E aos poucos faz-se, com inéditos de Patrick Cowley, o retrato de um pioneiro da música eletrónica

Com o título "Mechanical Fantasy Box" apresenta-se uma nova coleção de material inédito, este datado de um período entre 1973 e 1980, revelando explorações de um pioneiro da música eletrónica.

Os últimos anos deram nova vida à memória da obra de Patrick Cowley, um dos “pais” do hi-nrg e uma das figuras-chave, senão mesmo o protagonista, da banda sonora para a cena noturna eletrónica que há quase 40 anos floresceu na cidade de São Francisco (Califórnia). Lindstrom e outros heróis de uma nova geração de cultores do space disco estiveram entre os responsáveis por esta redescoberta que assim levou a uma nova geração de melómanos os discos que lançou em nome próprio, reativando igualmente interesse pelos trabalhos de colaboração que então assinou com Sylvester, entre os quais o clássico Do You Wanna Funk. Ao mesmo tempo um importante trabalho de verdadeira “arqueologia” entre fitas gravadas nos anos 70 tem vindo, através de edições da Dark Entries, a mostar-nos outras dimensões na obra do músico.

Natural de Buffalo (Nova Iorque), onde nasceu em 1950, Patrick mudou-se para São Francisco aos 21 anos para estudar música no City College, tendo então sido um dos fundadores do Electronic Music Lab onde se dedicou a explorar as possibilidades reveladas por novas máquinas. O mundo descobriu-o mais tarde, quando começou a fazer discos. E então afirmou-se como um dos mais importantes pioneiros na construção de uma relação entre as eletrónicas e as pistas de dança, com presença sobretudo determinante na definição de descendências do disco que emergiram então entre Nova Iorque e, sobretudo, São Francisco, em finais dos anos 70 e inícios dos 80, ganhando então a designação de hi-nrg. Autor de algumas pérolas maiores da música de dança desse tempo, algumas delas na voz de Sylvester (com quem colaborou ativamente), criou também uma obra a solo, que se revelou numa série de máxis e nos álbuns Magatron Man (1981), Menergy (1981) e Mind Warp (1982), este último já criado numa etapa avançada da doença (seria, em finais de 82, uma das primeiras vítimas de sida entre o mundo da música, quando tinha apenas 32 anos).

Foi algo esquecido durante anos apesar de ser uma referência claramente citada nas obras de nomes como os Pet Shop Boys ou New Order. Mas tudo mudou depois da viragem do milénio. Não que tenha passado a ser figura universalmente reconhecida num plano mainstream. Mas não há hoje em dia, entre os mais interessados pela música eletrónica e pela música de dança, quem pelo menos não tenha a noção de quem foi e que obra criou. Bom… para quem ainda estivermos a falar de um ovni então as linhas seguintes podem ajudar a criar um breve retrato de uma figura que urge (re)descobrir.

O reencontro com a obra de Patrick Cowley começou por se fazer em reedições às quais se começaram a juntar, depois, compilações de material inédito. Foi o caso, há precisamente dez anos, de Catholic, um álbum que juntou gravações de arquivo registadas na segunda metade dos anos 70, juntamente com Jorge Socarras. Ali se revelava um álbum surpreendente, algo afastado dos destinos para a pista de dança da restante obra gravada por Patrick Cowley, revelando antes um interessante espaço de pioneirismo na pop eletrónica norte-americana, em canções de travo pós-punk nascidas em finais da década de 70, em concreto registadas entre 1976 e 1979. Mas havia mais surpresas pela frente…

School Daze, revelado em 2013, foi um segundo fruto de descobertas de arquivo. Na verdade este álbum nasceu da localização, nos armazéns de uma produtora de cinema porno gay, de fitas com a música que Patrick Cowley tinha criado para utilização em filmes desse estúdio de Los Angeles. Contactado em 1981 para criar música para estes filmes, Cowley juntou fitas de gravações suas, algumas dos seus dias de estudante universitário. Nomes como Wendy Carlos, Tomita ou Giorgio Moroder são inevitavelmente aqui apontados como referência, e revelam neste lote de temas instrumentais algumas experiências que transcendem mesmo os espaços mais próximos da forma da canção que, entretanto, levara já aos seus discos.

