Cinquenta anos depois, a velha passadeira ainda guarda as memórias de Abbey Road

Em primeiro lugar destaca-se a passadeira. Lá está na rua, a mesma onde há 40 anos os quatro Beatles caminharam, sete vezes para trás e para a frente para a imagem que serviria de capa ao álbum que estavam a acabar de gravar e ao qual deram o nome da rua que acolhia os estúdios: Abbey Road. Esses ficam ali ao lado, com o portão do pátio (que serve de estacionamento) junto ao local onde, há 40 anos, um morador no outro lado da rua deixara estacionado o seu Volkswagen branco. O carro, ao qual a matrícula foi roubada pouco depois de lançado o álbum (em finais de setembro de 1969), já lá não está. Mas não é a falta de adereço que desmotiva a vontade de recriação de uma das mais icónicas imagens da história do rock’n’roll, sendo quase diária a presença de fãs dos Beatles que, ali, encenam a foto que há poucos dias fez 40 anos. E conta quem vive no bairro que, nestas quatro décadas, não foram poucos os acidentes que, na passadeira, colheram alguns dos que procuravam repetir a façanha dos Beatles sem fazer o que, em 1969, os fab four terão acautelado: parar o trânsito naquela rua da pacata área de St John’s Wood, no Norte de Londres, por breves 15 minutos…

Junto à passadeira o edifício no n.º 3 de Abbey Road é uma velha casa georgiana do início do século XIX na qual foram construídos, nos anos 30 do século XX, os primeiros estúdios de gravação levantados do chão para o efeito. Os EMI Recording Studios. Ali gravaram, desde então, nomes tão distintos como Edward Elgar, Glenn Miller, Peter Ustinov, John Williams, os Pink Floyd e, claro, os Beatles (que ali registaram mais de 90 por cento da sua obra em disco de 1962 a 1969).

Se a passadeira é um ícone, os muros que envolvem a propriedade sublinham a devoção dos admiradores. Lá estão assinaturas, algumas acompanhadas por excertos de letras de canções dos Beatles. Inscrições efémeras, de tantos em tantos meses apagadas com nova pintura a branco (que não resiste muito tempo até voltar a ser invadida por inscrições). Dois amigos, com ar de quem está de férias, passam com sacos de compras. “Abbey Road”, diz um, “é aqui”. O outro não capta logo a sugestão. “Os Beatles”, acrescenta o primeiro… E faz-se luz. Param, como quem respeita um local com história… E seguem o seu caminho, quem sabe se a cantarolar alguma das canções que ali ganharam vida… Muitas dos Beatles foram ali criadas para, depois chegaram até nós em disco. E um deles, o último que os fab four gravaram, ganhou ali forma no verão de 1969.

Esse ano tinha já assistido à gravação (não concluída) de um disco frente às câmaras, durante a qual George Harrisson quase bateu com a porta. Logo no início do ano tinha havido um concerto no telhado da sede da Apple. E ainda nesse ano as primeiras ações de intervenção política de John Lennon juntavam outros valores à história dos Beatles…

Perante a hipótese de regressar a estúdio o clima era de claro fim à vista. Mas havia, contudo, um ponto final por escrever. E com a chegada do verão, os quatro músicos resolvem reencontrar-se para gravar um novo álbum, desafiando o produtor George Martin – ausente nas sessões registadas meses antes – a retomar o seu lugar habitual. Sabiam que seria o seu último disco. Mas não imaginavam onde as ideias então o poderiam levar…

As sessões viram frequentemente os quatro elementos dos Beatles a trabalhar em separado, na verdade muitas vezes juntavam-se apenas para lançar a estrutura das canções. John Lennon sofreu um acidente de automóvel e foi hospitalizado, chegando a estúdio alguns dias depois dos outros…

No princípio colaborou nas gravações em curso. E acabaria por dar ao disco alguns dos seus momentos mais memoráveis com Come Together e Because. O álbum destaca, contudo, a mestria em estúdio de Paul McCartney e confirma definitivamente o talento autoral de George Harrisson, que assina Here Comes The Sun e Something, outros clássicos nascidos deste alinhamento de despedida.

Trabalharam no álbum de início de julho a finais de agosto, pensando em Everest como o eventual título a dar-lhe. Essa era a marca de cigarros usada por um dos técnicos do estúdio e tinham levantado a hipótese de fazer uma foto da banda, com o pico do monte Evereste por cenário… Mas a 8 de setembro, Paul McCartney propõe uma alternativa, dando-lhe o nome da rua onde se situavam os estúdios onde tinham registado grande parte da sua obra, escolhendo como imagem da capa uma foto (hoje mítica) dos quatro a atravessar uma passadeira a poucos metros do nº 3 de Abbey Road.

Foi esta ideia, esta capa e este título os responsáveis pela própria alteração do nome dos estúdios que, até aí, eram conhecidos (desde 1936) como EMI Recording Studios. Em, 1970 passaram a chamar-se oficialmente Abbey Road Studios.

As sessões no estúdios em Abbey Road prolongam-se até finais de agosto. No dia 20 assinam a sua derradeira sessão conjunta a quatro (a seguinte, e essa sim a definitiva sessão de gravação dos Beatles, seria já em janeiro de 1970, para alguns overdubs em Get Back, mas juntando apenas Paul e Ringo). Seguiu-se, no dia 22, a última sessão fotográfica. E o fim estava finalmente mais perto que nunca. E do divórcio a caminho só não houve notícias mais cedo à conta de negociações que decorriam com a editora.

A 13 de setembro, a dias do lançamento de Abbey Road, Lennon dá o seu primeiro com a Plastic Ono Band em Toronto (Canadá). Em outubro Lennon regressava aos estúdios Abbey Road, desta vez com a sua nova banda. No mesmo mês um jornalista bate à porta da quinta de McCartney na Escócia, onde este dá uma entrevista para desmontar, de vez, a história que dava conta da sua morte três anos antes. Ainda nesse mês, e com George Martin na produção, Ringo Starr é o primeiro Beatle a gravar um disco realmente a solo. Pouco depois, inicialmente sob o pseudónimo Billy Martin, Paul McCartney começava a gravar o seu primeiro álbum a solo entre sessões em casa e ocasionais tardes de trabalho num estúdio profissional em Willesden. George Harrisson, por sua vez, lança as bases para o que seria All Things Must Pass, o seu triplo álbum de estreia a solo. 

Em 1970, no mesmo ano do adeus, saboreado com Let It Be (o álbum finalmente construído a partir das sessões para o nunca materializado Get Back), os admiradores dos Beatles contavam com quatro álbuns, cada qual sob o nome de um ex-fab four (na verdade Lennon lançando a sua carreira na Plastic Ono Band, só assinando com o seu nome a partir de 1971, ano em que edita Imagine). A realidade era nova e definitiva. Mas o sonho, na verdade, terminara no verão de 1969. Em Abbey Road.

Uma reedição DeLuxe de “Abbey Road” é editada esta semana

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