A arte de transcender a dor segundo FKA Twigs

Os ritmos de gravação edição na música popular são hoje bem distintos dos que, noutros tempos, definiam agendas com intervalos mais curtos e, portanto, maior volume de lançamentos. Mesmo assim os cinco anos que separam os dois álbuns de FKA Twigs custaram a passar. Editado em 2014 o disco a que chamou simplesmente LP1 confirmava pistas antes lançadas em primeiros EPs e colocava-a na vanguarda de novas possibilidades para a criação de canções com ferramentas eletrónicas. Agora, cinco anos depois, Magdalene junta um importante capítulo não apenas à discografia da cantora mas ao próprio panorama de uma ideia de pop exploratória que hoje é universo de trabalho para uma família bem nutritiva de criadores e de ideias.

Uma ocorrência maior dominou emocionalmente o tempo que precedeu a criação do disco, acabando por se refletir nas suas entranhas. Entre uma separação, o temporal de inquietude que se seguiu e a demanda de caminhos para a música que entretanto ganhou forma nasceram estas canções que expandem e aprofundam os trilhos que LP1 já antes sugerira. Depois de Arca e outros parceiros em LP1 novos colaboradores entram em cena (de Nicolas Jaar a Daniel Lopatin), criando todos eles pontes e diálogos que parecem mais dominados do que antes pelas mãos da própria Tahliah Barnett (o seu nome real) e aqui se moldam em canções que materializam e enfrentam, de forma mais carnal e firme, noções de fragilidade e dor antes já abordadas.

Cellophane, single de avanço (que abordava de frente as sequelas da separação), começara por sugerir um caminho elegante, desafiante. Logo depois Holly Terrain (dueto com Future) parecia querer desviar os caminhos para trilhos mais próximos da cultura hip hop. Esse single representaria, contudo, o episódio mais distante do tom dominante de um disco de uma pop ambiental cenicamente elaborada, embora com o cuidado de encontrar soluções capazes de nunca ofuscar a voz de FKA Twigs. Com as devidas distâncias (no tempo e nas formas) Kate Bush é, mais ainda do que os parceiros contemporâneos chamados a colaborar no disco, a referência que cruza Madgalene pelo modo como procura caminhos para a música, as palavras e o desejo em criar ambientes em volta das canções. Madgalene é um disco aparentemente frágil mas afinal firme nas ideias que moldaram música e palavras. É álbum a juntar à banda sonora que desenha por música o que é o momento que vivemos. Valeu a espera.

“Magdalene”, de FKA Twigs, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Young Turks Recordings

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