Um pequeno livro para recordar o grande disco que fez do tropicalismo o sonho de um Brasil diferente

Editado em 1968 o álbum “Tropicália ou Panis et Circensis” representou um momento de transformação na história da música brasileira. O disco, que juntava Caetano Veloso, Gilberto Gil, os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, Rogério Duprat, Torquato Neto e José Carlos Capinam, é abordado num livro da coleção “O Livro do Disco”, versão brasileira da série 33 1/3. Pedro Duarte, autor deste livro, esteve em Lisboa para o apresentar na Livraria da Travessa e falou ao GIRA-DISCOS…

Que coleção é esta a que a editora Cobogó chamou “O Livro do Disco”?

É uma coleção recente, que foi lançada há poucos anos no Brasil. E que tem um intuito muito particular. A Cobogó comprou os direitos de uma coleção que já existe no mundo de língua inglesa…

A série 33 1/3?

Precisamente. Onde eles convidam pessoas a escrever sobre um disco só… Ora a Cobogó, para completar a coleção, chamou autores brasileiros para escrever sobre discos brasileiros. E eles convidaram-me para escrever sobre o disco Tropicália ou Panis et Circencis, que é um disco absolutamente central na história da música popular brasileira, da cultura brasileira, do pensamento brasileiro.

Na série em língua inglesa cada autor pode traçar a abordagem que entender sobre o disco. Desde algo mais pessoal, eventualmente no limiar da ficção, até uma narrativa jornalística… Que abordagem resolveu então fazer neste seu livro?

Eu sou professor de filosofia, então a minha abordagem tem uma dimensão cultural, filosófica, musical, histórica… Tento dar conta de como este disco foi também um disco-manifesto, que teve uma importância central para a música mas também para o momento da cultura brasileira.

Já tinha uma relação com este disco antes de ter sido convidado a fazer esta abordagem?

Tinha, mas era talvez como a de boa parte das pessoas da minha geração naturalmente tem… Quando eu era criança e no início da adolescência este disco, tal como os do Caetano Veloso, os do Gilberto Gil, os da Gal Costa, tocavam. Os meus pais ouviam e então tenho quase uma naturalidade no modo como este disco estava na minha vida. E o meu esforço, para escrever o livro, foi o de tentar distanciar-me um pouco dessa proximidade afetiva para tentar transformar isso num objeto de estudo e um objeto teórico para escrever sobre ele.

Este é um disco em que a música do Brasil aceita a mistura, o cruzamento. Da sua identidade local, da sua cultura, mas também da cultura popular em crescimento no mundo ocidental naquele momento e das mudanças na sociedade que estavam a acontecer. É como um ponto onde tudo conflui e muito daí nasce e diverge depois…

Exatamente… Tanto que o movimento tropicalista como um todo, e este disco especificamente, suscitaram inúmeras polémicas por parte de setores mais conservadores da música popular brasileira porque o contacto com a música internacional, o rock’n’roll, os Beatles, com Jimi Hendrix, supostramente estaria a trair uma essência da música brasileira. E os tropicalistas defendiam que isso não era uma traição mas sim uma alimentação produtiva e enriquecedora da música popular brasileira. Foi um marco, por exemplo, a introdução das guitarras elétricas na música popular brasileira. Letras como a Alegria Alegria [de 1967] do Caetano Veloso que falam de Coca Cola… Havia uma tentativa de cosmopolitismo neste movimento.

O rock que antes havia, por exemplo, com a Jovem Guarda, era diferente…

O ié ié ié era uma cópia sem um processo crítico reflexivo seletivo do que é que do internacional se conjugaria com o brasileiro para constituir uma nova maneira de cantar e de fazer música cujo exemplo principal, para os tropicalistas, tinha sido a bossa nova na década de 50 na relação com o jazz.

Este disco representa para o rock brasileiro o que o Chega de Saudade foi para a bossa nova?

