Quem me leva os meus fantasmas… pede Nick Cave

Até onde nos podem levar a dor e a tragédia? Cada um terá uma resposta diferente, das que procuram olhar de frente e exorcizar os factos às que tentam para eles não voltar a olhar. E no fundo todas poderão estar corretas (quem somos nós para opinar sobre a dor dos outros). Há tragédias anónimas. Mas quando envolvem uma figura com voz criativa na música as consequências invariavelmente chegarão a outros ouvidos. Nem que na forma de silêncio. A morte do filho de Nick Cave não foi, contudo, silêncio. Arthur tinha 15 anos quando caiu de uma falésia, perto de casa, em julho de 2015. E logo em Skeleton Tree (disco no qual estava Nick Cave já a trabalhar quando o acidente ocorreu e que tem numa letra a descrição de uma situação assustadoramente premonitória), assim como no documentário One More Time With Feeling que acompanhou o momento do seu lançamento (em 2016), essa ausência acabou por ganhar forma de presença evidente. Uma presença que agora habita a alma daquele que é o primeiro disco todo ele nascido já depois da tragédia. E toda essa carga habita agora estas novas canções.

Este é também o primeiro disco que surge depois de Nick Cave ter criado novas formas de comunicação com aqueles que gostam da sua música. Habitou-se a responder a questões que não apenas as que lhe são colocadas por jornalistas em tempo de lançar discos ou correr palcos. Primeiro através de um sistema online ao qual chamou “the Red Hand Filers”. Depois levando inclusivamente o modelo em digressão… E, de resto, foi numa resposta a uma questão recente que revelou que tinha um novo álbum pronto a sair… No fundo, implodir não seria nunca a solução…

Este é um álbum arrepiante e belo. No qual as canções nos transportam para lugares para quais a música de Nick Cave nos vinha progressivamente a encaminhar nos últimos tempos. Mas desta vez a ousadia formal vai ainda mais além. A instrumentação foca-se sobretudo entre o trabalho de eletrónicas e de manipulação de acontecimentos ambientais…  Vive na cenografia. E a voz de Nick Cave liberta-se dos registos a que nos habitou para caminhar por outros terrenos e caminhos. As canções flutuam… São de uma tristeza tamanha, traduzindo uma noção diferente de intensidade que agora cruza a sua música. E são cruzadas por figuras e histórias. Há ali gente e fantasmas, um deles (sem surpresa), o de Arthur, que Nick Cave assim não deixa partir.

Há uma outra presença na vida criativa de Nick Cave e com cada vez mais evidentes marcas no trabalho que agora assinam a dois. Warren Ellis entrou discretamente no seu universo como violinista por alturas do álbum de 1994 Let Love In… A sua presença ganhou maior visibilidade quando anos depois passou a integrar os Bad Seeds. Mas foi depois de trabalhos de música para cinema e, sobretudo, a partir de Push The Sky Away, que estabeleceu com Nick Cave uma parceria criativa que abriu novos caminhos e possibilidades. Editado em 2013, Push The Sky Away era tudo menos aquilo a que poderíamos chamar um disco de transição. Era uma obra completa em si. De corpo e alma encontrados e bem definidos. Mas ao mesmo tempo abria horizontes a uma dimensão cenográfica diferente, acolhendo narrativas como quem cria pequenos filmes unidos sob uma fotografia com uma personalidade nova e bem evidente… Foi nesse disco que se lançam as bases para um aprofundar de explorações que mergulhariam nos abismos de uma ainda maior intensidade dramática em Skeleton Tree (de 2016) e que, agora, encaminham as ideias no sentido de Ghosteen, que podemos ver como terceira parte de um ciclo comum. Fala-se numa trilogia… Será este um fim de ciclo?

Ghosteen é um disco duplo que se divide em dois segmentos, um feito de temas mais curtos, outro de composições mais longas separadas por um momento de spoken word em Fireflies. Nick Cave chamou às primeiras canções “os filhos” e às outras os “pais”. Não que pareça haver nas suas estruturas ou temas uma qualquer lógica narrativa ou uma carga de referências que as molde como personagens. São até parte de um mesmo corpo. Que decorre de todo um quadro de memórias (pessoais e musicais) recentes. E que resulta num dos momentos mais arrepiantemente belos de toda a sua discografia (onde, sublinhe-se, não faltam bons discos). Um disco com uma capa desconcertante e intrigante que mostra como, 40 anos depois o ano que viu nascer o álbum dos Boys Next Door (que de transformariam nos Birthday Party pouco depois), o desafio ainda mora nas entranhas da alma da música de Nick Cave. E desta vez conduziu-o a um dos melhores discos de toda a sua obra.

“Ghosteen”, de Nick Cave & The Bad Seeds, está para já apenas disponível nas plataformas digitais. As edições em suporte físico (LP e CD) estão previstas para 8 de novembro, através da Bad Seed.

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