A estreia dos W.H. Lung lembra-nos que nem toda a pop tem de soar a mais do mesmo

São um trio de Manchester e apresentam uma proposta pop que recupera o sentido de inquietude do pós-punk em “Incidental Music”. Texto: Nuno Galopim

Parece assinatura de escritor mas W.H. Lung é, na verdade, o nome de um cash & carry em Manchester. E é de lá que chega este trio que apresenta uma das mais cativantes estreias pop de 2019. E neste momento vai a malta que gosta da Ariana Grande a correr para escutar (porque referi a palavra “pop”) e acabará desapontada. Pop transformou-se – salvo raras exceções – num palavrão sensaborão na lógica todos iguais todos iguais… Pois a pop dos W.H. Lung recupera um sentido de angulosidade e vertigem que ajudou a encontrar novos caminhos para a canção depois da revolução punk. E há na verdade mais afinidades entre as canções dos W.H. Lung e os ecos da new wave (até mesmo na lista de referências que engloba nomes do kraut como os Neu! ou Cluster) do que com a relativamente pouco desafiante dose de ingredientes que a produção pop atual confere aos artistas com menos perfil de inqueietude e mais sede de sucesso.

Os W.H. Lung já têm uns dois anos de vida pública (o seu single de estreia data de 2017) mas também uma pré-história que os fez resolver ideias iniciais que os teriam levado a campeonatos de mais do mesmo. Eram um quarteto clássico de voz, guitarra, baixo e bateria. E quando perderam o baterista tomaram decisões semelhantes às de bandas que emergiram em finais dos anos 70: compraram máquinas. Primeiro para assegurar os ritmos, depois nelas descobrindo potencialidades que levaram o som indie de origem aos caminhos de uma pop angulosa pela qual acabaram por avançar.

E é algures entre descendências possíveis do krautrock e do pós-punk que, num quadro que não evita o presente, se afirma um disco que nos faz recordar que fazer pop é mais do que criar canções com ma afinidade a uma sonoridade padrão ou a conceitos de produção. A pop dos W.H. Lung é intensa, carregada de encantamento pela descoberta e assimilação de sintetizadores, mas firme também nas contribuições da guitarra e do baixo, lançando a voz (intensa) e as palavras (enigmáticas por vezes) mais marcas de identidade. As canções são longas, claramente moldadas por um sentido de prazer na repetição e na exploração dos sons. A produção é segura mas evita ser demasiado polida. Ficam as arestas evidentes e com elas uma certa inquietude que habita todo o disco.

Por um lado ocupam o espaço deixado pelo desaparecimento dos Wild Beasts (mais um caso de criadores de uma obra em solo indie pop). Por outro retomam linhagens de pioneiros (e podemos juntar aqui nomes da primeira geração da pop eletrónica) para acrescentar outras cores e caminhos possíveis à pop que se faz a caminho da terceira década do século XXI.

“Incidental Music”, dos W.H. Lung, está disponível em 2LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Melodic.

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