Em 2015 outra peça de arquivo viu a luz do dia. No formato de EP, de uma velha fita saía Kickin’ In, um tema vocal em sintonia clara com os seus clássicos hinos hi-nrg. A canção, juntamente com os outros dois temas que completam o EP, resultou de uma recolha de material na cave da casa do antigo dono da Megatone Records (para a qual Cowley trabalhou em finais dos anos 70 e inícios dos 80), por ocasião de uma mudança. Entre velharias, estava ali uma fita gravada em 1978, com música de Patrick Cowley e revelando Kickin’ In uma colaboração com Frank Loverde (1947-1990), uma das vozes deste mesmo movimento, com outras colaborações já conhecidas com o autor destas composições. Na outra face do disco eram incluídas outras preciosidades ainda mais antigas, gravadas por volta de 1975, em colaboração com Maurice Tani (colega de escola e de trabalho em estúdio), uma delas em regime de busca de novos caminhos instrumentais sobre matriz funk, a outra mostrando uma visão mais robótica destes percursos eletrónicos, o que reforça o papel pioneiro de Patrick Cowley no género.

Em 2016 e 2017 chegaram, respetivamente, Muscle Up e Afternooners, mais dois volumes de material inédito que Patrick Cowley tinha reunido para responder ao pedido de John Coletti, o dono dos Fox Studios, para as bandas sonoras dos filmes porno que então lançava. Ao contrário do que sucedera em School Daze e Muscle Up, em Afternooners foram reunidas fitas gravadas entre 1979 e 1982, ou seja, contemporâneas do período em que Patrick Cowley criou os discos que definiram a identidade do hi-nrg. E, de resto, há entre as faixas de Aftrernooners algumas demos e primeiras ideias de temas que levou a disco, nomeadamente ao alinhamento de Mind Warp. E assim ficou fechado o capítulo que ligou música de Patrick Cowley ao cinema porno. Mas a história da redescoberta da sua música não ficou por aí…

E eis que agora chega uma oferta em dois planos. Primeiro um disco. E, em finais de dezembro, um livro. Ambos partilham o mesmo título, Mechanical Fantasy Box e conduzem-nos a espaços de busca (musical e sexual) de Patrick Cowley nos anos 70. As faixas que encontramos neste álbum (um LP duplo) reúnem uma série de gravações efetuadas entre 1973 e 1980. Porém, ao invés das que surgiram em School Daze ou Muscle Up, revelam sobretudo demandas exploratórios de um músico em claro modo de imersão nas possibilidades das ferramentas eletrónicas e dos instrumentos disponíveis em estúdio. Muita da música que escutamos aqui sugere mais uma noção de viagem cósmica (e vivia-se um tempo de importantes conquistas da astronáutica) do que preocupações pragmáticas com vista a fins mais específicos. Mas mesmo entre várias deambulações e paisagens por vezes emergem marcas de identidade mais evidentes como, por exemplo, quando em Right Here Right Now parece surgir o elo perdido que liga a memória (recente) de um I Feel Love de Donna Summer aos caminhos que em breve levariam algumas heranças do disco ao hi-nrg. O grosso do alinhamento, contudo, coloca-o mais perto de terrenos com afinidade com a música ambiental e até mesmo o kraturock, revelando sobretudo o resultado de explorações com um dos primeiros sequenciadores. O livro, que chega em dezembro, recupera textos, notas, desenhos, fotografias, colagens, colocando-nos perante um diário íntimo que Patrick Cowley registou entre 1974 e 1980.

No final das viagens entre estes discos póstumos – que juntam já mais música do que a que Patrick Cowley lançou em vida –  fica a certeza de que olharmos para este músico como percursor do hi-nrg é na verdade uma descrição bastante redutora. O conjunto de revelações que estes discos têm feito chegar aos nossos ouvidos confirmam-no, na verdade, como um dos mais importantes pioneiros na aventura da música eletrónica e não apenas da sua emancipação noturna.

“Mechanical Fantasy Box”, de Patrick Cowley, está disponível em 2LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Dark Entries.

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