Hugo Moutinho

Hugo Moutinho tem 49 anos (completa o meio século brevemente, em dezembro). Trabalha na loja de discos Louie Louie Lisboa, apresenta-se regularmente como DJ sob o nome Mr Mitsuhirato. Faz parte das editoras Discotexas e Table Sports, e assina o programa Discotexas’ Forbidden Cuts na Vodafone FM…

Qual foi primeiro disco que compraste.

O Heroes do David Bowie, foi o primeiro que comprei. Juntei o dinheiro e pedi conselhos a um amigo da minha irmã que era mais velho. Disse-lhe que queria comprar um disco do Bowie e precisava saber por qual começar. Sugeriu-me esse e mais dois (Ziggy Stardust e Hunky Dory) que comprei a seguir. Todos comprados na Tubitek, no Porto, que na altura era a melhor loja de discos que eu conhecia. Hoje, o Bowie é um dos artistas mais bem representados cá em casa.

E o mais recente…

Foram cinco, ao mesmo tempo. Dois do Yukihiro Takahashi, que foi um dos membros dos Yellow Magic Orchestra. Comprei a reedição do primeiro disco e um original do segundo. O Three Mantras dos Cabaret Voltaire, que é dos poucos que ainda não tinha. Um disco que junta quatro artistas japoneses de música experimental e noise chamado Quasispecies Four e um LP colaborativo entre Charlemagne Palestine e Z’Ev. Estes dois últimos faziam parte da colecção do Thurston Moore. Ele pegou em cerca de 300 discos e num dia esteve com eles numa loja em Londres chamada World of Echo, para quem os quisesse comprar. O que sobrou ficou na loja para ser vendido a pessoas que, como eu, não estiveram presentes.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Acima de tudo discos que me digam algo, que mexam comigo musical e visualmente. Não me preocupa o estilo, preocupa-me sim que tipo de relação tenho com cada objecto. Costumo dizer que colecção de discos só tenho uma, porque exaustivamente andei anos a comprar todos os discos (e não só!) de uma editora chamada Estrus. Gosto da maior parte deles e como a maioria das capas foram desenhadas por um dos meus designers gráficos de eleição – Art Chantry – pareceu-me lógico dedicar-lhe tempo e dinheiro.

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Nada que me lembre assim de repente. Haja dinheiro e quase tudo vai caindo nas minhas mãos.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

O Hope, dos Bourbonese Qualk, era o único que me faltava para acabar a discografia da banda. Nem é um disco raro nem caro, talvez porque não haja muita gente interessada, mas durante muito tempo não estava visível. Nem no Discogs nem no Ebay.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

O meu limite é imposto pelo dinheiro que tenho, ou que estou disposto a pagar. Embora seja raro, já vendi um ou outro disco que deixaram de ter interesse para mim para comprar outro mais caro.

Lojas de eleição em Portugal…

Louie Louie Lisboa, por razões óbvias, mas também a do Porto. Flur, Matéria Prima, Discolecção, Groovie Records, Muzak… O Pedro Tenreiro, numa das entradas desta série de entrevistas, disse ter “muita admiração por todas as pessoas que têm a coragem de manter um negócio tão apaixonado e incerto como esse.” Partilho da mesma admiração, por isso tento apoiar os meus pares seja em Lisboa, Porto, Londres ou Berlim. Comprar um disco numa loja faz toda a diferença! 

Feiras de discos. Frequentas?

É raro. A minha experiência diz-me que, por cá, é pouco provável encontrar algo que me faça gastar dinheiro. Prefiro ir a lojas, onde é maior a probabilidade de encontrar os melhores discos.

Fazes compras ‘online’?

Apesar de trabalhar numa loja de discos, muitos dos títulos que procuro não aparecem por cá, por isso recorro ao Discogs ou Ebay ou directamente às editoras. Normalmente só compro dentro da Europa, porque um disco que aparece barato nos EUA rapidamente se torna muito caro quando fica sujeito a essas taxas. Não vale a pena.

Que formatos tens representados na coleção? 

LPs, 10” (o meu formato preferido!), 7”, CDs e cassetes.

Os aristas de quem mais discos tens?

