Os melhores discos de 2019 – Nacional (Nuno Galopim)

Estamos, ao longo desta semana, a publicar as listas dos discos do ano. Começámos ontem com a produção internacional e hoje é a vez de olharmos para a local. Amanhã falaremos das reedições e lançamentos de arquivo, seguindo-se na quinta os filmes e edições em home vídeo e na sexta os livros… Texto: Nuno Galopim

ÁLBUM NACIONAL

A espera foi longa. Mas não necessariamente fruto de uma ausência. Depois de uma sucessão de discos marcantes na década de 80, que a inscreveram como voz de referência na história pop/rock portuguesa, Lena d’Água dedicou os seus títulos seguintes à canção infantil, ao registo de um espetáculo de memórias partilhadas com Rita Guerra e Helena Vieira e ainda dois momentos de revisitação (através de outras linguagens, do jazz ao rock) das suas canções. Para criar originais, ela mesma reconhecia que faltava a escrita de alguém que, como acontecera com Luís Pedro Fonseca, fosse capaz de criar momentos que a sua voz pudesse vestir que nem uma luva. E de uma sucessão de encontros acabaria por surgir o caminho que a levou a Desalmadamente.

Tudo começou com um desafio lançado pelos They’re Heading West. Depois a descoberta de afinidades (e novo desafio) com Benjamim… E o primeiro episódio em conjunto fez-se quando Pedro da Silva Martins convidou Lena d’Água para cantar Nunca Me Fui Embora no Festival da Canção em 2017, tendo subido então ao palco os músicos que tinham protagonizados essas outras duas parcerias recentes com a cantora. Estavam lançados os dados. E com novas canções de Pedro da Silva Martins este mesmo coletivo, agora feito família, foi criando aos poucos um novo cancioneiro para a voz de Lena d’Água. Com a Grande Festa como cartão de visita o álbum Desalmadamente deu razão às ideias em jogo. As canções foram pensadas para quem as cantou. Tanto que parecem carregar naturalmente toda uma alma autobiográfica. E de um encontro de afinidades e afetos nasceu assim um disco que deu a Lena d’Água um regresso em grande. Um regresso como poucas vezes acontece a veteranos numa cultura (e sociedade) que valoriza sobretudo o novo e o fulgor da ideia de juventude.

A história discográfica nacional de 2019 inclui uma série de outros títulos inesquecíveis. Entre eles um álbum de Branko que acrescenta novas dimensões e visões ao que antes tinha já mostrado no magnífico Atlas (claramente um dos discos da década por estes lados). A este lote há que juntar a confirmação plena da visão de contemporaneidade que continua construir a obra de Slow J ou o “salto” em várias frentes que Salvador Sobral deu no segundo álbum de estúdio que editou em seu nome. Um EP de Surma completa o top 5 de uma lista de dez discos onde encontramos ainda dois magníficos exemplos da música eletrónica que nasce entre nós (Sensible Soccers e Photonz), novos títulos dos sempre inquietos (e que bom que assim são) Mão Morta e de Emmy Curl e o retrato de um encontro feliz entre o piano de Mário Laginha e a voz de Camané.

