Foi assim que Prince escutou o mundo ao seu redor e encontrou uma visão para o futuro da sua música.

A reedição de “1999” leva-nos às entranhas da criação do disco que operou as maiores transformações e assimilações na obra de Prince. Quem diria que entre as melhores “novidades” de 2019 estariam estas novas formas de trabalhar a memória? Texto: Nuno Galopim

A condução dos destinos do material guardado no arquivo de Prince – o mítico The Vault – tem vindo a destapar tesouros que revelam não apenas os processos de trabalho de Prince como a sua invulgarmente intensa agenda de trabalho e criação. Depois de resolvidos os imbróglios legais que deram que falar depois da morte do artista, surgiram já dois álbuns de material inédito – Piano and a Microphone 1983 e Originals – e duas reedições que juntam aos discos originais memórias mais detalhadas sobre os tempos de criação de um álbum. A primeira destas reedições acompanhadas com extras (muitos deles até aqui desconhecidos) foi apontada a Purple Rain. Agora focamos atenções no episódio imediatamente anterior. Originalmente lançado em 1982, num formato de duplo LP, 1999 gerou os primeiros êxitos globais de Prince e representou o disco que preparou o caminho para que, dois anos depois, Purple Rain o elevasse a um patamar de estrelato internacional.

A história, tal como Andrea Svensson conta num dos textos que podemos ler no booklet que acompanha a caixa DeLuxe desta nova edição de 1999, pode começar a ser contada nas duas noites que Prince fez a primeira parte de concertos dos Rolling Stones em Los Angeles em outubro de 1981. O seu “novo” álbum era então Controversy, editado nesse mesmo mês. E toda a carga de ambiguidades que a música sugeria e a performance sublinhava gerou verdadeiros motins entre o público dos Stones… Não foi certamente como reação à incompreensão do público que Prince operou mudanças no seu rumo. Mas o desafio de conquistar quem não fora capaz de o compreender pode ter ajudado ao processo que o conduziu ao passo seguinte. Não de mudança e transformação. Mas de evolução, crescimento e assimilação.

Poucos anos antes Prince tinha dado primeiros passos em For You, um primeiro disco que traduzia essencialmente heranças clássicas da música negra. Entre Dirty Mind (1980) e Controversy (1981), terceiro e quarto álbuns, entrava em cena uma cada vez mais evidente presença de eletrónicas uma vertigem mais angulosa na produção. Da insatisfação de Prince perante o que viveu em palco durante a digressão que acompanhou o lançamento de Controversy tinha surgido uma vontade em renovar o grupo de músicos com quem poderia dar vida a novas canções. Estas, contudo, nasceram uma vez mais de um trabalho solitário feito durante meses a fio, entre a primavera e o verão de 1982, no estúdio que tinha montado na cave da sua casa, em Chanhassen, e no qual foi criando um corpo de peças que revelavam a progressão de ideias já lançadas entre os seus dois últimos álbuns. Uma das principais marcas distintivas das novas canções era a presença bem mais evidente de uma caixa de ritmos que, usada pontualmente no álbum de 1981, se tornava numa das vozes mais marcantes das estruturas de percussão, conferindo-lhes uma alma sintética, mas intensa, que vincava mais ainda o interesse pela exploração de novas máquinas. Gary Numan ou discos recentes de Frank Zappa estavam na sua mira de atenções… O mundo em transformação (da música ao clima social e político) estava a ser assimilado e ia refletir-se nas suas novas canções.

Ao mesmo tempo que ia trabalhando nas novas canções, manteve (embora alguns desentendimentos) um trabalho com os The Time e ajudou a formar um grupo feminino, a que chamaria Vanity 6. Foi, contudo, com o corpo de canções que tinha composto que teve uma primeira reunião com a editora, dela saindo apenas com uma observação que o fez pensar. Faltava, como em Dirty Mind e Controversy, uma canção que pudesse traduzir a alma de todo o disco, como se fosse o seu cartão de visita. Chegado a casa, e em apenas um dia, compôs e gravou o tema sugerido. Chamou-lhe 1999. E esse acabaria por ser também o título do álbum (e do primeiro single a dele ser extraído).

As novas canções eram mais extensas, revelando um domínio do tempo e uma capacidade de Prince em, uma vez lançado um groove, manter a pulsação da canção viva e ativa para lá das fronteiras mais “clássicas” da canção pop. As novas máquinas revelaram aí a resposta à demanda. Ao mesmo tempo, e apesar de uma ainda firme presença de heranças funk e r&b, os diálogos com as formas da pop e a presença mais clara de guitarras de escola rock sugeriam diálogos mais profundos com linguagens que poderiam levar esta música para lá do terreno no qual a obra de Prince conhecera os seus primeiros seguidores. E se 1999, o single, não foi na sua primeira expressão em single o êxito esperado, já Little Red Corvette, lançado na companhia de um teledisco eficaz, deu a Prince um êxito colossal que acabaria por elevar as vendas do álbum a um surpreendente patamar acima dos três milhões de unidades.

