Dez álbuns de Natal

O surgimento do formato do LP, em 1948, gerou o aparecimento de coleções temáticas de canções e temas instrumentais. E entre os temas que mais vezes foram visitados estão as canções de Natal. Surgiu então uma tradição que ainda hoje conhece novos lançamentos. Aqui ficam dez álbuns clássicos de Natal. Seleção e textos: Nuno Galopim

Frank Sinatra, “A Jolly Christmas From Frank Sinatra”

(Capitol, 1957)

Frank Sinatra lançou vários discos de Natal, cada qual numa época diferente, para uma nova editora e com uma orientação musical igualmente… distinta. A Jolly Christmas From Frank Sinatra, lançado no mesmo ano do disco de Natal de Elvis Presley, procurava sugerir, discretamente, algo para lá do cânone mantendo, todavia, uma postura conservadora. Os arranjos e direção de orquestra cabem aqui a Gordon Jenkins e conta com as vozes do coro Ralph Brewster Singers.

Onze anos depois do mais tradicional Christmas Songs By Sinatra (lançado pela Columbia), o álbum de Natal que “a voz” lançava em 1957 começava por ser ousado no título. A sugestão de um Natal “divertido” (uma das leituras de “jolly”) era talvez inesperada, correspondendo algumas das canções do Lado A, nomeadamente Jingle Bells e Miseltoe and Holly, que o próprio Sinatra ajudou a escrever, traduzem sinais de alguma modernidade. O lado B, contudo, é claramente uma nova incursão por terrenos mais classicistas, feito de cânticos já com alma de standard. Em 1969 Sinatra voltaria a editar um álbum de Natal. The Sinatra Family Wish You a Merry Christmas, lançado pela Reprise, junta-o aos seus filhos Nancy, Frank Jr e Tina.

Elvis Presley, “Elvis’ Christmas Album”

(RCA, 1957)

Mesmo historicamente não sendo tão reconhecido como o seu LP de estreia (de 1956) ou o momento ímpar que foi o seu “comeback” televisivo de 1968, o disco de Natal de Elvis Presley lançado em 1957 representou um episódio marcante na sua discografia (até porque anos depois seria o seu primeiro galardão de diamante ao ultrapassar os dez milhões de discos vendidos).

A versão original de Elvis’ Christmas Album continha oito canções de Natal e quatro temas de gospel (estes previamente editados no EP Peace In The Valley, lançado pouco tempo antes). Apesar da abordagem mais canónica a Silent Night ou Little Town of Bethlehem foi nas frentes de maior ousadia que este disco afirmou o cunho pessoal de uma estrela de rock’n’roll. Santa Claus is Back In Town, escrita propositadamente pela dupla Leiber e Stoller para este disco abre o alinhamento com a clara afirmação de assinatura da música de Elvis por aqueles tempos. O mesmo acontece com a sua versão de Blue Christmas.

Mas curiosamente foi a leitura, com elementos do ambiente de estúdio, de White Christmas, que mais celeuma levantou, tendo o próprio Irving Berlin protestado contra a versão, chegando mesmo a haver telefonemas para pedir a estações de rádio que não passassem a canção. Ou seja, apesar do tom “pacífico” e hoje parecer quase coisa conservadora, o disco de Natal de Elvis incomodou muito boa gente em 1957…

Ella Fitzgerald, “Ella Wishes You a Swinging Christmas”

(Verve, 1960)

Ella Fitzgerald tinha lançado em 1959 um single com duas canções de Natal. Um ano depois The Christmas Song (o lado A desse single), de Mel Tormé e Bob Wells, surgia integrado no alinhamento de um álbum integralmente dedicado a esta quadra. Contando com a orquestra de Russ Garcia (que assinou os arranjos em conjunto com Frank DeVol, que dirigiu os músicos), e sob produção de Norman Granz, assim nasceu Ella Wishes You a Swinging Christmas.

O álbum é essencialmente constituído por abordagens a grandes standards não religiosos, como Santa Claus is Coming To Town, Sleigh Ride, Rudolph The Red Nosed Deer, Let it Snow, Let it Snow, Let it Snow ou Frosty The Snowman. Esta opção contrata com o alinhamento de cânticos sagrados que Ella Fitzgerald gravaria em 1967 em Ella Fitzgerald’s Christmas, um outro disco de Natal. O álbum conheceu várias reedições, algumas juntando temas adicionais, entre os quais The Secret of Christmas, o lado B do single natalício de 1959.

