Alex ‘FX’ Fernandes

Alexandre Fernandes tem 49 anos, é gestor de produto (na área informática e telecomunicações mas é sobretudo conhecido no mundo da música como multi-instrumentista, produtor e programador musical, com uma obra em disco sob o nome Alex FX

Qual foi o primeiro disco que compraste?

Muito difícil recordar com precisão, porque eu e a minha mãe devorávamos imensos discos. Foi dela que cedo adquiri o hábito/ritual de ouvir discos, apreciar capas, memorizar letras e instrumentos. Recordo-me porém do primeiro disco que – com apenas cinco anos (em 1975) – ouvia vezes seguidas, decorando todos os instrumentos, transições, harmonias, etc. Foi o “Close to the Edge” dos Yes. A capa do Roger Dean fez-me cedo mergulhar num mundo que só mais tarde encontrei paralelo na BD do Bilal. Lembro-me também de Kraftwerk aos sete anos de idade (“The Man Machine”) e de em 1981 (tinha 11 anos) ter comprado o primeiro álbum dos Duran Duran em Lisboa, no Rossio. Recordo-me de ouvir “Rumours” dos Fleetwood Mac mal saiu, ao lado da minha mãe, e vibrar com o “Gold Dust Woman” e o “The Chain”.

E o mais recente?

O trabalho de estreia do projecto fundado pelo Thomas Feiner com o Steve Jansen – Exit North “Book of Romance and Dust” e também o novo do Sascha Ring (Apparat) “LP 5”

O que procuras juntar na tua coleção?

Já foi mais colecção do que actualmente é, mas procuro trabalhos que me transcendam, me questionem ou até mesmo me inquietem. Já cessei em boa parte a procura das coisas que me inspiram, porque essas fizeram parte de um tempo em que a busca tinha outros propósitos.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo?

Uma reposição de uma edição rara em caixa de papel do Ryuichi Sakamoto “Playing the Orchestra”, porque não sei a quem em tempos emprestei e nunca mais voltei a ver. Tenho a caixa mas não os 2 CD que lá estavam.

Um disco pelo qual esperaste muito até que finalmente o encontraste…

Não é um disco mas sim um DVD ao vivo do Steve Jansen “The Occurance of Slope”, exclusivo para o Japão.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Acima de tudo, tem de existir bom senso. Naturalmente, tenho algumas peças que foram extremamente caras (face ao que se ganhava na altura da aquisição), mas também tenho itens que não possuem um valor calculável, como o exemplo a edição instrumental do “Liquid” dos Recoil, oferecida em mão pelo Alan Wilder, e que eu sei apenas existirem menos de meia dúzia de cópias no mundo.

Lojas de eleição em Portugal…

Tubitek, Matéria Prima, Flur, Louie Louie. Pouco tenho andado por lá, por substancial falta de tempo.

Feiras de discos. Frequentas?

Não tanto quanto costumava, mas se me deparo subitamente com uma, lá fico.

Fazes compras ‘online’?

Sim. Preferencialmente via canais como o Bandcamp ou similares. Quanto mais próximo/directo do artista, melhor. O conceito do Spotify é-me abjecto; seria assunto para perder muito tempo a explicar o quão indigno é para a generalidade dos artistas.

Que formatos tens representados na colecção?

Todos, excepto cartuchos de 8 pistas. Sim, inclui até discos de grafonola e fita magnética em bobine. O facto de ter trabalhado imensos anos em lojas de discos e editoras fez com que -paralelamente- o avolumar de promos, dubplates e edições únicas me viessem parar às mãos de uma forma quase diária. Era naturalmente um privilegiado.

Os artistas de quem mais discos tens

Depeche Mode, Recoil, David Sylvian, Ryuichi Sakamoto, Photek, The Disposable Heroes of Hiphoprisy, Nitzer Ebb, The The, … é um rol quase impossível de memorizar.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas.

4AD, Mute e ZTT nos inícios dos anos 80. Os meados e fim dessa década tiveram imenso som de Chicago por causa do Boom do House/Acid House. Já os 90 tiveram muito da Warp e inúmeras editoras de Jungle (Drum’n’Bass) como a Metalheadz, Certificate 18, Moving Shadow, etc. É facílimo perceber como o cunho da electrónica assentou de pedra e cal na minha vida, mesmo quando viajando nos mundos experimentais de nomes como Cage, Stockhausen e Reich, entre tantos outros.

Uma capa preferida.

Talvez o “Black Celebration” dos Depeche Mode, por dois motivos díspares: porque me recorda o momento mais negro da minha vida (a perda da minha mãe) e a decisão de me focar e dedicar à música, em vez de partir para caminhos mais estúpidos e auto-destructivos. Foi (a par com o David Sylvian) a minha tábua de salvação.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Laibach “Krst pod Triglavom-Baptism” ou Coil “The Unreleased Tracks from Hellraiser”.

Como tens arrumados os discos?

Tive de fazer um arquivo numa cave para o vinil e alguns dos CD. O restante está em casa ou no estúdio. A partir do momento que existem filhos, há que olhar mais pelo espaço comum de todos e menos por nós. Mas sempre segui uma ordem específica: alfabética. As excepções eram no caso de editoras e edições especiais (boxset, etc.). Por exemplo, tudo o que gira à volta dos projectos oriundos dos Depeche Mode está junto, tal como nos Japan. Existem também os organizados por editoras, bandas sonoras, bem como a música erudita, clássica, jazz, contemporânea, experimental e a enorme biblioteca de sons (sound libraries) que uso não só pera trabalho e manipulação em estúdio mas também quando preciso um “pano de fundo” para ler ou escrever.

Um artista que ainda tenhas por explorar.

Os Residents (só conheço uma pequena parte do universo) e também a parte dos trabalhos para voz/coros do Arvo Pärt. Só há muito pouco tempo comecei a ter poder de encaixe para trabalhos vocais na música erudita e contemporânea. Sempre tive a predileção pelos trabalhos instrumentais nessa área. A idade confere-nos a habilidade da paciência e de relativizarmos tudo de um modo muitíssimo mais pacífico. O sentido da revolta e descoberta deu lugar ao sentido da compreensão mais alargada, de perceber todos os contextos possíveis. Um pouco como aquela frase do Bowie que diz o processo de envelhecimento ser o que nos torna na pessoa que deveríamos ter sido sempre. Se isso for sinal da “crise da meia-idade”, soa-me mais salutar (e barato) do que um descapotável.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Não me consigo recordar de tal coisa, até porque divido a música que ouço em dois blocos: a que fica e a que parte. Porque há que aprender com tudo; o bom e o dispensável. Só saberás o que é bom quando estiveres presente perante o seu oposto.

Já compraste discos que, afinal, já tinhas?

Alguns; é raro porque tenho uma memória visual extrema. Porém, os que comprei foram  propositadamente (nos casos de edições raras em vinil). Exemplo disso foram os tempos de colecionar Depeche Mode (até à saída do Alan). Imagina duas cópias de cada lançamento por cada país e ficamos apenas por aí…

O que fazes com os discos repetidos?

Geralmente guardo-os (os duplicados/triplicados por engano) e se futuramente alguém os quiser, vendo-os ou ofereço, consoante os casos.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Some More Crime “Another Domestic Drama in a Suburban Hell”, um dos projectos menos conhecidos do Burnt Friedman, ou então a série de discos “Soothing Sounds for Baby” do Raymond Scott.

3 thoughts

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.