Os melhores discos de 2019 – Internacional (Nuno Galopim)

Chegou a hora de começar a publicar as listas dos discos do ano. Nascido em finais de agosto, o GIRA-DISCOS acolhe assim, pela primeira vez, um verdadeiro “festival” de listas… Texto: Nuno Galopim

Weyes Blood

Vão surgir ao longo da semana, começando hoje pela produção internacional – álbuns de música popular, jazz, clássica/experimental e canções do ano – e continua amanhã com a produção local, quarta-feira com as reedições e lançamentos de arquivo, seguindo-se na quinta os filmes e edições em home vídeo e na sexta os livros… As escolhas são todas pessoais. Mas, como sempre, partilháveis.

MÚSICA POPULAR

Entre muitos acontecimentos o ano de 2019 assinalou a definitiva consagração de Weyes Blood como figura de primeira linha no plano pop/rock internacional. Titanic Rising, que figura destacado em várias listas de grandes publicações internacionais, é um disco que parte do caminho que Natalie Laura Merling (o seu nome real) vinha a desenvolver, não apenas em busca de uma expressão sua de uma linguagem de cantautora no mais clássico sentido da expressão, como igualmente numa demanda temática que coloca uma preocupação (que todos deveríamos partilhar) pela defesa deste nosso espaço comum: a Terra. O nome de Joni Mitchell foi por diversas vezes referido como uma referência para Weyes Blood. Convenhamos que melhor não poderia pedir a quem a escuta, mostrando as canções de Titanic Rising marcas já bem evidentes de uma demarcada pulsão autoral tanto na escrita das palavras como na composição. E estas marcas de identidade passam, por exemplo, por várias heranças vivenciais, uma delas a música religiosa (que passou pela sua formação) e que hoje se manifesta na capacidade em criar pequenos hinos a cada nova canção. Os arranjos são elaborados (mas não intrusivos) e traduzem um gosto por terrenos habitualmente designados por “chamber pop”… Titanic Rising destacou-se num ano cheio de grandes discos, entre os quais o mais íntimo (e supreendente) depoimento de Nick Cave, uma visão pop mais acessível segundo Jenny Hval, o reencontro de Madonna com um sentido de maior ousadia em Madame X ou evidentes sinais de presença de um novo (e importante) discurso identitário no hip hop como se escuta, por exemplo, do notável Igor, de Tyle, The Creator.

A lista que se segue junta 20 álbuns que guardo como episódios através dos quais vou fixar as histórias de 2019. Há uma presença de exploradores de universos da música eletrónica como FKA Twigs ou James Blake e de visões de dimensão mais cénica via Cinematic Orchestra. Não falta o disco que assegura que os Vampire Weekend são peça a ter em conta na história dos próximos anos. Há pop com travo clássico (mas também anguloso) com os WH Lung e Methyl Ethel. Há belas novas propostas de cantautores veteranos: Beck, Iggy Pop, Robert Forster, Bruce Springsteen ou Leonard Cohen (em registo póstumo que não se aplica a uma lógica de “arquivo”). Já podemos chamar veterano a Panda Bear?… Atenção ainda ao discurso em tempo de afirmação de Caroline Polacheck, Billie Eilish e Jamilla Woods… Pois é, ficam muitos discos de fora… Por isso nada como cada um juntar depois a sua lista. Porque a partilha do gosto pela música vive da soma e não da exclusão.

1 Weyes Blood “Titanic Rising”

2 Nick Cave & The Bad Seeds “Ghosteen”

3 Jenny Hval “The Practice Of Love”

4 Madonna “Madame X”

5 Tyler The Creator “Igor”

6 FKA Twigs “Magdalene”

7 James Blake “Assume Form”

8 Vampire Weekend “Father Of The Bride”

9 Cinematic Orchestra “To Believe”

10 WH Lung “Incidental Music”

11 Methyl Ethel “Triage”

12 Beck “Hyperspace”

13 Iggy Pop “Free”

14 Caroline Polacheck “Pang”

15 Robert Forster “Inferno”

16 Leonard Cohen “Thanks For The Dance”

17 Bruce Springsteen “Western Stars”

18 Panda Bear “Buoys”

19 Billie Eilish “When We All Fall”

20 Jamila Woods “Legacy! Legacy!”

CANÇÃO

Não é fácil resumir um ano numa mão cheia de canções… Esta lista de dez escolhas é uma amostra possível de canções que marcaram o ano. E, curiosamente, a que fica em primeiro lugar nem é uma canção… É um tema instrumental. E para saberem do contexto nada como espreitar, mais abaixo, o que ali escrevo sobre o trio The Comet is Coming e o disco Trust in the Lifeforce of the Deep Mistery que escolhi como o melhor álbum de jazz de 2019. Neste disco o trio londrino ensaia caminhos novos para o jazz com afinidade com heranças de visões progressivas que podem passar por referências a uns King Crimson ou Mahavishnu Orchestra. Mas há ali, por vezes, uma intensidade próxima do prazer noturno da dança, como se escuta em Summon the Fire, o tema que aqui surge destacado numa lista que inclui ainda, no top 3, o incrível diálogo entre os universos do hip hop e os da música country em Old Town Road de Lil Nas X (uma das figuras do ano), aqui em colaboração com o veterano Billy Ray Cyrus, e ainda Batuka, tema do álbum Madame X de Madonna no qual ecos da cultura de Cabo Verde são escutados e assimilados numa das melhores (e mais desafiantes) canções da obra da cantora.

