Isilda Sanches

Isilda Sanches, 50 anos. Compra discos desde os 12, de forma não muito obsessiva. Nasceu no Sabugal, mudou-se para Lisboa no final da adolescência para estudar Comunicação Social porque queria escrever sobre música. Define-se como divulgadora, radialista, jornalista e pensadora, faz emissão diária e o programa “Muitos Mundos” na Antena 3, rádio onde o seu lado de cientista-que-nunca-aconteceu alimenta também a rubrica “Fricção Cientifica”.

Qual foi o primeiro disco que compraste?

Big Science da Laurie Anderson. Ainda nem havia gira discos lá em casa mas eu e os meus irmãos já construíamos uma colecção em conjunto. Eles eram mais velhos, fui muito influenciada pela musica que ouviam (muito António Sérgio e Noites de Luar, com Anibal Cabrita e Ricardo Saló, na radio, cassetes que iam de Van der Graaf Generator aos Clash, Joy Divison, Cure…). Lembro-me de ter poupado a minha insignificante mesada durante alguns meses até conseguir dinheiro para comprar o meu primeiro disco. Fiz uma lista que incluía, lembro-me, o LC dos Durutti Column e o Sextet dos A Certain Ratio (acho que também tinha o primeiro álbum de Duran Duran) e pedi-lhes opinião, até porque teriam que ser eles, já a estudar em Lisboa, a comprar-me o disco (no Sabugal não havia lojas de discos). As coisas ficaram entre os Durutti Column e a Laurie Anderson e acabei por escolher o Big Science porque adorava o Oh Superman e achava a Laurie Anderson absolutamente extraordinária com a sua voz de robot (os Durutti Column era mais aquela coisa melódica, irresistível…os meus irmãos acabaram por comprar, tal como os A Certain Ratio).

E o mais recente?

O mais recente foi Bahasa do Young Marco, porque gosto muito de música ambiental e tenho investido nisso embora nem sempre consiga dar uso aos discos que compro, ou seja, ouço-os em casa mas nem sempre passo na radio, por exemplo… São faixas longas e lentas.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Não me considero coleccionadora. Gosto de música e compro discos. Na minha colecção há, no entanto, muitos discos que não foram comprados porque os recebi de artistas e editoras, o que se justifica pelo meu trabalho de jornalista e divulgadora (hoje em dia as coisas são diferentes porque quase toda a promoção é digital e digital não contra para colecção). Mas sempre comprei discos, e sempre os discos de que gostava, novos ou antigos. A minha colecção tem discos de que gosto ou que considero importantes para o que faço. Já tentei ter os discos todos de um artista ou editora, mas acabo sempre por desistir quando me desinteresso da música… mas, de vez em quando, cedo à tentação do “valor acrescentado” e sou capaz de comprar um disco “representativo” em segunda mão só porque está a um preço incrível (há cada vez menos…).

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Assim de repente não tenho nenhum Santo Graal mas se alguém me quiser oferecer uma das mil cópias originais do Lucifer Rising do Bobby Beausoleil, se calhar tenho uma epifania…

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Não eram propriamente discos de que andasse à procura mas não os tinha e quando me chegaram às mão fiquei muito feliz: Clouds Across The Moon, da Rah Band, e She Blinded Me With Science, do Thomas Dolby.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

O meu limite de preço para um disco tem a ver com o bom senso. Como não sou coleccionadora convicta, não entro em loucuras, até porque, quando os preços são muito altos é porque há especulação e eu não gosto muito disso.

Lojas de eleição em Portugal…

A Flur é a minha “fornecedora de confiança” há bem mais de 10 anos. Graças a eles tenho descoberto muita coisa.

Feiras de discos. Frequentas?

Vou a feiras de discos quando calha. O ambiente é sempre engraçado e encontram-se sempre pessoas (mesmo que não se encontrem discos…) mas não sou propriamente militante.

Compras discos online?

Online compro musica digital, não encomendo discos.

Que formatos tens representados na coleção?

Formatos no sentido físico tenho maioritariamente CD, uns 3000, umas boas centenas de discos de vinil e algumas cassetes. Os géneros são diversos mas os dominantes serão musica electrónica/dança e rock/pop, mas também hip hop, soul, reggae, jazz e muitos “interstícios”.

Os aristas de quem mais discos tens?

