E se uma máquina do tempo nos levasse aos momentos em que Gary Numan inventou as suas visões do futuro?…

A culpa foi de um minimoog que Gary Numan encontrou nos estúdios Gooseberry (em Londres) onde ia gravar as maquetes para o segundo álbum da sua banda, os Tubeway Army. O ano era o de 1978, os ecos das visões lançadas pelos Kraftwerk, Can ou Tangerine Dream (entre outros mais) começavam tenuemente a chegar a outras geografias. E Gary Numan, que vivera o álbum de estreia dos Tubeway Army já com a presença de sintetizadores mas ainda num regime pós-punk não muito longe do que outros contemporâneos seus estavam a explorar, encontrou naquele minimoog a resposta para as cenografias e narrativas com sabor a distopia e a ficção científica que criara a pensar num segundo álbum… As sessões de gravação foram alinhando as canções pela ordem com que imaginava o seu futuro protagonismo, curiosamente lançando para longe dos espaços de maior visibilidade o tema que acabaria por fazer a diferença… Agora, quarenta anos depois daquele 1979 que viu Are Friends Electric? ser transformado na primeira canção pop com eletrónicas a chegar ao número um no Reino Unido, o reencontrar destas gravações tem aquele sabor de quem escava a pré-história dos grandes momentos.

Editado como Replicas – First Recordings, este álbum é uma proposta de arqueologia entre as memórias de Gary Numan e também das enormes transformações então vividas que abriram as portas à história futura da música eletrónica no espaço da canção pop. O disco sai na verdade em simultâneo com uma operação semelhante para o álbum seguinte (que seria editado também em 1979, mas já como Gary Numan, a solo), correspondendo contudo The Pleasure Principle – First Recordings a um momento em que, depois do impacte (enorme) de Replicas, Gary Numan respirava a confiança de quem sabia que caminhava pelo trilho certo dos acontecimentos.

Grande parte destas gravações surgiram já em lançamentos especiais de 2007 que procuraram pistas remotas nos arquivos. Os dois novos discos juntam, contudo, alguns takes ainda inéditos, assim como sessões gravadas na BBC nas quais ficaram fixados momentos de exploração das canções que complementam o que as registadas nos álbuns depois nos contaram. Há aqui o sabor do ensaio e erro, da demanda, da ousadia e do eureka achado… E um bom exemplo pode encontrar-se no já citado Are Friends Electric? que começamos por escutar num take no qual Gary Numan lança uma voz sem certezas a um segundo no qual, optando por cantar uma oitava acima, em esforço, encontra o caminho que o levaria à versão definitiva. Em Down In The Park, por sua vez, a maquete não reflete o sentido mais cinematográfico das notas assombradas finais que depois surgiriam em estúdio a gravar o álbum.

Caminhando por quase três horas de gravações (entre os dois novos discos) encontramos pistas que nos devolvem a episódios de invenção de um admirável mundo novo. Cheio de dúvidas, sombras e até mesmo receios, como o sugerem palavras claramente influenciadas por narrativas de ficção científica que então estavam em voga… Mas, ao mesmo tempo, este era um mundo de descoberta e de olhares para outros horizontes… A canção pop dava novos passos. E abria caminho para novas aventuras logo a seguir.

“Replicas – The First Recordings” e “The Pleasure Principle – The First Recordings” estão disponíveis em formatos de 2LP, CD e nas plataformas de streaming em novas edições da Beggars Banquet.

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