1 The Comet is Coming “Summon The Fire”

2 Lil Nas X ft. Billy Ray Cyrus “Old Town Road”

3 Madonna “Batuka”

4 Weyes Blood “Movies”

5 Billie Eilish “Bad Guy”

6 Hatari “Hatrið mun sigra”

7 Michael Kiwanuka “Rolling”

8 James Blake ft. Rosalia “Barefoot in the Park”

9 Jenny Hval ft. Laura Jean “Accident”

10 Mahmood “Soldi”

Jazz

Há qualquer coisa a acontecer entre uma nova geração de músicos de jazz que fazem com que nem todas as notícias sobre o Reino Unido falem dos possíveis cenários para o Brexit. Crescidos numa cultura que tem naturalmente no quotidiano vivências do grime, da música eletrónica e outros caminhos igualmente estimulantes que a cultura urbana britânica tem experimentado, os músicos que estão a cativar justificadas atenções estão assim a promover encontros naturais do mundo ao seu redor com evidente gosto por encontrar caminhos possíveis para novas expressões do jazz num território que lhes é genética e culturalmente natural. São nomes como os Sons of Kemet, Nubia Garcia ou Theon Cross, entre outros mais e alguns deles vão ter o seu nome claramente inscrito nas listas dos acontecimentos de 2019. Um deles é o do projeto The Comet is Coming, um trio que inclui na sua formação o saxofonista Shabaka Hutchings, que encontramos também em projetos como Shabaka and the Ancestors e Sons of Kemet. Natural de Birmingham mas com ascendência que leva a sua história de família a Barbados, começou a tocar bem jovem, cedo encontrando uma certa inquietude ao tentar enquadrar-se no meio jazzístico. Era o que queria, mas não bem o que queria. Como ele mesmo já explicou em entrevistas, procurava não apenas a criação de uma música complexa mas igualmente a possibilidade de a cruzar com outras ideias, bem mais simples… O interesse natural de Shabaka pelos universos da ficção científica e a curiosidade pelo cosmos (e as culturas “cósmicas”) moldaram uma ideia que cedo levantou sem surpresas sinais de afinidade pelo legado do visionário Sun Ra. Além destas ligações de genética e gosto cósmico, o percurso do trio The Comet is Coming tem valorizado sobretudo uma expressão identitária do que pode ser o jazz para músicos britânicos neste final de segunda década do século XXI. Trust in the Lifeforce of the Deep Mistery, um dos dois discos que editaram este ano, cimentou ideias e mostrou como aquele corpo de sons ganhou ainda mais carne e vida. 

1 The Comet Is Coming “Trust in the Lifeforce of The Deep Mistery”

2 Sarathy Korvar “More Arriving”

3 Nérija “Blube”

4 Nubian Twist “Jungle Run”

5 Ezra Collective “You Can’t Steal My Joy”

Clássica / Experimental

A ideia de desafiar as coordenadas do tempo, criando uma música que esbate as distâncias entre épocas para sugerir um presente que nasce da soma de fragmentos do que antes fomos com técnicas ou marcas dos nossos tempos tem habitado alguns dos discos mais cativantes e desafiantes dos últimos anos naquele espaço que existe para além das fronteiras que outrora separavam os grandes géneros musicais. As “Versailles Sessions” do mexicano Murcof sugeriram encontros entre novas eletrónicas e ecos das músicas de Lully e outras figuras dos tempos em que a corte de Luís XIV se mudou para o palácio que foi símbolo do ancien regime. Em “Being Dufay” o compositor Ambrose Field juntava um trabalho exploratório à voz de John Potter para recontextualizar ecos da música de Guillaume Dufay, um dos maiores compositores da Europa medieval. Agora chegou a vez de encontrarmos outro desafio no mesmo comprimento de onda. O protagonista é um compositor alemão, nascido ainda nos tempos da Alemanha dividida, no lado da RDA. Fez a sua formação entre o seu país, os EUA e a Coreia do Sul. E em 2019 apresentou em Distant Song um conjunto de peças vocais que exploram o mesmo sentido de desafio ao tempo, juntando porém um outro elemento determinante na demarcação do presente: um olhar político sobre um mundo em estado de inquietude neste início de século em que vivemos.

1 Reiko Füting “Distant Song”

2 Matmos “Plastic Anniversary”

3 John Adams / Kent Nagano “The John Adams Album”

4 Philip Glass “The Fall of The House Of Usher”

5 Jenna Sutella “Nimiia Vibié”

O CONCERTO

É verdade que o GIRA-DISCOS vive essencialmente de histórias de música fixadas em discos (nos mais variados suportes). Mas das memórias de um ano vivido entre muita música ficam também os episódios de palco. E a fechar esta primeira série de listas – dedicada a várias frentes da produção internacional – nada como lembrar aquele que guardo como o mais marcante dos episódios que vivi este ano frente a um palco. Aconteceu em pleno NOS Alive, no meio de uma multidão que certamente partilhará memórias semelhantes… Porque ninguém ficou indiferente. Falo do regresso a palcos portugueses de Grace Jones, num alinhamento ‘best of’ que mostrou não apenas quão rica em grandes canções é a sua discografia como deixou claro que o seu domínio do corpo e das artes do palco dela faz um ícone maior do nosso tempo. Já tinha atuado entre nós, embora em pequenos espaços de clubes. Tardou mas aconteceu uma atuação num palco maior. Agora falta um reencontro numa sala com o seu nome nos cartazes.

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