Vários Artistas, “A Christmas Gift For You From Phil Spector”

(Philes, 1963)

Lançado em 1963 este disco é muitas vezes apontado como o álbum de referência do espírito da quadra natalícia em regime pop. De facto A Christmas Gift For You From Phil Spector é uma obra-prima de primor nas formas, sob controle total de um Phil Spector, na época a viver alguns dos melhores episódios da sua vida como músico e produtor.

Com recurso ao inevitável wall of sound, a sua imagem áudio de marca, Phil Spector trabalhou uma série de abordagens diferentes a clássicos de Natal (como White Christmas, Frosty The Snowman ou Santa Claus Is Coming To Town), deles fazendo as pequenas sinfonias pop com que caracterizada o seu trabalho.

A seu lado contou com as colaborações de nomes como os de Darlene Love, The Ronettes, The Crystals e Bob B Soxx & The Blue Jeans, ou seja, a sua família habitual. Juntos fizeram deste álbum um dos acontecimentos maiores da recta final de 1963 e uma bitola pela qual, daí em diante, foram comparados todos os subsequentes álbuns natalícios.

O toque particular de Spector não falta também numa foto em que se veste de Pai Natal, que numa reedição em CD foi incluída no interior do booklet.

The Beach Boys “The Beach Boys Christmas Album”

(Capitol, 1964)

Hábito muito frequente nos anos 50, a ideia de fazer álbuns de Natal não conheceu tão expressiva oferta nos anos 60 junto da nova geração pop/rock. Mesmo assim alguns grupos mantiveram a tradição intacta, entre eles os Beach Boys que, em 1964, editaram o Beach Boys Christmas Album, no qual levam as canções de Natal ao encontro da sua solarenga linguagem californiana.

Lançado em novembro de 1964 o Beach Boys Christmas Album juntou cinco canções inéditas dos Beach Boys e leituras – bem marcadas pela sua personalidade – de sete standards da quadra natalícia. O trabalho foi partilhado entre Brian Wilson (que chamou a si as cinco canções inéditas) e Dick Reynolds (dos Four Freshmen) a quem foram entregues os arranjos dos standards. O tema Lillte Saint Nick (de Brian Wilson e Mick Love) que o grupo tinha editado no formato de single no Natal de 1963 foi incluído no alinhamento do álbum.

Vince Guaraldi Trio, “A Charlie Brown Christmas”

(Fantasy 1965)

Vince Guaraldi, pianista de jazz, tinha sido convocado em 1964 para criar música para um programa de televisão sobre o universo de personagens das tiras de BD Peanuts, criadas por Charles M. Schulz. Apesar da popularidade das tiras de BD o programa não interessou então a nenhuma estação de televisão e a música ficou perdida (por uns tempos). E quando em 1965 é lançada a ideia de um especial de Natal (novamente para televisão) com estas mesmas personagens, Guaraldi foi chamado de volta para compor uma banda sonora que, depois da transmissão do programa (em dezembro desse ano) seria editada em LP e gerando um dos álbuns de Natal mais populares de sempre, com vendas que superaram os quatro milhões de exemplares. A Charlie Brown Christmas é muitas vezes apontado como uma peça importante no processo de abertura do jazz a uma nova geração de jovens ouvintes em meados dos anos 60.

A Charlie Brown Christmas junta alguns inéditos de Guaraldi expressamente criados para estas personagens (entre os quais o magnífico Linus and Lucy), mas acrescenta abordagens, igualmente jazzísticas, a outras composições, sobretudo standards de Natal e também uma breve incursão pelo repertório “clássico”, piscando pontualmente o olho a Beethoven. O piano é o protagonista nestas gravações nas quais Guaraldi contou com várias contribuições, entre as quais as do baterista Jerri Granelli e do contrabaixista Fred Marshall. De resto o disco foi assinado como sendo uma criação do Vince Guaraldi Trio.

James Brown “A Soulful Christmas”

(King, 1968)

Entre 1966 e 1970 James Brown lançou três álbuns de Natal. Depois do mais canónico James Brown Sings Christmas Songs, de 1966, coube ao segundo álbum deste trio o desafio de levar este encontro para mais perto dos caminhos da soul e do emergente funk, assim como tematicamente aproximou a música da quadra dos espaços da América negra. Essas marcas de identidade são logo evidentes em Santa Claus Go Straight To The Ghetto, a canção que abre o alinhamento do álbum. É todavia com as duas partes de Say It Loud, I’m Black and I’m Proud, editado como single no verão de 1968 e incluído no alinhamento deste álbum, que faz de A Souful Christmas um disco de Natal diferente dos demais então lançados.

