O livro que conta a história da autobiografia que Prince queria escrever…

Um dos projetos que mais entusiasmava Prince nos seus últimos meses de vida era a criação de uma autobiografia. A morte impediu que o projeto fosse concluído. Mas “The Beautiful Ones” não só recolhe o trabalho feito como conta a história deste projeto e junta ainda mais memórias. Texto: Nuno Galopim

Um dos projetos que mais entusiasmava Prince nos seus últimos meses de vida era a criação de uma autobiografia. Não seria exatamente o “era uma vez” normativo, mas sim uma visão (certamente púrpura) do próprio sobre memórias da sua vida, cruzando por isso os espaços da reflexão para além do contar das histórias. Se em estúdio era autossuficiente, e em palco estava até a dar corpo a uma série de atuações despidas de mais gente ao seu redor, a arte da escrita narrativa era espaço que Prince sabia não dominar. E por isso, depois de ter escolhido que editora lançaria o livro, selecionou o parceiro de trabalho. E também aqui seguiu por caminhos menos óbvios, apontando o dedo a um autor jovem (na altura ainda não tinha 30 anos) e que era editor da Paris Review. Dan Pipenbring foi chamado a Paisley Park para um primeiro encontro (e nessa tarde foi o próprio Prince quem o levou de carro de volta ao hotel). Dan levou um pequeno ensaio para o futuro “biografado” ler (explicando porque deveria ser ele a fazer o livro). E, tendo apenas questionado o porquê de uma observação – a dada altura Dan escrevia que quando ouvia Prince “sentia que estava a infringir a lei” – o “artista” sentiu que a escolha estava feita. Trocaram palavras. Depois Prince deu a Dan alguns manuscritos para sobre eles trabalhar… Chegaram a viajar juntos. E falaram uma última vez quatro dias antes da notícia da morte de Prince, quando surgiram rumores sobre o seu estado de saúde. Prince nessa ocasião terá dito a Dan para estar tranquilo, apesar das notícias. Mas de facto poucos dias depois a notícia era outra. Mais grave e definitiva. E o livro ficava por se cumprir…

O livro que Prince queria escrever (com Dan Pipenbring) nunca existirá. Porque não foi escrito. Mas, usando o título que Prince imaginara para o volume – The Beautiful Ones – eis que surge um livro que conta a história dessa autobiografia que ficou por acabar. Mas que, de certa forma, cumpre algumas das visões que Prince chegara a debater com o autor.

Dividido em partes distintas, o volume começa por nos dar um detalhado relato do projeto que Prince idealizara, como conhecera o autor e a história do trabalho que conjuntamente foram desenvolvendo nos últimos meses de vida de Prince. E logo aqui há todo um quadro de olhares e memórias que nos transportam para espaços habitualmente menos visíveis no quotidiano de Prince. Os textos manuscritos que ele mesmo entregou ao autor são aqui reproduzidos (em fotografia) e depois transcritos… Aqui recuamos às suas memórias mais antigas. A mãe. O piano do pai. Os discos que tinha em casa. A puberdade. Os primeiros pensamentos sobre música… Ou seja, o que do livro sonhado foi feito está aqui.

Mas The Beautiful Ones junta a estas palavras mais documentação colhida nos arquivos pessoais de Prince. O mítico The Vault (outrora numa cave em Paisley Park, agora guardado em Los Angeles) não guardava apenas os registos em vídeo e áudio que temos vindo a descobrir em lançamentos que nos têm chegado a bom ritmo desde 2016. Havia ali também objetos pessoais, documentos… e fotografias. E é desse acervo de imagens que nascem outros capítulos que assim ajudam a compor uma ideia de história pessoal. Há uma vasta série de fotografias tiradas nos dias em que Prince gravou o seu álbum de estreia For You, em 1978 (entre elas a imagem que vemos na capa do livro). E depois mais fotografias e manuscritos (muitos deles com letras de canções) que visam sobretudo as etapas ligadas a Controversy, 1999 e Parade (incluindo um storyboard para o teledisco de Kiss)…

Este não é, naturalmente, o livro que Prince imaginara. O seu sonho era o de conseguir um texto longo e coerente… Mas ao menos as ideias que lançou e deixou incompletas podem ser agora partilhadas. E, além disso, fica claro que, do arquivo, poderá vir a nascer uma biografia visual mais completa e cronologicamente arrumada algures no futuro.

“The Beautiful Ones”, de Dan Pipenbring, é um volume de 288 páginas em capa dura lançado pela Century.

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