E com os ‘bootlegs’, como é? Existem e há quem os colecione…

Bootlegs?… Bom, em bom e velho português a coisa chamava-se mesmo ‘disco pirata’. Mas na verdade algo separa a noção mais “clássica” do disco-pirata “malandrão”, que muitas vezes é uma mera reprodução de discos oficiais, da criação, às vezes por admiradores do artista ou banda, de edições em suporte físico que apresentam registos inéditos de gravações de concertos, entrevistas ou até mesmo sessões de estúdio. Há por vezes bootlegs que apresentam alinhamentos diferentes ou compilações gravações já disponíveis nas discografias dos músicos. Um exemplo pode ser Who’s Zoo que juntou singles e lados B dos The Who que não tinham sido distribuídos nos EUA, ou The Dark Side of The Moo compilação de temas lançados nos primeiros 45 rotações dos Pink Floyd, este com título que alude a Dark Side of The Moon mas com um twist gerado pela foto de uma vaca na capa (aqui em ligação a Atom Heart Mother). Neste lote pode entrar ainda o “clássico” Disco Pirata com temas do então emergente punk que o radialista António Sérgio criou em Lisboa em 1977.

Da simples criação de gravações para serem partilhadas “à borla (e à socapa)” entre fãs, a criações (sobretudo em vinil e CD) de discos que chegam a circular em mercados paralelos, há bootlegs para todos os gostos, alguns com som decente (outros nem por isso).  E, esses, mesmo “ilegais”, tornaram-se muitas vezes peças de coleção. Vale a pena acrescentar a esta história o porquê da designação bootleg. É uma palavra que data dos tempos da “lei seca” e designava material ilicitamente produzido distribuído (sobretudo álcool).

Há gravações “não oficiais” desde que há fonogramas. Mas foi no final da década de 60 que a procura por bootlegs começou a ganhar forma como circuito paralelo (ou complementar, termos usados sem juízos de valor, entenda-se). E entre os primeiros casos de gravações “pirateadas” e “editadas” fora do contexto das discografias oficiais, estão Great White Wonder (1969) de Bob Dylan, Live’r Than You’ll Ever Be dos Rolling Stones ou Kum Back dos Beatles.

O primeiro surgiu na forma de um LP duplo que juntava gravações caseiras de 1961, vários outtakes de estúdio e alguns momentos de sessões de 1967 que mais tarde surgiriam de forma oficial como as Basement Tapes. O segundo resultava da gravação de um concertos da digressão americana de 1969 e chegou mesmo a ter uma crítica bem positiva publicada na Rolling Stone. E o terceiro “lançava”, ainda antes de Let It Be, algumas gravações que os fab four haviam registado no início de 1969. A adesão de fãs e colecionadores às propostas que iam surgindo em bootlegs gerou inclusivamente, já nos anos, o surgimento de uma publicação, a Hot Wacks, que durante 25 anos foi reunindo informação sobre os títulos, os seus conteúdos e características.

Muitas vezes o sucesso de alguns bootlegs acabou por ter consequências diretas nas discografias oficiais dos músicos. O êxito (com milhares de cópias vendidas) de Live’r Than You’ll Ever Be esteve, por exemplo, na origem da edição do disco ao vivo Get Yer Ya-Ya’s Out! dos Rolling Stones, em 1970. Já a acumulação, ano após ano, de bootlegs de Dylan, acabou por levar o próprio a gerar uma série – a Bootleg Series – na qual tem vindo a lançar material inédito de arquivo das mais diversas etapas da sua carreira. Já o álbum Smile, dos Beach Boys, que durante anos a fio ficou, incompleto, entre as fitas gravadas em meses de sessões, acabou depois por conhecer uma primeira “edição” oficial numa nova gravação lançada em 2024 num disco assinado, a solo, por Brian Wilson. As canções de Smile foram, contudo, surgindo em vários bootlegs ao longo dos tempos. O mesmo aconteceu, já depois da viragem do século com Toy, o álbum que David Bowie gravou para ser o sucessor de hours… (1999) mas que acabou por não ser nunca editado.

A qualidade sonora dos primeiros bootlegs era frequentemente débil (salvo exceções, como o caso de Live’r Than You’ll Ever Be na qual a qualidade do som foi precisamente uma das características destacadas na crítica da Rolling Stone) e só com o avançar dos anos 70 começou a surgir um cuidado na criação de capas com um design mais refletido para cada disco. Nos anos 80 a explosão da acessibilidade da cassete áudio e o surgimento de um mercado da cassete vídeo levaram este circuito a novos patamares e desafios, aumentando sobretudo o volume de gravações de concertos ou atuações para estações de rádio e televisão.

Contudo o bootleg mais procurado da década de 80 não foi mais senão um álbum de estúdio de Prince que o próprio artista retirou, em cima da hora, da agenda de lançamentos. Mas tal como sucedeu com outras edições “pirata”, a discografia oficial acabaria por lançar comercialmente o Black Album alguns anos depois. Nos anos 90, tal como acontecera com a cassete áudio, o CD teria um impacte ainda maior na produção de bootelgs. E a facilidade ainda maior com que as próprias gravações oficiais eram duplicadas levou a um aperto maior das autoridades, notando-se um certo estrangulamento na criação de bootlegs por alturas da viragem do milénio. O conceito de bootleg como realidade física que se pode juntar à coleção de discos “oficial” deixa de fazer sentido quando entramos nos domínios da distribuição digital. Não que tenham desaparecido gravações “ilegais” mas porque um mero ficheiro digital não corresponde, de todo, ao conceito físico (e colecionável) de bootleg.

Não deixou, contudo, de haver edições – sobretudo em vinil e CD – de bootlegs. E não faltam exemplos de bandas que foram tolerando a ideia de ver os seus espetáculos a ser gravados. Os Grateful Dead são, aí, uma referência tutelar. E não é raro encontrarmos bootlegs à venda em lojas online, lojas “reais” e feiras de discos.

Aparte do debate ético – e não nos vamos meter nesses caminhos neste texto – os bootlegs existem e são uma realidade do panorama discográfico. Tanto que há até produção de textos sobre o assunto, um deles sendo o livro de Clinton Heylin Bootleg: The Secret History of the Other Recording Industry, talvez a mais importante referência escrita sobre este assunto… E não há fãs (daqueles a sério) de uma banda ou artista que não tenham ou procurem ter este ou aquele bootleg. Porque muitas vezes acrescentam dados à história oficialmente gravada e editada daqueles de cuja música gostam.

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