E eis que chega o sereno canto de despedida de Leonard Cohen

Em 2016, quando apresentava a edição de You Want It Darker, Leonard Cohen confessou, pacificamente, numa entrevista, que estava pronto para morrer. O disco chegou às lojas a 21 de outubro. E a 7 de novembro chegava a notícia da sua partida… O disco que então carregava sinais evidentes de despedida não correspondia, contudo, ao fim…

Durante as mesmas sessões de gravação e nas semanas que se seguiram à conclusão de You Want It Darker, Leonard Cohen continuou a escrever, a experimentar novas ideias para canções… e a gravar. O método era o mesmo que gerara esse disco de 2016. Sentado numa cadeira, na sala de sua casa, com o filho a seu lado, Leonard Cohen continuou a gravar. Em alguns casos as palavras surgiam já com a melodia que havia composto. Noutros eram poemas lidos… E todos eles deixados com indicações (ao filho) de como os poderia finalizar… Assim foi. De uma mão cheia de novos esboços e poemas lidos começou a nascer um disco que incluiu ainda um poema que Cohen havia revelado numa alocução em público e que, nessa ocasião, ficara igualmente registado… Adam Cohen arregaçou as mangas. Não tinha mais a seu lado o pai que não gostava que lhe mexessem na guitarra ou no piano… Dizia que era como se estivessem a usar a sue escova de dentes. Mas dele tinha ficado uma presença que não desaparecera. E parte dessa presença estava agora nas mãos de Adam. Um derradeiro disco. E depois deste, como confirmou entretanto, mais não há “novo” para editar… O arquivo aí poderá ser a outra chave para manter viva a sua presença entre nós… Mas para já é tempo de o escutar com o sabor da descoberta. Como tantas vezes aconteceu.

Contra o que muitas vezes o próprio Lenonard Cohen se manifestou, recusando mergulhar em viagens de nostalgia para o seu som (tendo por isso negado desafios lançados, por exemplo, por Rick Rubin, que assinou discos tardios com vozes como as de Johnny Cash ou Neil Diamond), Adam não olhou esteticamente para trás e encarou este como um disco que pudesse nascer depois de You Want It Darker. Chamou a estúdio uma série de colaboradores, que vão desde figuras determinantes da própria obra de Leonard (como Jennifer Warnes) a estetas capazes de assegurar a continuidade do seu legado como Beck (que recriou o seu álbum de estreia, de 1967,  no quadro do seu Record Club), Damien Rice, Silvia Perez Cruz, Avi Avital, Javier Mas ou os canadianos Daniel Lanois e Feist. De uma etapa inicial de tratamento das gravações numa garagem em casa do pai, o disco passou a uma segunda etapa em estúdios profissionais, capazes de lhe dar a dimensão desejada. E convenhamos que o conseguiu.

A voz é a de um homem que se despede e olha para a sua própria vida. Confessional e derrotado, assim se sentia. Mas nem por isso desanimado e desejoso de partir, agradecendo a dada altura aos comprimidos que o ajudaram a manter entre nós por mais algum tempo. Thanks For the Dance, mais do que o sombrio You Want It Darker, é um suave e tranquilo canto de despedida em perto de meia hora de música. Mas ambos os discos encerram uma história (e um tempo) em comum. São como um díptico onde os contrastes se completam e um ciclo se encerra. Obrigado pela dança… E quando a agulha chega ao fim da última faixa podemos imaginá-lo a levantar o chapéu e a afastar-se do palco naqueles passos de dança que quem viu nunca esquecerá.

“Thanks For The Dance”, de Leonard Cohen, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Sony Music.

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