Uma aventura minimalista com a voz de Tom Waits

Em 1971 Gavin Bryars (n. 1943) acompanhava, como técnico de som, a rodagem de um filme sobre vidas difíceis na área entre as estações de Waterloo e Elephant & Castle, em Londres. No decurso das filmagens, a dado momento, um conjunto de pessoas começou a cantar. Canções embriagadas, que Alan Power registou com a câmara. E entre elas um velho entoou um tema religioso, de inesperado optimismo. As imagens acabaram por não ser usadas no filme. E as fitas ficaram nas mãos do compositor. Regressado a casa, Gavin Bryars reproduziu que gravara, ensaiando então um breve acompanhamento ao piano sobre a voz do velho que cantara “Jesus Blood Never Failed Me Yet”, daí nascendo a base para uma obra maior que, tomando a repetição da gravação como medula, acabaria por se afirmar como uma das peças de referência do repertório do compositor.

Com evidentes afinidades com a linguagem dos minimalistas, Jesus Blood Never Failed Me Yet teve a sua estreia em palco, acompanhada por uma coreografia, no Queen Elisabeth Hall. A primeira gravação chegou em 1975 na Obscure Label, de Brian Eno, numa versão com apenas 25 minutos (dado o limite de tempo disponível numa face de um LP em vinil). No mesmo ano. Em 1993, através da editora Point Music (etiqueta coordenada por Philip Glass), regravou a obra, contando com a colaboração vocal de Tom Waits (apenas nas duas sequências finais). Na gravação colaboram ainda o Hampton String Quartet e o pianista Michael Riseman. A produção executiva é de Philip Glass, Kurt Munkacsi e Rory Johnson.

Inglês, nascido no Yorkshire, Gavin Bryars começou por estudar filosofia antes de se voltar definitivamente para a música. Aí deu primeiros passos no jazz, tocando contrabaixo num trio. Cativado pela música de John Cage e pela obra dos emergentes minimalistas encontrou outros caminhos para a sua música, revelando primeiros sinais em 1969 com The Sinking Of The Titanic, uma obra que ainda hoje é talvez a mais celebrada das suas composições que, há alguns anos, conheceu nova abordagem através de uma remistura por Aphex Twin.

Nos anos 70 trabalhou com a editora de Brian Eno e fundou a Portsmouth Orchestra. A actividade mais regular como compositor chegou com a década de 80, partilhando o trabalho criativo com o ensino de música. A criação de Jesus Blood Never Failed Me Yet data de um período em que se mantinha profissionalmente ligado ao departamento de belas artes de uma universidade em Leeds. Foi aí que transformou a gravação que captara em Londres num loop maior, sobre o qual desenvolveu a obra.

Distinta das peças para manipulação de fitas com voz gravada que Steve Reich desenvolvera em meados dos anos 60 onde explorava o conceito de phasing (Come Out ou It’s Gonna Rain), Jesus Blood Never Failed Me Yet tomava o loop como fio condutor para a evolução de ambientes definidos por arranjos para conjuntos diferentes de instrumentos. “A ideia relacionava-se tanto com a pop art e a arte minimalista”, sugerindo uma “repetição abstracta, mas com sugestões emotivas”, explica o compositor no booklet que acompanha esta edição de 1993.


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