Era uma vez a história de George Michael, contada pelo “outro” elemento dos Wham!

É claro que sabemos o nome dele. E no tempo dos Wham! o seu nome surgia muitas vezes referido em notícias (muitas vezes mais por motivos acessórios do que por questões ligadas à música). Mas para muitos, e sobretudo desde o fim do grupo – encenado em 1986 num grande espetáculo no estádio de Wembley do qual não ficou depois nem registo áudio nem vídeo para além das reportagens para os noticiários – ele passou a ser referido muitas vezes como “o outro”… E isso tanto acontecia quando alguém se referia ao passado de George Michael como quando ele mesmo tentou uma carreira de piloto de corridas de automóveis (que correu mal) ou quando em 1990 lançou o seu único álbum a solo (que não correu melhor)… Agora, aos 56 anos, Andrew Ridgley volta a assinar uma obra em nome próprio. Trata-se de George, Wham! and Me, um volume autobiográfico no qual foca atenções na sua infância e juventude, que corresponde aos dias que viveu bem perto de George Michael, antes e durante as suas vidas conjuntas como músicos.

Conheceram-se na escola. Andrew foi aquele que levantou o braço quando um novo aluno foi apresentado à turma. Chamava-se Giorgos (nome grego) e coube a Andrew ser aquele que o apresentaria à escola, aos colegas… Não parecia haver afinidades entre ambos até que começaram a falar de música… E aí surgiu a força que aprofundou uma amizade que não foi durante muito tempo bem vista pelos pais do pequeno Yog (como chamou ao futuro George Michael).

Dos discos escutados na casa um do outro nasceram sonhos que se começaram a manifestar quando decidem formar uma banda. Yog não tinha nem a segurança vocal nem o carisma que mais tarde encontraria. Mas era mesmo assim o vocalista dos The Executive, uma banda que nascia em sintonia com um som que então fazia a ordem do dia no Reino Unido: o ska. Mas num momento determinante – numa altura em que tentavam ser notados por editoras – todos os restantes elementos do grupo desertam. Ficam os dois… E de uma expressão que Andrew gritara um dia, ao dançarem Rapper’s Delight dos Sugarhill Gang, nasceu o nome do duo que ficou: Wham! E do som desse clássico pioneiro do hip hop surgiriam as pistas para chegarem à canção que seria pouco depois o seu primeiro single, Wham Rap, um canto de travo hedonista mas que refletia sobre a questão do desemprego entre os mais jovens.

Yog não queria a cantar no início de tudo, mas Andrew conta no livro que foi ele quem insistiu e cedo notou um talento emergente. E de facto, entre 1979 e 1983, o ano em que editam Fantastic! (o álbum de estreia), o seu maior amigo – entretanto renomeado George Michael – cresce em segurança não apenas como artista mas como estratega. Era George quem observava o comportamento das vendas dos discos e questionava os passos seguintes. E depois de um inicio de percurso com canções assinadas a dois, era também já ele o único autor das canções dos Wham! Da etapa a dois tinham ainda então guardado na manga um trunfo: uma balada que pouco depois sairia como disco a solo de George Michael. Era Careless Whisper, claro, que no livro Andrew justifica como lançamento a solo para não “confundir” sobretudo o público americano que acabara de descobrir os Wham! através da pop festiva de Wake Me Up Before You Go Go. E sobre esta canção – o primeiro single do álbum Make It Big – Andrew revela que o título nasceu de uma nota que deixara um dia aos pais para que o acordassem de manhã, antes de saírem para o trabalho…

Por essa altura os Wham! tinham já mudado de imagem, trocando os casacos de cabedal e os jeans do início por um vestuário mais desportivo capaz de apelar a um público mais jovem. Também por essa altura Shirley (uma das duas coristas dos Wham!) já não era namorada de Andrew, embora continuassem a trabalhar juntos. E quando chegados a Make It Big, sob focos de atenção global, George já tinha revelado a sua sexualidade um circulo muito fechado, decidindo por então manter o assunto numa esfera privada.

O livro conta histórias de canções – Last Christmas, por exemplo, surgiu depois de George subir ao quarto na casa dos pais com uma ideia, regressando uma hora depois com um esboço do tema – e também das reações que George Michael tinha com os acontecimentos em volta da carreira, desde o facto de nunca ter ficado satisfeito com o número 2 do single de Natal à viagem à China, onde tocaram ao vivo em 1985. Andrew revela também que, distraído, não ligou ao desafio de Bob Geldof e no dia em que os Band Aid gravaram Do They Know It’s Christmas, ficou em casa a descansar… Curiosamente esse foi o single que impediu Last Christmas de chegar ao número um… Mais tarde, em julho de 1985, Andrew marcou presença no palco do Live Aid.

O livro não conta o ano final dos Wham! com o mesmo detalhe da etapa entre 1982 e 1984. Passa ao lado de I’m Your Man e de raspão junto de The Edge Of Heaven, os singles finais, alargando, contudo, o retrato de The Final, o concerto de despedida. Sem surpresa o “eu” habita muitas das narrativas e explicações. Mas o “eu” está no título. Ou seja, o jogo é lançado sobre o leitor mal pega no livro. Esse “eu” não procura contudo beliscar em nada uma admiração maior pelo amigo Yog – como trata George ao longo de todo o volume – assim como reconhece que, se a princípio Andrew era o músico (guitarrista) e o entusiasta, com a rodagem acabou por ser George aquele que atingiu a velocidade de cruzeiro para não mais perder o controlo do leme dos acontecimentos.

George, Wham! and Me não se compara naturalmente à densidade narrativa de muitas biografias escritas por jornalistas naturalmente mais habituados a lidar com as palavras e o modo de moldar as histórias e as unir num fio condutor, nem revela na verdade um inesperado mundo de histórias, sendo por vezes mais surpreendente o lote de fotografias que junta ao texto. Mas é um retrato íntimo, atento e conhecedor da vida de um amigo pelo seu maior parceiro nos dias de infância e juventude. E no fim, o “eu” do título reconhece, sem qualquer resistência, que o protagonismo da história era o “outro”. E o outro, neste caso, era George Michael.

“George, Wham! and Me”, de Andrew Ridgley, é um volume de 352 páginas em capa dura lançado pela Penguin.

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