Os caminhos inesperados e sempre deliciosamente desconcertantes da obra de Tim Buckley

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Poucos artistas assinaram uma obra que conseguisse, em várias ocasiões, traduzir aquela velha frase dos Monty Python: “e agora algo completamente diferente”. Natural de Washington DC, onde nasceu em 1947, passou parte da infância no estado de Nova Iorque antes de se mudar para a Califórnia onde fixou raízes e talhou gradualmente uma identidade. Foi em família que colheu primeiras referências. Dos discos de jazz vocal da avó aos de Frank Sinatra, Johnny Cash ou Judy Garland, da mãe, juntou a descoberta do borbulhar de uma cena folk à qual acabaria por se juntar, dando aí os seus primeiros passos. Formou primeiras bandas com Jim Fiedler (baixista) e Larry Beckett (poeta e percussionista), amigos da escola que o continuariam depois a acompanhar. Numa, os Bohemians, caminhavam entre terrenos da folk. Na outra, os Harlequin 3, as ideias mostravam sugestões mais ousadas…

Tocou assim em clubes folk californianos, num percurso sem rumo definido até ao dia em que o baterista dos Mothers Of Invention lhe recomendou que falasse com o seu manager, desse encontro nascendo entusiasmo e uma procura por um espaço para a sua música poder dar um passo maior em frente. A Elektra reagiu, abriu portas, assinou-o como artista a solo e, ainda nesse ano, surgia um álbum de estreia que dava conta de uma voz que propunha novos horizontes para a canção folk.

Editado em 1966 o álbum de estreia – ao qual chamou simplesmente Tim Buckley é um inspirado disco de canções folk rock no qual o que mais sobressai é o raro talento vocal do seu autor. Vários autores observaram já como o som do disco traduz claramente o que eram algumas das principais marcas de identidade da produção na Elektra por esta altura e a presença de Van Dyke Parks nas teclas sublinha o gosto cutting edge que a editora então procurava (e que pouco depois ganharia mais uma expressão ao assinar os Doors). Mas as marcas de identidade de Buckley não se vergam ao cenário em que o disco surge. A composição é já invulgarmente segura para alguém com apenas 19 anos mas, ao contrário do que aconteceria mais adiante, Tim Buckley não assina aqui aventuras de maior ousadia na interpretação. A solidez da escrita e uma moldagem segura das canções garantiu todavia ao alinhamento créditos suficientes para levar Tim Buckley às plateias da folk que então acolheram a estreia com entusiasmo.

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Um ano depois Goodbye and Hello revelaria primeiros sinais do espírito inquieto que habitava a alma de Tim Buckley. É ainda um disco pensado no espaço folk rock, mas com canções que não só mostram uma vontade de libertação maior da voz como revelam um gosto em aprofundar as possibilidades teatrais da cenografia dos arranjos. Mais barroco nas formas finais, com momentos de mais vincada visão literária nas palavras (sobretudo nos poemas de Beckett), o disco traduz de certa forma um reflexo em seara folk do impacte que o psicadelismo então exercia sobre a canção pop/rock. Havia sinais evidentes de evolução face ao álbum de estreia, mas dentro de terrenos ainda “tranquilos” para as plateias folk… Ninguém imaginava, contudo, que Tim Buckely não mais regressaria a estes universos.

Depois de editados estes dois primeiros álbuns Tim Buckley mergulha numa das fases criativamente mais intensas da sua vida. Miles Davis terá sido uma das chaves para a descoberta de novos caminhos. E a verdade é que o jazz surge logo como um dos novos elementos em cena nas canções de Happy Sad, o primeiro dos dois álbuns que edita em 1969. É um disco de canções mais longas, mais livres nos jogos das formas e, pela primeira vez, com as letras assinadas, todas elas, pelo próprio Tim Buckley. O vibrafone (de David Friedman) é uma importante nova presença em cena… Mas é na libertação das linhas vocais que Tim Buckley encontra um caminho determinante para lançar as experiências que irão marcar o seu caminho de mergulho por terrenos mais experimentais. Em Gipsy Woman o trabalho vocal leva-o para mais longe, olha em frente (e é arrepiante notar semelhanças com algumas das experiências que o filho Jeff faria anos depois). Por falar em Jeff, há em Happy Sad uma canção, Dream Letter, na qual Tim dedica palavras à ex-mulher e filho, naquela que é uma das raras ocasiões em que se explicita a relação muito curta que o ligou ao autor de Grace.

