surge um pensamento sobre como fazer em 2019 o disco que ficara suspenso em 1986. As vozes originalmente pretendidas por Miles Davis não podiam ser chamadas. Al Jarreau deixou-nos em 2017. E, como me explicou há dias o sobrinho de Miles, Chaka Khan estava ocupada pela sua agenda de palcos. Foram por isso convocadas novas vozes – Ledisi, Medina Jackson ou Lalah Hathaway – e tomada uma opção de produção procurando atualizar, ma non troppo, a sonoridade do álbum.

Vale a pena ler as notas de George Cole – autor de “The Last Miles – The Musico f Miles Davis 1980-1991” – que surgem publicadas na capa de “Rubberband” para nos apercebermos da dimensão do projeto que Miles tinha em vista e que deveria ter chamado mais colaborações (desde a presença de Bill Laswell, George Duke ou uma canção que Prince lhe chegou a enviar) para assim podermos entender esta visão do disco que agora nos chega às mãos como um caminho possível para o completar. Partindo de esboços as ideias ganham forma e, de certa maneira, sugerem um elo de ligação entre propostas lançadas em “You’re Under Arrest” e a dimensão mais ancorada nas marcas de protagonismo do solista que emergiriam depois em “Tutu” (que mantém, mesmo assim, a mesma curiosidade pela exploração dos caminhos que as eletrónicas e as técnicas de produção então mais seguidas em terreno pop que o terão motivado a explorar estas possibilidades).

“Rubberband” não é, de todo, um disco como o que em 2018 trouxe dos arquivos uma série de gravações “perdidas” de Coltrane. Mas dos esboços de Miles gravados entre 1985 e 86, chegam finalmente aos nossos ouvidos expressões de uma inquietude que se deixou seduzir pelos caminhos que a música pop então tomava e pelos desafios que lhe poderia lançar. Miles estava atento. E nada dado a acreditar em barreiras.

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