Pedro Tenreiro

Natural do Porto, onde nasceu em 1965, começou cedo a passar música e passou por lugares como o No Sense, Indústria, Aniki Bóbó, Trintaeum, Lux, Frágil, Maús Hábitos, Passos Manuel, o Pitch, o Plano B, entre muitos outros. Apresenta diariamente a rubrica “Poder Soul” na Antena 3. E hoje apresenta aqui a sua coleção.

Qual foi o primeiro disco que compraste?

Era normal receber discos de prenda de anos, normalmente Beatles ou coleções de hits que me diziam muito pouco. Os primeiros discos que comprei com a minha semanada foram o LP de estreia dos Undertones e Can’t stand the Rezillos, dos escoceses Rezillos.

E o mais recente…

Free spirit da Betty Griffin. Um LP que cruza gospel com soul e disco.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Há, pelo menos, 25 anos que vivo fascinado com a mais obscura música negra, gravada entre a segunda metade dos anos 50 e a primeira dos 80, seja jazz, rhythm + blues, soul, funk, disco ou boogie. E, nunca virando as costas às lendas e aos artistas que ficaram na história, interesso-me, acima de tudo, por aqueles que não conseguiram furar e que, muitas vezes, apenas gravaram um ou dois discos, que raramente ultrapassaram as barreiras locais e que acabaram por ficar esquecidos, até terem sido resgatados por um qualquer nerd, como eu.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Neste universo o problema é não ter poder de compra para comprar alguns dos discos mais desejados… e muitos não serem reeditados. Não faço questão de ter os originais e não tenho outro remédio senão, muitas vezes, satisfazer-me com essas reprensagens, mas há muitos em que isso não acontece…. Ainda estou à espera de Old man me do Frank Hutton mas, por exemplo, This is the place dos Kansas City Express, que parecia impossível, vem a caminho, via Athens of the North, uma pequena editora, fundada pelo meu amigo Euan Fryer, que se dedica a recuperar estes tesouros.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Love tempo dos Love Company, um raríssima pérola disco independente, gravada em Dallas, em 1977, que a tal Athens of the North reeditou.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Houve tempos em que comprava singles de 300 e 400 euros com alguma frequência. Entretanto chegou mais um filho e não estamos em tempo para delírios. Tento vender coisas que não uso ou que já não me soam bem para comprar aquilo que procuro, dentro de limites bem mais razoáveis.

Lojas de eleição em Portugal…

Muzak, Porto Calling, Louie Louie, Discoleção, Groovie e outras. Tenho muita admiração por todas as pessoas que têm a coragem (que eu adorava ter…) de manter um negócio tão apaixonado e incerto como esse.

Feiras de discos. Frequentas?

Já frequentei mais… É cada vez mais difícil encontrar bons discos a bons preços… A net está cheia de ferramentas, como o Discogs ou o Popsike, que ou afastam os discos que me interessam das feiras ou fazem com que cheguem lá a preços ultra-inflacionados, irrealistas até.

Fazes compras ‘online’?

É onde faço mais compras. Há 20 anos, quando a Gema ainda existia e o Ebay ainda gerava muita desconfiança, a net era um verdadeiro paraíso. Hoje tornou-se incomportável para as coisas mais raras, mas extremamente útil para grandes discos que, agora se percebe, existem às bateladas, o que se reflectiu numa baixa do seu valor.

Que formatos tens representados na coleção?

Todos os formatos em vinil: singles de sete, dez e doze polegadas, LPs, caixas, 45 rotações, 33 e até 78, que não consigo ouvir por não ter um gira-discos compatível!

Os aristas de quem mais discos tens?

Nunca fui de colecionar artistas. Ainda assim, acho que nomes como James Brown, Curtis Mayfield, Sly Stone e Fela Kuti serão aqueles que terão mais representação lá em casa.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Poucas. Nos 90, houve uma altura em que comprava os discos da Mo’Wax, da Thrill Jockey, da Clear, da Warp ou da Jazzman de olhos fechados. Havia também marcas que apenas editavam os trabalhos dos seus fundadores, como a KDJ do Moodyman, a Sound Signature do Theo Parrish ou a U-Star dos Idjut Boys, que mereciam a minha confiança total. Depois há coisas históricas da Strata, da Strata East ou da Black Jazz…

Uma capa preferida

Ui! Há muitas… sou um apaixonado pelo design gráfico e pela ilustração e os discos têm sido um veículo privilegiado para a sua expressão…

Uma disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Não é uma pergunta fácil. Como é que será que o The hustle do Van McCoy é visto?!

Como tens arrumados os discos?

Uma desorganização organizada por géneros, cuja lógica só eu percebo!

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Há um artista de quem tenho muito menos discos do que aqules que deveria ter, até porque é um dos mais talentosos e influentes cantores Soul da história – Bobby Bland.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

São tantos! Eu venho do punk e de um tempo em que o disco era visto como algo detestável. Depois os Talking Heads gravaram o Once in a lifetime e apareceram bandas como os A Certain Ratio, que me obrigaram a questionar esses dogmas e mitos urbanos. E, como se isso não bastasse, apareceu na minha vida um senhor chamado Gonçalo Vaz, mais tarde conhecido por Luciano Barbosa (fundador dos Repórter Estrábico), que foi decisivo na minha descoberta de todo um admirável mundo novo que, em muitos casos, até era velho e alvo de preconceitos injustificáveis.

Já compraste discos que, afinal, já tinhas? Caso sim, quais. E o que fazes com os discos repetidos?

Já comprei mas sabendo que os tinha. Ou para oferecer a algum amigo que o procurava ou para fazer mais valias!

Há discos que guardam histórias nossas. Queres partilhar um desses discos e a história que lhe associas?

Há um disco que associo à fase mais marcante da minha vida e que, não sei porquê, fui recuperar e ouvir incessantemente, nessa altura. Em Setembro de 87, fui pai pela primeira vez para, logo a seguir, perder o meu irmão mais novo e melhor amigo, num violento acidente. Incapaz de lidar com tudo o que sentia, refugiei-me em cigarros, drogas, álcool e no A walk across the rooftops dos Blue Nile. O meu filho João, que se ia chamar André, ficou com o nome do tio.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Faço isso todos os dias no “Poder Soul”! Fora desse universo, sei lá, talvez o Live in Berlin de uma das minhas bandas favoritas do pós-punk que, não sendo completamente desconhecida, não tem o reconhecimento que merece – The Au Pairs. 

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