David Bowie, Nick Cave, Cabaret Voltaire, Mono Men, Smiths, Steve Albini (dividido pelos Big Black, Rapeman e Shellac), John Zorn, LCD Soundsystem, Telectu, New Order, Bourbonese Qualk, Tom Waits, Orange Juice, Make Up, Sonic Youth, Chico Buarque, Talking Heads, Roxy Music, Stereolab, Brian Eno, Asmus Tietchens…

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Estrus! É a minha editora de eleição. Na altura não havia maneira de saber se determinado disco era bom ou não. A descrição que vinha no catálogo despertava a curiosidade e a capa chamava a atenção? Compra-se! Raramente desgostei do que recebi. Recentemente a editora Blume (Julius Eastman, Werner Durand, Mary Jane Leach…) tem feito as minhas delícias. Já nem ouvia os discos antes de os comprar. E as capas são lindíssimas! É tudo bom!

Uma capa preferida

Escolho três, porque uma é impossível. Há dois designers gráficos que estão bem representados nas minhas prateleiras: Neville Brody e Art Chantry. A compilação The Last Testament e o álbum homónimo dos The Makers são duas dessas escolhas. Mas também tenho discos, de que nem gosto muito, só porque a capa é de um desses designers. A terceira escolha recai na capa desenhada pelo Robert Rauschenberg para a edição especial do Speaking in Tongues dos Talking Heads.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Assim, de repente, não me estou a lembrar de nenhum. O contrário acontece mais vezes. Quase toda a gente que eu conheço gosta dos Pixies e eu não os suporto!

Como tens arrumados os discos?

LPs e CDs organizados da mesma maneira. Por estilos, de forma abrangente, e depois por ordem alfabética. Excepção feita aos discos portugueses e japoneses que estão à parte. É claro que há sempre discos que, por não serem de fácil categorização, acabam por ficar numa zona o mais próximo possível. Para mim, esta tem sido a melhor maneira de não passar dias à procura de um disco. As cassetes, por serem em menor quantidade, estão só por ordem alfabética.

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Tenho ainda por explorar muitos artistas japoneses. Tenho um fascínio muito grande pelo Japão e pela maneira como transformam as influências exteriores e fazem algo muito próprio. Dentro da electrónica, do noise, do garage rock, da pop dos anos 60 e do free jazz tenho muito com que me entreter.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Lembro-me da primeira vez que ouvi o Candy Apple Grey, dos Husker Du, e de não ter gostado. Foi também a primeira vez que ouvi a banda e, apesar de lhes reconhecer importância, não percebia muito bem aquele disco. Tive que deixar passar alguns anos e ouvir mais discos deles para compreender de onde vinham e para onde iam.

Quando era adolescente não tinha interesse na música brasileira, e hoje não passo muitos dias sem ouvir o Chico Buarque, Caetano Veloso, Nara Leão, Elis Regina, Norma Benguell…

Já compraste discos que, afinal, já tinhas? Caso sim, quais. E o que fazes com os discos repetidos?

Já, mas felizmente não muitas vezes. Aí ajuda ter os discos minimamente catalogados, e essa catalogação também te ajuda a perceber que afinal não tens determinado disco e que precisas muito dele! Quanto aos repetidos, se sei que algum dos meus amigos os quer fica resolvido, caso contrário levo para a loja e ponho à venda.

Há discos que guardam histórias nossas. Queres partilhar um desses discos e a história que lhe associas?

Há uns anos, numa altura mais complicada da minha vida pessoal, passei uns dias em Berlim, numa casa que um amigo me alugou. Deixou-me à vontade para ouvir os discos dele, e na primeira noite peguei num LP do William Basinski, o Melancholia, que não conhecia. Este disco acalmou-me, mudou a minha maneira de ver os problemas e abriu-me o coração. Ouvi o disco uma vez por dia enquanto lá estive e quando cheguei a Lisboa não descansei enquanto não o comprei. O poder da música é impressionante.

Um disco menos conhecido que recomendes…

Momus Voyager. É o meu disco preferido do Momus, mesmo que, musicalmente, esteja bastante colado aos Pet Shop Boys. Normalmente, quando se fala do Momus, só se fala do Tender Pervert ou do Ping Pong e nunca do Voyager, que é daqueles discos pop que se ouvem um milhão de vezes sem nunca cansar.

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