As vendas confirmavam assim a confiança que o músico pedira à editora quando sugerira que, com tantas e tão longas canções, 1999 deveria ser um álbum duplo, embora vendido ao preço de um LP simples. E iniciavam, sobretudo graças ao “confronto” entre Little Red Corvette e Beat It, lançados com poucas semanas de intervalo, uma “contenda” entre Prince e Michael Jackson que ajudaria também a construir a figura de dimensão global que o músico conquistaria entre 1999 e o sucessor Purple Rain.

Além destas duas canções, o álbum colocou em cena outros temas que ajudaram a reforçar um novo posicionamento de vistas ainda mais largas para a música de Prince. Delirious retomava o fulgor rockabilly feito de pop electrónica de Jack U Off. Let’s Pretend We’re Married explorava caminhos electro igualmente estimulantes e capazes de cativar atenções além dos universos primordiais das suas referências. E se D.M.S.R e Lady Cab Driver lembram que, mesmo em tempo de diálogos, o funk não abandonou a alma de Prince e International Lover e Free mantém acesa a sua relação com a balada de escola r&b (embora na segunda com um mais evidente subtexto rock), já nos extensos (e magníficos) Automatic e All The Critics Love U in New York reforça-se a busca de um espaço de exploração rítmica e instrumental mais metronómica e minimalista (e dominada pelos sintetizadores), que pode estar na base de alguns desenvolvimentos futuros. Notem como a remasterização valoriza precisamente a presença das eletrónicas e batidas. Um desejo de transcender formas e explorar o potencial cenográfico das novas máquinas revela-se ainda em Something in the Water (Does Not Compute).

As novas explorações no som e nas formas são acompanhadas por um aprofundar de temáticas já antes visitadas, de explorações do corpo e do desejo a uma celebração algo hedonista de um fim (quase) anunciado, refletindo o tema-título ecos de um medo de aniquilação nuclear que marcou o quotidiano de muitos de nós na alvorada dos oitentas.

A nova edição junta ao álbum original (com o som remasterizado) uma coleção completa de edits, versões máxi e lados B dos singles deste período. Há ainda duas gravações ao vivo. Uma, apenas em áudio, de um concerto em Detroit em novembro de 1982. A outra, em DVD, mostra o fulgor da presença em palco de Prince numa atuação em Houston, algumas semanas depois. As maiores surpresas revelam-se contudo nos dois discos sob o título Vault Tracks (respetivamente I e II). E aqui encontramos material gravado em estúdio em sessões dos tempos de criação de 1999. Há alguns takes alternativos (não muitos). Mas, sobretudo, canções que então ficaram pelo caminho. Umas eventualmente recuperadas mais tarde (como Irrisistible Bitch, que surgiria no lado B do single Partyman, sete anos depois, ou Bold Generation,  que seria a base de trabalho de New Power Generation, do álbum de 1990 Graffitti Bridge). Mas muitos dos inéditos que aqui se revelam correspondem a canções que desde então ficaram arquivadas. E aí há desde instrumentais que não chegaram a ter letra (como Coleen), temas que lançam explorações futuras. Canções que, como Yah, You Know e No Call U traduzem episódios de assimilação em curso, que mostravam como Prince estava a integrar as linguagens do rock e da canção pop na sua linguagem. Moonbeam Levels (revelada numa antologia editada em 2016) ajuda a alargar o retrato da construção de novas ideias e deixa-nos novamente a questionar porque não viu então a luz do dia. Mas se for preciso destacar o inédito que guarda em si o grito de “eureka!” que traduz a visão das mutações em curso, então há que escutar o incrível Purple Music. E basta ler o título para compreender que ali se guarda todo um programa que então ganharia forma (mesmo sem esta canção se tornar “visível”).

Ao quinto álbum Prince era não só um dos mais inventivos músicos do seu tempo como uma figura capaz de juntar uma pulsão criativa e todo um quadro de temas e sons menos canónicos a canções com enorme potencial de mercado. Com um novo álbum (e um filme) mais adiante, mas já na linha do horizonte, tornar-se-ia uma das estrelas maiores do firmamento pop de então. Esta reedição leva-nos às entranhas da criação do disco que operou as maiores transformações e assimilações na obra de Prince. E fixa, pelo modo como apresenta inéditos (em áudio e vídeo) e os acompanha com textos e imagens, um modelo de reedição que poderá continuar a dar bons frutos tanto em futuros exercícios de arqueologia nos arquivos de Prince como na construção de memórias semelhantes para outros artistas. Quem diria que entre as melhores “novidades” de 2019 estariam estas novas formas de trabalhar a memória?

“1999 (Super Deluxe Edition Box Set)” de Prince é uma caixa com 5 CD, um DVD e um booklet editada pela Warner.

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