Por estranho que pareça, acho que Nick Cave e Herbert.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Fui relativamente dedicada a editoras como a Factory ou a Blast First, também à Ninja Tune nos anos 90, mas hoje em dia tende a acontecer menos e quando acontece é com editoras pequenas como a canadiana Mood Hut, porque há um certo groove que atravessa todos os discos e que me cai bem… Mas não tenho espírito de coleccionar só porque sim. Muito embora deva dizer que, em casos como os da editora portuguesa Princípe, a combinação música, capas do vinil serigrafadas pelo Marcio Matos e edições limitadas, faz com que se torne difícil resistir…

Uma capa preferida.

Capa preferida tem que ser um maxi promocional de Unkle que abre com um recorte pop up de figuras alienígenas. É daquelas que está bem protegida para não estragar (até porque vem numa caixa especial), e só é aberta de vez em quando! (foi aberta para a fotografia).

Uma disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Há quem ache o “Clouds Across The Moon” da Rah Band foleiro mas eu gosto desde sempre.

Como tens arrumados os discos?

Tenho a sorte de ter um “especialista” a arrumar os meus discos, porque essa é uma gestão delicada, sobretudo quando o espaço é limitado e duas colecções têm que coabitar sem se misturarem (não há cá misturas na colecção de discos, toda a gente sabe). Tenho música de dança e afins na mesma zona, alfabeticamente mas com subdivisões especificas para editoras e movimentos importantes. O hip hop está na estante ao lado, também por ordem alfabética. Também ordem alfabética no pop rock, jazz, soul, reggae… Os portugueses têm espaço só deles e estão também por ordem alfabética. Mas há muito caos no meio disto tudo porque, quando as prateleiras chegam ao fim, é preciso improvisar e quando se tiram vários discos fica tudo desarrumado, etc… Por uma questão de optimização de espaço, tirei muitos CDs das caixas e meti numas saquetas especiais, ficam mais finos, dá para arrumar mais discos no mesmo espaço, mas há que dizer que dificulta muito a procura nas prateleiras e às vezes passo horas à procura de coisas que não encontro…

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Há uma longa história de mulheres na música que ainda é pouco conhecida e eu quero dedicar-me mais às pioneiras da electrónica: Daphne Oram, Delia Derbyshire, Suzanne Cianni… de um modo geral estou interessada em saber mais sobre o que conheço pouco, e descobrir o que não conheço de todo… No fundo, quero manter vivo o meu interesse por música.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Não sei se conta, mas lembro-me de achar que não gostava dos Abba e depois de ter ouvido o Ian McCullouch dos Echo And The Bunnymen dizer numa entrevista à BBC Radio One (que eu ouvia em condições um bocado precárias mas de forma devota, por causa do John Peel) que achava o “The Winner Takes It All” dos Abba das melhores canções de sempre, reconsiderei. Escutei a música como deve ser e soube da história (como tinha sido escrita durante o divórcio de Bjorn e Agnetha) e descobri que era fácil concordar com o Ian McCulloch, é uma canção tremenda e até arrepiante. Aconteceu algo semelhante com Marvin Gaye e “Sexual Healing” por causa do Viny Reilly dos Durutti Column (acho que) numa entrevista à revista Musica & Som. Mas em ambos casos era bastante miúda, portanto já me reconciliei com esses discos há muito. Acho natural mudar de opinião em relação aos discos. Tenho vários discos de que já gostei e que hoje nem por isso…

Já compraste discos que, afinal, já tinhas? Caso sim, quais. E o que fazes com os discos repetidos?

Já me aconteceu receber discos que já tinha, mas comprar acho que nunca.

O que fazes com os repetidos?

Normalmente ofereço, mas também já troquei e vendi.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Essa é sempre difícil, até porque ando particularmente entusiasmada com discos pouco conhecidos – culpa das muitas reedições e intenso trabalho de diggin feito por editoras mundo fora, Portugal incluído. Por causa disso conheci MJ Lallo, cantora, artista vocal e sound designer americana (trabalhou com a NASA, por exemplo…). A editora canadiana Séance Center lançou o ano passado um álbum duplo (Take Me With You) e um máxi (Starchild Going Home) com material antigo e alguma daquela musica é maravilhosa! Também gosto muito do Taipei Disco de Dwart, editado o ano passado pela portuguesa Holuzam, com material perdido dos anos 80. E já que falamos no projecto de António e Manuela Duarte, a neozelandesa Strangelove acaba de editar um disco também com material antigo de Dwart, chama-se Electricidade Estética e também vale a pena descobrir, sobretudo por quem gosta de música mais ambiental e electrónica cósmica e experimental.

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