O futuro, tal como foi imaginado por “Ctu Telectu”… em 1982

“Ctu Telectu” dos Telectu tem nova edição em vinil pela Golden Pavillion. O disco é hoje apresentado “Sob Escuta” pelas 18.30 na Fnac Chiado numa sessão que conta com as presenças de Rui Miguel Abreu, Nuno Galopim e António Barreiros.

Telectu: Vítor Rua e Jorge Lima Barreto

A música portuguesa vivia um tempo de vibrante agitação na alvorada dos anos 80. A normalização da vida política dava espaço à música para respirar para além dos momentos de efusiva (e natural) participação na sociedade que havia dominado as atenções depois da revolução de 74. Das várias mutações em curso abria-se espaço para o emergir de uma cultura jovem aberta aos desafios do seu tempo. Não mais seriam marginalizados os ecos de grandes movimentos como sucedera com o glam rock ou o punk nos anos 70, o primeiro filtrado ainda pelos códigos de uma moral conservadora vigente antes de 74, o segundo abafado pela urgência de outra revolução que, entretanto, mudara o rumo do país.

Os horizontes das possibilidades começavam apresentar-se como infinitos. E do acesso a novas ideias à capacidade de as observar e assimilar dependiam agora as visões que se iam manifestando. Mas se o rock progressivo – que teve maior mediatização através do impacte do primeiro álbum e um célebre concerto dos Tantra – arrebatou algumas atenções na imprensa, outras movimentações, porventura com ainda maior consequência, começavam a desenhar caminhos em espaços mais… underground. E é precisamente sob mais discreto aparato mediático que discos como Música Moderna do Corpo Diplomático (1979) ou, ainda antes, o álbum de estreia da Anar Band, lançam olhares mais adiante. Do primeiro nasceria uma materialização das linguagens pop sobre uma integração das heranças diretas do punk, que se manifestaria em alguma da mais marcante discografia dos anos 80 (dos Heróis do Mar a António Variações). Do segundo brotaria um mundo de ideias e caminhos que, depois de um primeiro flirt com os universos pop/rock em 1982 no álbum de estreia dos GNR, se manifestaria no disco fundador da obra dos Telectu, libertando-se depois rumo a uma ainda mais clara liberdade de movimentos em explorações posteriores.

Timoneiro das visões fixadas no álbum da Anar Band – que representa de resto o único projeto português incluído na compilação de 2017 Noise Reduction System que retrata pioneirismos europeus na música eletrónica e ambiental – Jorge Lima Barreto (1949-2011) foi um dos espíritos mais desafiantes que a música improvisada e experimental conheceu entre nós. Formado em História da Arte (e autor, depois, de uma importante obra sobre musicologia) e um dos fundadores (juntamente com Carlos Zíngaro) da Associação de Música Conceptual – ainda nos tempos do anterior regime – Jorge Lima Barreto marcou uma presença não oficial no processo de criação de uma das faixas de Independança, álbum de estreia dos GNR e um dos episódios maiores da discografia pop/rock made in Portugal.

Ele mesmo descreveu esse momento em palavras recolhidas por Rui Eduardo Paes por alturas da reedição em CD de CTU Telectu: “Eu tinha acabado de regressar de Nova Iorque, onde contactei com o fervilhar criativo da cena downtown, e não só assisti às sessões de gravação como participei enquanto produtor nesse tema, embora anonimamente”.

A faixa a que Jorge Lima Barreto se referia aqui é, naturalmente, Avarias, o tema de carater experimental que ocupa todo o lado B do disco dos GNR, banda à qual se havia juntado recentemente Rui Reininho, nada mais nada menos do que o segundo elemento da Anar Band. Tudo estava ligado.

Entre os músicos dos GNR aquele que mais sente o impacte da presença e das ideias de Jorge Lima Barreto é Vítor Rua, para quem o musicólogo representa então uma inesperada e reveladora janela de novas possibilidades. Possibilidades geradas pela música diferente que este lhe mostra e que abre caminhos (em vários sentidos) para hipóteses futuras…

É por isso da descendência direta do que aconteceu em Avarias e deste encontro revelador com Jorge Lima Barreto que brota uma parceria que os havia de unir, anos a fio, na mais sólida e profícua obra nascida entre nós nos campos da música experimental e improvisada. Obra que assinaram como Telectu. Um nome que, antes de representar a dupla nascida da soma dos dois músicos, brotou como um projeto tão inesperado quanto o havia sido a aventura fixada em Avarias.

Nas liner notes de Rui Miguel Abreu que acompanham a nova reedição em vinil de Ctu Telectu pela Golden Pavillion, o retrato desse momento é bem nítido: “A personalidade magnética de Jorge Lima Barreto surtiu efeitos sobre Vítor Rua”. E Vítor Rua reconhece como a sua identidade e cultura musical reagiram perante a descoberta de “música de todo o mundo”. E uma das primeiras consequências da sua exposição a novas possibilidades para a música foi a sua saída dos GNR, surgindo como passo seguinte o desafio de novas explorações. E entre a edição de Independança e as colaborações em discos de Manuela Moura Guedes (Álibi) e António Variações (Anjo da Guarda), Jorge e Vítor lançam a génese de um projeto novo.

Ecos da no wave nova iorquina e heranças dos ensinamentos de Brian Eno e de nomes ligados à emergência de uma linguagem rock desenhada com eletrónicas (nomeadamente os Can) são matéria prima de reflexão num ponto de partida que, contudo, os levaria mais adiante. Chamam Toli César Machado (dos GNR) para assegurar a percussão. Chegam a ponderar a presença de Rui Reininho, mas acabam por escolher Dr. Puto para a voz. As novas ideias ganham forma e ouvem-se publicamente, pela primeira vez, numa residência durante a II Bienal de Cerveira e, logo depois, perante uma plateia de 20 mil almas, em Vilar de Mouros (onde atuavam nomes como os U2, A Certain Ratio, Stranglers, Durutti Column ou a Sun Ra Arkestra). Quando chegam aos estúdios Valentim de Carvalho as linhas estão já nítidas. O disco que gravam é de música improvisada, mas, e como explicou Jorge Lima Barreto nas notas da edição em CD, “estruturada sobre padrões idiomáticos de rock”.

