Breves notas sobre a consagração de Conan Osiris no Coliseu

Ele foi a figura nacional do ano no plano musical. E na hora do primeiro Coliseu chamou uma série de colaboradores para partilhar uma aventura feita de desafios. E que terminou com uma casa inteira a confirmar: a consagração aconteceu. Texto e foto: Nuno Galopim

Pode não ser a maior sala nacional, mas o Coliseu é de todas a que representa a ideia de consagração. Chegar ao Coliseu traduz o atingir de um patamar. E em tempo de fechar um primeiro ciclo, que espelha igualmente em si um fulgurante trajeto até à linha da frente das atenções do panorama cultural português contemporâneo, Conan Osiris rumou ao Coliseu com esse desafio em mãos. Porque não basta agendar a sala para garantir a consagração há que encarar a primeira passagem por esta sala como um episódio capaz de inscrever na história de um músico um momento que possa ser capaz de resistir à erosão do tempo. Tornar-se inesquecível. E através do alinhamento, da visão performativa, do guarda roupa (e poucas vezes entre nós vemos tão intensa noção de que este é um ponto importante), das colaborações, do facto de estar a ser filmado para posterior transmissão televisiva (na RTP) e de um público que mostrou ser muito mais do que a tradução de uma adesão de culto, Conan Osíris conquistou de facto a noite. Foi incrível. E será inesquecível.

Havia neste concerto a vontade de encerrar um ciclo. Um arco narrativo que se foi contando através dos discos Silk, Música Normal e o brilhante Adoro Bolos, títulos até aqui apenas com edição digital e que, ontem, chegaram finalmente a suporte físico numa caixa de três CD que foi lançada logo após o final do concerto.

Esse fim de ciclo fez-se num alinhamento sobretudo focado nesses três discos, em alguns casos em abordagens que tiraram partido das colaborações de um quarteto de cordas, um tocador de ehru (instrumento tradicional chinês), um flautista ou dos Pauliteiros de Miranda (e a gaita de foles escutou-se mais do que uma vez). Os jogos de cruzamentos de linguagens, experiências e referências, que habitam naturalmente a música de Conan Osiris (gerando empolgantes encruzilhadas nas quais sabe bem mergulhar) e traduzem a expressão individual de uma relação com vivências tanto locais como globais, ganharam assim uma expressão com outros corpos, tendo ainda o palco do Coliseu, instalado no centro da arena, amplificado essa mesma relação através da participação pontual do fulgor de um Scúru Fitchádu ou das mais recorrentes coreografias com seis bailarinos que se juntaram a Conan e a João Reis Moreira. A cada canção um quadro novo se desenhava, desafiando até mesmo os limites naturais do palco. E assim, a olhar para além dos limites, Conan assumiu o desafio da aventura. E venceu.

Telemóveis, que de certa forma representa uma síntese de ideias exploradas na fase que os três discos acima referidos definiram, surgiu em dois momentos. Primeiro numa abordagem inesperada para voz e quarteto de cordas. Depois, já no encore, na leitura mais “canónica” que confirmou que esta canção já está definitivamente inscrita na nossa memória coletiva. Foi, de facto, um dos “casos” de 2019. E tem um lugar já conquistado em qualquer ‘best of’ que alguma vez venha a ser pensado como retrato dos anos “dez” da música portuguesa.

A música de Conan Osiris integra, com justificada e merecida distinção e louvor, uma família de artistas que está a saber traduzir o que somos culturalmente neste tempo e neste lugar. Cientes do que aqui nos trouxe mas também da capacidade de dialogar e assimilar que a era da comunicação global promove. A sua identidade é a de uma esponja atenta a estímulos que assimila e integra. Aqui e ali sentem-se por vezes as origens, mas a marca autoral fala depois mais alto.

Os passos seguintes ao ciclo que ali se encerrou – e que teve em Telemóveis o seu elemento de síntese e transição – começaram a ganhar forma também nesta noite no Coliseu através da estreia de uma nova canção que nasce de uma colaboração com Ana Moura e Branko. Os três, juntos, abriram, quase no final do alinhamento, as portas ao que Conan Osiris pode ter pela frente… E a coisa promete.

Ele foi a figura nacional do ano no plano musical. A emoção comungada ao som de Amália e a festa libertada por Celulitite ou a segunda entrada em cena de Telemóveis confirmou o que se estava a sentir. A consagração aconteceu.

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