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Apenas quatro meses separam Happy Sad de Blue Afternoon, o quarto álbum de Tim Buckley. Não há na verdade fronteiras evidentes entre um e outro, sendo ambos parte de uma etapa de ensaio de possibilidades para a canção segundo modelos de abordagem relativamente semelhantes. Há, de resto, no alinhamento de Blue Afternoon, canções que surgiram ainda em 1968 e que chegaram a ser ponderadas para eventual inclusão no alinhamento de Happy Sad e que Tim Buckley ia apresentando ao vivo por aqueles dias. A folk ainda surge aqui como um passado recente, por vezes de linhas ainda visíveis num horizonte de memória recente. Mas uma vez mais é de libertação e de curiosidade pelo jazz e outros desafios que a música aqui vive. O gosto em criar cenografias, atmosferas e nelas encontrar espaço para a canção emergir é uma das características que define a música que Tim Buckley criou na reta final dos anos 60 e que ficou fixada nestes dois álbuns de 1969. Curiosamente, e apesar do aparente apelo mais imediato das canções dos dois primeiros álbuns, coube a Happy Sad ter sido registado na história de Tim Buckley como o disco que mais alto subiu na tabela de vendas norte-americana… Um discreto número 81…

Entre as sessões que geraram Blue Afternoon e o disco seguinte passou menos de um mês. Lorca, que seria lançado apenas maio de 1970, revelava, todavia, sinais de partida para outros terrenos e outros desafios. A forma mais clássica da canção cedia lugar a experiências vocais lançadas sobre espaços mais próximos do jazz e da música improvisada em faixas mais longas do que as que até aí criara (o LP inclui apenas cinco temas). As letras, todas elas assinadas pelo próprio Tim Buckley, refletiam uma busca por um sentido menos narrativo e linear e surgiam numa altura em que tanto Tim Buckley como o guitarrista e teclista Lee Underwood estavam a ler a poesia de Frederico Garcia Lorca (daí o título do álbum, resultado de uma profunda identificação que então a poesia operou sobre o músico). O álbum não aceitava cedências a expectativas e parecia destinado a alienar aqueles que ainda poderiam buscar na música de Tim Buckley os ecos do cantor folk que, anos antes, parecia prometer outras rotas e destinos para a sua obra, mesmo tendo apresentado em alguns temas, como é o caso de I had a Talk With My Woman, uma certa afinidade com ecos das suas memórias do cantautor folksy de outrora.

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Este mergulho intencional para longe da folk e apontado a uma curiosidade pelo jazz e a música de vanguarda seria ainda mais profundo no seguinte Starsailor, lançado em novembro de 1970. Através do baixista John Baklin as influências da música de Ligeti ou Penderecki e outros mais compositores contemporâneos estimulam as visões de Tim Buckley que se apresenta aqui ainda mais decidido a ser ousado, a experimentar para além das zonas de conforto (as suas e as do seu público). Mais extremado, mais desafiante, Starsailor não deixa, contudo, de ser o disco que deu origem a Song To She Siren, talvez o clássico maior da obra de Tim Buckley e uma importante porta para a (re)descoberta da sua obra por gerações seguintes depois de uma brilhante versão assinada em 1984 pelos This Mortal Coil no álbum It’ll End In Tears, projeto da editora 4AD que gravaria ainda abordagens a I Must Have Been Blind ou Morning Glory no álbum Filigree and Shadow (1996). Song To The Siren era, na verdade, uma canção com uma história mais antiga do que as restantes faixas do álbum e chegara mesmo a ser apresentada numa atuação num programa de televisão em 1967. Starsailor, o tema título (onde se reconhece a influência de Ligeti) é o momento em que Tim Buckley mais se afasta dos espaços da canção popular, cabendo a temas como The Healing Festival ou Down By The Borderline um piscar de olho ao uma ideia de fusão de linhas entre o jazz e o rock. Já o inesperado reencontro (de pouco mais de um minuto) com um cerco classicismo pop folk em Moulin Rouge, verdadeiro alienígena neste alinhamento, sublinha o caráter imprevisível que a música de Tim Buckley cruzava na alvorada dos anos 70.

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Esta caixa de sete LP – que deixa por isso de fora os álbuns Sefronia (1973) e Look at The Fool (lançado em finais de 1974, meses antes da sua morte em junho de 1975) – regista mesmo assim marcas da etapa final da obra de Tim Buckley com Greetings From L.A. disco de 1972 que assinala uma nova reviravolta nas suas demandas. Marcado pelo modo como o disco anterior fora mal aceite (senão mesmo quase ignorado), Tim Buckley procurou outras formas de se expressar. Procurou até mesmo para lá da música. Mas ao ter o estúdio de novo na linha do horizonte e perante a anterior banda dissolvida, juntou um novo naipe de músicos e emergiu reinventado sob uma curiosidade pelo funk. Greetings From L.A. não toma contudo o funk como um motor de explosão emotiva nem mesmo como uma máquina de euforia física. Este é um funk algo marcado por desencantos e obsessões e que, mesmo ancorado numa curiosidade pelo que nomes como Marvin Gaye ou Al Green então exploravam, não deixa de procurar sobretudo um caminho bem pessoal para o expressar. Nota curiosa para a faixa que encerra o disco, talvez o momento em que mais abre uma fresta por memórias do que fora outrora a sua música. Porém fazia-o por um retrovisor. O seu olhar era dirigido para a frente, mesmo se os que antes o aplaudiam não mais lhe estivessem a dar atenção.

“The Complete Album Collection 1966-1972” de Tim Buckley é uma caixa de 7LP editada pela Rhino. Os discos estão também disponíveis em edições avulso em suporte físico e nas plataformas de streaming.

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