Um disco a “Solo” para começar a reencontrar a obra ainda inédita de Bernardo Sassetti

Apesar de não ser tão frequente entre nós como em outros lugares, o interesse pelo lançamento póstumo de gravações deixadas por músicos começa a ganhar outro fulgor. Não há entre nós exemplos comparáveis ao volume de títulos que as discografias póstumas de Jeff Buckley ou Jimi Hendrix juntaram aos discos que um ou outro haviam lançado em vida. Nem tínhamos até aqui um projeto de edições com alguma regularidade como o que tem vindo a colocar no mercado discos de David Bowie ou Prince desde que ambos nos deixaram. É verdade que temos vindo a descobrir gravações inéditas de Amália, mas muitas delas integradas como extras em reedições de títulos históricos. Com o espólio deixado por Bernardo Sassetti – que tem vindo a ser inventariado pela Casa Bernardo Sassetti – vamos conhecer ao longo dos próximos anos uma série de lançamentos que, possivelmente ao ritmo de dois discos por ano, tornarão disponível material gravado num volume que poderá ser arrumado em nove novos álbuns.

Uma seleção de gravações efetuadas no Teatro Micaelense (Ponta Delgada) em 2005 numa “residência” à porta fechada que durou três dias ganha agora forma em “Solo”, claramente a melhor forma de abrir esta janela sobre memórias ainda inéditas registadas por um dos maiores músicos que conhecemos no nosso tempo.

A curiosidade em explorar as potencialidades do piano que ali estava levou-o, acompanhado por Nelson Carvalho, a esta viagem de descoberta e encantamento. Sem um programa concreto em mente, mas sem pôr de parte a possível edição de um disco – já que no final do alinhamento ouvimos a sua voz a dizer “Eh pá, não vos massacro mais, está feito! Temos disco!” – Bernardo Sassetti foi tocando ali algumas peças nas quais estava a trabalhar (como os dois momentos da banda sonora que criou para “Maria do Mar” de Leitão de Barros), temas já antes gravados, inéditos absolutos ou até uma abordagem sua a “After The Rain” de John Coltrane.

Inês Laginha (que assegura a direção artística da Casa Bernardo Sassetti) e o mesmo produtor que ali o acompanhara nas gravações escolheram entre o material gravado nestas sessões um alinhamento que traduz a essência da visão do compositor e pianista. É, como ele tantas vezes gostava de dizer, um jazz que também não é jazz. E é essa existência que transcendia os géneros e não acreditava em barreiras que, uma vez mais, caracteriza aqui a música que ouvimos tocada por Bernardo Sassetti.

“Solo” abre a série de lançamentos, à qual se juntará brevemente uma gravação da música criada para um espetáculo criado a partir de “Menina do Mar” de Sophia de Mello Breyner Andressen. Para 2020 está já agendada a edição, com a Sinfonietta de Lisboa, da música para “Maria do Mar” de Leitão de Barros… O resto, que fica para a frente, é ainda surpresa…

“Solo”, de Bernardo Sassetti, está disponível em CD e nas plataformas digitais de streaming numa edição da Casa Bernardo Sassetti.

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