Rádio Macau “Onde o Tempo Faz a Curva” (2000)

Nascidos entre uma nova vaga de bandas que entram em cena no panorama pop/rock português depois do assentar da ebulição gerada pelo “boom” de acontecimentos entre 1980 e 81 que consagrara definitivamente um espaço para uma cultura juvenil e pop(ular) sem os freios nem as visões mais fechadas nas ideologias de outrora, os Rádio Macau conseguiram assinar uma sucessão de álbuns entre e 1984 e 1989 pelos quais afirmaram uma rara capacidade para criar êxitos numa música de matriz inspirada pelos caminhos das bandas e figuras indie de então. Chegados aos anos 90 viveram, depois da edição de A Marca Amarela (1992), um hiato que acabaria por se prolongar (discograficamente) por oito anos. Nesse intervalo alguns dos elementos do grupo desenvolveram projetos paralelos. Xana e Flak editaram ambos discos a solo. Alex Cortez (juntamente com Flak) integrou o Palma’s Gang. Filipe Valentim tocou com os Entre Aspas ou Sérgio Godinho.

O reencontro deu-se no ano 2000 com um álbum diferente de todos os demais da discografia dos Rádio Macau. Claramente marcado pelo protagonismo das programações e das eletrónicas, Onde o Tempo Faz a Curva reunia o quarteto “clássico” cedendo o lugar da bateria a Beto Garcia (que há havia tocado com o grupo nos anos 80).

As canções são pequenas grandes aventuras por climas que alguma pop estava a assimilar nos últimos tempos, integrando novas batidas e ambientes nas canções. De Azul em Azul, deliciosa colaboração de Flak com Xana, tema com sabor a maresia digital surgido no álbum a solo do guitarrista, pode ter sido uma ponte para definir os caminhos deste disco… Mas as ideias depois foram longe…

Era Uma Vez (E Não Sei Mais) cruza batidas e climas jazzy com uma canção que sugere movimento sem perder uma postura cool. O acentuar dos ritmos é mais evidente, por exemplo, em 90 Metros, canção que retoma trilhos antes explorados por discos dos LX-90 ou Repórter Estrábico e que, nos Rádio Macau, desenhavam ali um espaço de diálogo entre o apelo da modernidade pop e o formato clássico da canção. Ou, mais ainda, em Branco dos Olhos aprofunda uma exploração de ideias nas linhas de contacto com a música de dança (como os Lamb, Börk ou Madonna o haviam feito recentemente). E vale a pena lembrar que, entre A Marca Amarela e Onde o Tempo Faz a Curva os Rádio Macau tivera, num máxi de remisturas (de Tó Pereira) para o tema Diz Quem Diz uma das primeiras experiências locais de encontro entre a canção pop e a música de dança.

Apesar de alguma exposição dos singles Uma Questão E Tempo e Era Uma Vez (E Não Sei Mais) e de uma aclamação pela crítica, o disco não repetiu os patamares de visibilidade e popularidade de álbuns anteriores. Editado apenas no formato de CD Onde o Tempo Faz a Curva é uma pérola a (re)descobrir.

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