Daniel Barradas

Daniel Barradas, tem 46 anos, vive em Oslo e é designer gráfico e designer de serviços. Nos tempos livres escreve, pinta, quando lhe pedem faz capas de discos e costumava organizar concertos de artistas portugueses na Noruega (mas deixou-se disso no mês passado).

Qual foi o primeiro disco que compraste?
O primeiro que fui escolher a uma loja foi o maxi single do Dancing in the streets cantado pelo David Bowie e o Mick Jagger porque alguém me ofereceu um cheque disco para um single. Tive de pagar mais uns 10 escudos porque o cheque era para um single normalzinho e eu armei-me logo em garganeiro. O primeiro que comprei com dinheiro meu porque queria mesmo comprar foi o Libertação, o primeiro álbum dos Delfins.

E o mais recente?
Skamskudte fugle, um álbum ao vivo do Nikolaj Nørlund com a orquestra filarmónica de Copenhaga. Foi um dos meus álbuns do ano em 2018 mas só o comprei agora porque o achei quando andava a cuscar nas lojas de discos de Copenhaga.

O que procuras juntar mais na tua coleção?
O meu objectivo não é coleccionar no sentido de ter um tema, completar algo ou guardar intocado numa vitrine. Compro discos para ouvir com música de que verdadeiramente gosto porque a experiência ritual de pôr um disco a tocar agrada-me. Mas, como gosto de muita coisa, os discos tendem a acumular-se em quantidades acima do que é considerado normal… Curiosamente, o disco mais valioso da minha colecção (segundo o discogs) é um “best of” da Sade em triplo vinil que eu comprei para tocar quando vem gente cá a casa para jantar… Antes do Spotify comprava discos que queria descobrir ou artistas que conhecia mas agora o meu critério é limitar-me a comprar álbuns que gosto de ouvir na totalidade. Paradoxalmente, depois do Spotify passei a comprar muito mais discos porque descubro e ouço muito mais variedade de música…

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.
Les chemins de verre dos Karkwa. Provavelmente só o acharei se for ao Canadá…

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.
Spleen dos Rádio Macau. Passei o verão de 1987 a entrar em todas as lojas e a perguntar por ele mas nunca o achei à venda. Telefonava para os discos pedidos na rádio e pedia que passassem uma canção desse disco e gravava em cassete mas como não sabia o nome das canções só consegui gravar quatro… Comprei-o finalmente em vinil usado em 2012, a preço de roubalheira porque me apanharam num momento nostálgico. Outro que levei 20 anos a encontrar foi o The right man do Richard Jobson. Comprei-o baratinho no Discogs a alguém que não fazia ideia do que estava a vender.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?
Depende do que for mas penso duas vezes se for acima de 35€. O pior é quando são baratos e não resisto…

Lojas de eleição…
Em Lisboa o sítio onde mais me desgraço é na loja de livros de desconto na estação de metro do Oriente (não sei o nome daquilo), também vendem discos e a secção de música portuguesa tem as coisas que eu gosto dos anos 70 e 80. A minha loja favorita no mundo é a Balades Sonores em Paris porque são super simpáticos. Cada vez que lá vou peço para me mostrarem música francesa e saio sempre carregado de coisas fantásticas. Aqui em Oslo é a The Garden embora acabe quase sempre a comprar os discos na Tiger records porque vendem mais barato.

Feiras de discos. Frequentas?
Não.

Fazes compras ‘online’?
Bastantes. Não por motivo de preço mas porque a maioria das coisas que ouço não se acha nas lojas normais. Acabo muitas vezes a comprar no bandcamp directamente aos artistas, o que tem a vantagem de que muitas vezes enviam os discos autografados.

Que formatos tens representados na coleção? 
Vinil e CD

Os artistas de quem mais discos tens?
Dead Can Dance, Cocteau Twins e Kate Bush

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…
4AD por causa das capas

Uma capa preferida.
Heaven or Las Vegas dos Cocteau Twins. E tenho muito orgulho nas capas que fiz para os The Guys from the Caravan, Bleedingblackwood e Filipe Raposo com Rita Maria.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.
The blue depths dos Odawas (Não recomendo a ninguém, escusam de ouvir, foi feito só para mim. A propósito, tem a melhor contra-capa de sempre).

Como tens arrumados os discos?
Ordem alfabética e depois há uma secção de música portuguesa e outra de bandas sonoras.

Um artista que ainda tenhas por explorar…
Colin Blunstone. Tenho o One year, que adoro, mas ainda não ouvi os outros albuns dele.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.
Gone to Earth do David Sylvian. Comprei-o aos 17 anos só porque tinha lido o nome dele no Blitz e a capa tinha um ar diferente de tudo o que se ouvia em minha casa. Quando o pus a tocar foi um choque. Ensinei-me a gostar dele e até hoje é um disco que nunca me canso de ouvir e é o meu preferido do Sylvian. A “wave” nunca falha para me pôr em pele de galinha.

Já compraste discos que, afinal, já tinhas? Caso sim, quais. E o que fazes com os discos repetidos?
Dou por mim repetidamente a comprar discos da Stina Nordenstam porque tenho sempre a sensação de que precisam ser salvos da loja e encontrar um bom lar. Tenho três cópias do And she closed her eyes e duas do The world is saved por causa disso. A ideia é um dia oferecê-los a alguém, mas nunca me lembro de o fazer.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respetiva história?
Spleen and ideal dos Dead can Dance. Descobri os Dead can Dance na colecção de discos do meu primo Nélinho e foi como encontrar a minha alma. Gravei o disco numa cassete e ouvi-a repetidamente no walkman durante o verão de 1991. Coincidiu com a primeira vez que li A sombra do torturador do Gene Wolfe (que já devo ter lido umas 15 vezes). Para mim este álbum e este livro são indissociáveis e quando “preciso de me encontrar” volto a eles para me lembrar de quem sou. Tenho duas edições em vinil e uma em CD só porque sim. Depois há o Spirit of eden dos Talk Talk. Não vou à praia sem ele. É mais importante do que o protector solar.

Um disco menos conhecido que recomendes…
Como se eu conseguisse responder a esta pergunta só com um… toma lá oito: “Barrow” dos Cemeteries, “Soita mulle” de Regina, “Waiting for that one clear moment” de Thomas Dybdahl, “They are the shield” de Toby Driver, “Scarlet chives” de Scarlet chives, “Praktiline mees” de Marten Kuningas, “Munnduja” de Maarja Nuut & Ruum“Pale honey” das Pale Honey.

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