1 Lena d’Água “Desalmadamente”

2 Branko “Nosso”

3 Slow J “You Are Forgiven”

4 Salvador Sobral “Paris, Lisboa”

5 Surma “Surma EP”

6 Sensible Soccers “Aurora”

7 Photonz “Nuit”

8 Mão Morta “No Fim Era o Frio”

9 Emmy Curl “OPorto”

10 Mário Laginha + Camané “Aqui Está-se Sossegado”

CANÇÃO

Basta estar atento aos balanços (e falo de números) das canções mais escutadas e visualizadas nas plataformas digitais de áudio e vídeo para concluir que o hip hop é hoje um espaço de grande protagonismo no universo da música popular que se faz entre nós. Não apenas há o volume de “consumo” (que atesta a dimensão do auditório) como a vastidão de títulos que fazem deste universo um dos mais representativos da atual produção musical entre nós. É certo que não são estes factos que condicionem o meu gosto. Mas curiosamente acabam sublinhados na escolha que faço daquela que me pareceu ser a melhor e mais marcante das canções que escutei este ano entre nós. Uma canção que, por um lado traduz um regresso a novas gravações de Capicua (com novo disco em 2020), como junta ainda uma ponte – que é de continuar a atravessar – entre o hip hop português e o que se faz atualmente no Brasil, aqui representado por Karol Concká. Se a isto (e à composição) juntarmos palavras que traduzem uma expressão inteligente de uma temática identitária, então Madrepérola não precisa de mais explicações. Agora é ouvir…

O lote de canções que aqui destaco inclui ainda, no topo, o hino em que se transformou Telemóveis de Conan Osíris, mais uma manifestação de excelência no diálogo entre a canção e a pista de dança por Moullinex, a já referida Grande Festa de Lena d’Água e Pugna, uma canção que Surma deveria não esquecer tanto ao vivo como até em discos em seu nome (porque abriu espantosos caminhos de exploração da língua portuguesa num espaço estético em que há muito terreno para experimentar). Nomes já consagrados (Branko, Salvador Sobral, Xinobi, Gisela João, Mirror People e Da Chick) e uma voz autoral nova a seguir com atenção (Fábia Maia) completam esta lista.

1 Capicua + Karol Concká “Madrepérola”

2 Conan Osiris “Telemóveis”

3 Moullinex ft. Diron Animal “Yelele”

4 Lena d’Água “A Grande Festa”

5 Surma “Pugna”

6 Branko + Pierre Kwenders “Amours d’Eté”

7 Salvador Sobral “Anda Estragar-me os Planos”

8 Xinobi + Gisela João “Fado Para Esta Noite”

9 Fábia Maia “A Vibe Certa”

10 Mirror People + Da Chick “Drinks Promise Better”

O CONCERTO

Pode não ser a maior sala nacional, mas o Coliseu é de todas a que representa a ideia de consagração. Chegar ao Coliseu traduz o atingir de um patamar. E em tempo de fechar um primeiro ciclo, que espelha igualmente em si um fulgurante trajeto até à linha da frente das atenções do panorama cultural português contemporâneo, Conan Osiris rumou ao Coliseu com esse desafio em mãos. Porque não basta agendar a sala para garantir a consagração há que encarar a primeira passagem por esta sala como um episódio capaz de inscrever na história de um músico um momento que possa ser capaz de resistir à erosão do tempo. Tornar-se inesquecível. E através do alinhamento, da visão performativa, do guarda roupa (e poucas vezes entre nós vemos tão intensa noção de que este é um ponto importante), das colaborações, do facto de estar a ser filmado para posterior transmissão televisiva (na RTP) e de um público que mostrou ser muito mais do que a tradução de uma adesão de culto, Conan Osíris conquistou de facto a noite. Foi incrível. E será inesquecível.

4 pensamentos

  1. Nuno, no teu top faltam, na minha opinião, alguns nomes incontornáveis da música cantada em português, mais independente, os Capitão Fausto, Luís Severo e Joana Espadinha, com excelentes álbuns e canções que deveriam sem dúvida estar o teu top, que obviamente é a tua opinião e que vale como tal.

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    1. Não faltam no meu top. Estão possivelmente no teu. É essa a essência das listas individuais. Cada uma traduz quem a faz e não o gosto dos outros. Daí ser bom que haja várias listas. Nenhuma é científica. Todas traduzem gostos. Manda daí a tua 🙂 Pode entrar aqui em comentário. É destas somas e partilhas que nascem depois melhores e mais completos retratos da música que se escutou em mais um ano que passou.

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  2. Independentemente da legitima opinião de cada um e o respeito que merece, parece-me que ‘Bairro da Ponte” de Stereossauro é um disco que marcou a música portuguesa em 2019 pela forma como consubstancia a tradição com a modernidade e abre uma porta para o futuro. Por isso e não só é o meu disco do ano.

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