Antes de mergulharmos um pouco mais na música que escutamos em Ctu Telectu, que em 1982 assinalou a estreia em disco dos Telectu (numa edição da Valentim de Carvalho) há que olhar para o universo temático que molda o disco e que o faz também peça maior na construção de um relacionamento da música com os universos da ficção científica. É que Ctu Telectu ganha forma em 1982, o ano em que morre Philip K. Dick, um dos nomes maiores da literatura de ficção científica e um dos autores mais vezes procurados pelo cinema e pela ficção televisiva.

Philip K. Dick

Philip Kindred Dick (daí o “K”) nasceu a 16 de Dezembro de 1928 em Chicago (Illinois, EUA), mas cresceu e viveu sobretudo na Califórnia. Deixou os estudos universitários a meio e trabalhou numa loja de discos antes de começar a ganhar a vida vendendo histórias escritas por si. O interesse pela ficção-científica levou-o a corresponder-se com alguns especialistas em ciência e tecnologia, um dos quais russo, o que lhe valeu ser alvo de investigação pelo FBI em finais dos anos 50.

A Califórnia foi cenário recorrente em muitas das histórias de uma obra que antecipou temáticas e visões mais tarde comuns em terreno cyberpunk, debatendo quase todos os seus primeiros textos temáticas de foro sociológico e político, assuntos numa fase tardia trocados pelo protagonismo da teologia e de estados provocados pelo consumo de drogas, aqui refletindo sobre experiências pessoais (como se lê em O Homem Duplo, título português de A Scanner Darkly, ou Valis).

A ideia de mundos paralelos ou realidades alternativas é também presença frequente em alguns textos. De resto, um dos seus mais importantes romances, The Man In The High Castle (entre nós publicado como O Homem do Castelo Alto), estabeleceu ligações entre a noção de realidade alternativa e o mundo da ficção científica. Em alguns livros chegou a socorrer-se de dispositivos surrealistas para sugerir vidas em mundos de ilusão. As temáticas da doença mental, sobretudo a esquizofrenia (de que defendia padecer) dominam a etapa final da sua obra. Um retrato complexo da sua mente e vida intelectual pode ler-se na excelente biografia de Emanuel Carrére, I Am Alive And You Are Dead: A Journey In The Mind of Philip K. Dick.

O universo de ficção de Philip K. Dick serviu assim de base temática para a criação de peças que tomaram títulos de alguns dos seus livros ou contos como nome. E é sob essas premissas que emergem temas que manifestam não apenas um interessem em libertar as sonoridades instrumentais associadas ao rock das limitações formais mais clássicas da canção, como se escuta em Lotaria Solar que abre brilhantemente o alinhamento, sugerindo uma visão sci-fi de linhas que ganham nitidez pela repetição antes de acolher uma arquitetura rítmica que parece nascida numa discoteca algures numa estação nos confins do sistema solar. Esse fulgor rítmico, que alia o corpo do baixo à percussão, tem outro episódio central, mais adiante, em Eye In The Sky (que a dada altura integra elementos que evocam as visionárias experiências de Stockhausen que firmaram a ideia do estúdio como “ferramenta” de construção musical).

Mas ao mesmo tempo que Ctu Telectu explora formas mais próximas do ideário rock, revela também um gosto em assimilar todo um conjunto de experiências de abordagem a outros instrumentos, linguagens e até géneros. Tal como realizadores de cinema como Gus Van Sant ou Jim Jarmusch sugeriram nas suas primeiras obras – respetivamente Mala Noche e Permanent Vacation – há em Ctu Telectu um lançamento de pistas para caminhos futuros da música dos Telectu. Simulacra aceita uma contaminação de liberdade jazzística na guitarra. E se em Ubik emerge, por exemplo, uma clara vontade em escutar as potencialidades que a eletrónica então dava à música rock, já em Valis chegamos mesmo a reconhecer o lançamento de pistas que os próprios Telectu aprofundariam pouco depois em Belzebu, disco fundador de uma visão, nascida entre nós, da assimilação dos códigos da música minimal repetitiva (expressão, de resto, cunhada pelo próprio Jorge Lima Barreto).

Mergulhando novamente nas liner notes da nova reedição em vinil encontramos uma referência ao debate entre Vitor Rua e Jorge Lima Barreto quando imaginaram os caminhos que os levariam a Ctu Telectu. Jorge terá perguntado a Vítor “o que é que você quer que este disco seja?”. Ao que Vítor respondeu: “quero um disco que soe avançado daqui a 30 anos”. E, como bem remata depois o Rui Miguel Abreu, “é difícil perceber se em 2019 já teremos alcançado o futuro que este álbum tão energicamente buscava”. Porque, de facto, o presente ali gravado em 1982 ainda sugere desafio. Ainda consegue incomodar. Ainda olha em frente… O futuro é sempre uma incógnita. Ctu Telectu não resolve a equação. Mas lança-a sistematicamente em novas demandas e explorações. Coisa que se repete a cada audição. E de facto são poucos os discos que, como este, conseguem deixar o futuro em aberto.

“Ctu Telectu” está disponível numa nova prensagem em vinil numa edição da Golden Pavillion. O disco é acompanhado por liner notes (bilingues) assinadas por Rui Miguel Abreu.

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