Dois anos depois de A Soulful Christmas James Brown editou um terceiro disco de Natal. E tal como o álbum de 1968 o sugerira, uma rota mais política e identitárias dominou a escolha das canções. Com o título Hey America! (que foi também a canção lançada como single de avanço do álbum), o disco foge à caracterização mais habitual quer no título quer na iconografia levada à capa ou até mesmo na abordagem musical que se escuta em Go Power at Christmas Time. Há várias compilações com temas destes três discos que, em conjunto, abriram novos caminhos possíveis para a canção de Natal.

Low “Christmas”

(Kranky, 1999)

Antes de uma mais regular criação de discos de Natal entre músicos das diversas famílias indie depois da viragem do século, houve uma série de discos que ajudaram a colocar estes reencontros no mapa das agendas de criação e edição na quadra natalícia. Se o disco de Natal que Mariah Carey lançou em 1994 mostrou que havia espaço de “mercado”, coube contudo a abordagens musicalmente mais desafiantes, como as que Kristin Hersh registou no seu Holy Single no ano seguinte ou no álbum  lançado em 1999 pelos Low o papel de abrir terreno para uma multidão de novos discos de Natal que chegaram logo depois por nomes como os de Sufjan Stevens, Bright Eyes ou os Raveonettes.

Editado no mesmo ano em que lançaram Secret Name, o álbum de Natal ao qual os Low chamaram simplesmente Christmas é uma das mais belas coleções de canções dedicadas a esta quadra entre os que surgiram na reta final do século. O disco junta abordagens a standards como Silent Night, Little Drummer Boy ou o Blue Christmas celebrizado por Elvis Presley, juntando depois quatro originais. Em todas as canções, gravadas no estúdio da banda em Duluth é claramente valorizado o jogo a duas vozes de Alan Sparhawk e Mimi Parker. O disco, que começou por ser um pequeno mimo para fãs com lançamento original apenas em CD, tornou-se peça de culto e teve edição em vinil em 2016, mostrando a capa (cinzenta) uma cor diferente da original.

Sufjan Stevens, “Songs For Christmas”

(Asthmatic Kitty, 2006)

Depois de algum refreamento de edições na segunda metade dos anos 80 e durante os 90s, o gosto em gravar discos de Natal ressurgiu com a aproximação do novo milénio, colocando em cena igualmente um novo universo de músicos ao revelar-se espaço visitado por bandas e artistas nas esferas do som pop/rock mais alternativo.

E um dos primeiros grandes valores da geração indie da década dos zeros a chamar atenções para a redescoberta deste gosto em gravar canções de Natal foi Sufjan Stevens, que edita regularmente, desde 2001, EPs anuais nos quais junta novas leituras de standards de Natal a inéditos que cria expressamente para a quadra. Em 2006 reuniu alguns desses EPs na caixa Songs For Christmas, um clássico contemporâneo do género.

Esta caixa juntou então cinco EPs distintos, gravados entre 2001 e 2006. São eles Noel: Songs For Christmas (de 2001), Hark!: Songs For Christmas (2002), Ding! Dong!: Songs For Christmas (2003), Joy: Songs For Christmas (2005) e Peace: Songs For Christmas (2006). A caixa com os cinco CDs incluía ainda, além da música, textos explicativos, as letras das canções, autocolantes e as tablaturas para guitarra de todos os temas.

Bob Dylan, “Christmas In the Heart”

(Columbia, 2009)

Um disco de canções de Natal de Bob Dylan? Com os mesmos clássicos da “estação” que em tempos escutámos em vozes como as de um Frank Sinatra, um Elvis Presley ou um Bing Crosby? Little Drummer Boy, Winter Wonderland, Have Yourself A Marry Little Christmas… Sim, esses mesmos. Os standards da quadra são o ingrediente central de Christmas In The Heart, disco onde Dylan entrega a sua voz (e a presença dos seus músicos) a canções que, assim, passam a contar consigo na sua já longa história.

Não há surpresas, não há sobressaltos. Talvez um pouco mais de tempero bluesey, por exemplo, ao som de The Christmas Blues… Mas na essência apenas o reencontrar de velhas tradições, aceitando-as como tal. E de facto são simples e diretas as versões, assim como é clara uma interpretação que por vezes pisca o olho aos grandes crooners (a voz não é contudo a mesma, de facto) que antes deram já forma a estes mesmos momentos.

Resta acrescentar que, com o disco, servem-se cartões de boas festas e uma mensagem de solidariedade (uma vez que este foi um disco cujos fundos recolhidos reverteram para campanhas de beneficência).  – N.G.

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