Jenny Hval deu a mão à pop mas não perdeu a sua alma

Começou por fazer música numa banda gótica, andou pelo outro lado do mundo (em Melburne) para estudar escrita criativa e ao regressar à noruega (de onde é natural) em 2006, talhou um caminho que a faz hoje dividir o tempo entre a escrita, a composição e a produção musical. Depois de trabalhos em grupos começou a criar uma obra em disco em nome próprio desde 2011, correspondendo este seu sétimo álbum a solo a um episódio de relativa transformação de coordenadas. Mas sem que tal opção a descaracterize ou faça mudar de rumo.

O domínio da palavra, a demanda de explorações no som (e não apenas no plano cénico) e um progressivo interesse pelas eletrónicas foi moldando gradualmente o percurso que definiu entre Viscera (2011) e o relativamente recente Blood Bitch (2016). The Practice of Love é, agora, o disco onde Jenny Hval organiza as ideias conquistadas e assimiladas num corpo de canções mais acessíveis. Mais… pop.

O disco surgiu ao mesmo tempo que ia trabalhando a escrita de um novo romance – que terá por título “Girls Against God” – a publicar apenas em 2020. Tal como em discos anteriores a voz e as palavras conduzem os destinos de canções que, desta vez, acolhem melodias cuja luz contrata com a melancolia do canto (e da fala). Talvez menos radical do que no anterior Blood Bitch encontramos aqui um trabalho de moldagem da forma de trabalhar as ideias semelhante àquele que aceita a relação entre um melodismo pop e ecos da eletrónica ambiental de inícios de 90 (à la Beloved) para criar canções que encaram a humanidade como uma virose, que falam da relação das emoções com a tecnologia, que encaram as grandes questões existenciais do amor e olham de frente a intimidade. Parece denso como corpo de ideias. Mas a expressão destas pequenas narrativas e reflexões na forma de canções pop sedutoras e elegantes transporta o disco para um lugar diferente dos que até aqui conhecíamos na música de Jenny Hval.

Félicia Atkinson, nome ligado à música experimental francesa e as cantoras Laura Jean (australiana) Vivian Wang (de Singapura) são figuras convidadas num álbum que mostra como é possível uma comunicação mais acessível e consequente sem que tal subverta a personalidade artística de uma voz que nunca quis ser confortável. De resto, não deixando de ser um disco político, embora de gritos menos evidentes, talvez mais subliminares, The Practice of Love é um espaço onde Jenny Hval encontra o prazer da sedução pop. Mostrando, como o fazem os Pet Shop Boys, que uma melodia e um gancho rítmico dançável não transforma necessariamente as canções e momentos de hedonismo vazio de ideias. Pelo contrário, The Practice of Love junta a voz e as palavras de Jenny Hval à dimensão mais gourmet da música pop atual. Pop para gente crescida, é certo. E da melhor que vamos ouvir este ano.

“The Practice Of Love” de Jenny Hval está disponível em LP e CD e nas plataformas digitais numa edição da Sacred Bones Records.

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