Eu acho que no caso do tropicalismo ainda há uma dimensão a mais. Porque os tropicalistas tinham uma autoconsciência do que estavam a fazer como movimento que não era só música, mas também de valores culturais. A bossa nova, se também foi isso, foi um pouco involuntariamente. O João Gilberto, o Tom Jobim, estavam a fazer música. E essa música ganhou um caráter simbólico para o país. Mas os tropicalistas sabem que estão a fazer isso, tanto que o movimento foi prioritariamente musical, mas envolveu as artes plásticas, o cinema, o teatro. O tropicalismo manifestou-se nessas outras formas de arte.

O disco Tropicália ou Panis et Circensis é de 1968… Ou seja, é editado já sob a ditadura…

Claro, o golpe foi em 1964. O contexto da ditadura no Brasil teve uma peculiaridade. É que, de 1964 a 1968 a área da cultura, a área da arte, foi menos atingida do que as áreas mais diretamente sociais. Os sindicatos, as ligas campesinas, foram mais fortemente atingidas no primeiro momento da ditadura do que a área cultural. A área artística e cultural continuava a ter manifestações de esquerda, às vezes até socialistas, de uma maneira muito impressionante, no cinema, no teatro. Isso tudo mudaria justamente no final de 1968 com o chamado Ato Institucional Número Cinco, o AI-5, a que muitos chamaram o golpe dentro do golpe. A partir desse momento as coisas ficam pior do que já eram.

Aumenta a censura?

Aumenta a censura, aumenta a tortura. Isso torna-se muito mais opressivo embora antes já existisse. Não sei se em 1969 seria possível fazer este disco. E o Caetano Veloso e o Gilberto Gil vão ser presos e exilados já na viragem de 1968 para 1969. Este é um disco muito combativo. E, sobretudo, e acho que isso chama atenção, é que não é apenas combativo no sentido político explícito da ditadura no sentido económico. Ele é muito focado também no conservadorismo moral a ser combatido, o que no final da década de 60 era de enorme importância porque a maior parte do engajamento político era de marxistas pautados na luta de classes. O tropicalismo abre uma outra área, que é muito mais relativa ao combate dos costumes e da moral conservadora, que tem a ver com a sexualidade, com o corpo, com o erotismo. E isso teve uma força enorme na cultura brasileira e foi desconcertante para parte da esquerda que não achava que o tropicalismo tinha uma dimensão política. Porque achava que isso não era política.

O disco abre portas então… E contamina mais adiante…

Pessoas como o Ney Matogrosso, por exemplo, têm uma relação com tudo isto nesta medida.

E no Brasil de hoje? Como é que o Brasil atual lida com um marco na sua história como este disco?

Eu acho que a Tropicália representa um capítulo na história intelectual e artística brasileira, que é exatamente a história que hoje, muito agora mesmo, está em cheque ao ser combatida veementemente. Eu acho que atualmente no Brasil há uma onda não apenas governamental mas também social altamente conservadora no ponto de vista da moral e dos costumes. Muitas vezes com um viés autoritário, embora tenha havido eleições, que representa o contrário daquilo que o tropicalismo imaginou para a cultura brasileira na esteira do modernismo brasileiro do Osvaldo de Andrade, do Mário de Andrade, que era um país plural, diverso, aberto… Acho que vivemos um momento contrário a esse, o que é mais chocante porque, outro dia, o Gilberto Gil, um dos protagonistas do tropicalismo, foi ministro de estado. Então houve um momento em que parecia que essa imaginação artística sobre o que era o país poderia assumir um lugar de efetivação social e política. E houve um revés em relação a isso. Às vezes sinto que, apesar de que era nenhum idílio nem paraíso e havia contradições, mas ter o Gilberto Gil no ministério da cultura parecia quase uma realização daquela máxima que havia no maio de 68 em Paris que dizia “a imaginação no poder”. Acho que agora vivemos um momento em que a imaginação, o pensamento, estão em cheque e a ser combatidos. É um momento muito difícil para o que foi o sonho ou o projeto tropicalista em relação ao país. Porque a Tropicália foi isso. Era um movimento estético, musical, mas foi um movimento de pensamento sobre o Brasil que era de uma grandeza extraordinária.

“Tropicália ou Panis et Circensis”, de Pedro Duarte, é um volume de 175 páginas e integra a série “O Livro do Disco” da editora Cobogó. O livro está disponível na Livraria da Travessa, na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

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