Os melhores discos de 2019 – Arquivo e Reedições (Nuno Galopim)

Entre lançamentos que recuperam material de arquivo (muitas vezes inédito) e reedições (que em várias ocasiões juntam gravações nunca antes levadas a disco) o ano de 2019 respirou bem nos circuitos discográficos da memória. Texto: Nuno Galopim

ARQUIVO

Muito se falou sempre dos arquivos de Prince. O mítico “cofre forte” do qual, de facto, já começámos a ouvir tesouros até aqui escondidos. Mas, mesmo não sendo certamente tão recheado de inéditos à espera de discos inesperados, a verdade é que os arquivos de David Bowie nos têm dado a conhecer, desde o seu desaparecimento, todo um catálogo de novas edições. Muitas delas têm surgido no quadro das caixas que têm vindo a ser lançadas com uma regularidade impressionante e que, até aqui, revisitaram já o período entre 1969 e 1988. Em 2018 uma edição em máxi-single deu a ouvir uma primeira maquete de Let’s Dance. E, agora, uma outra incursão por gravações de ‘demos’, gravações de sessões na rádio, remasterização de gravações e uma mistura alternativa para o álbum de 1969 acrescenta mais um momento revelador sobre a história da demanda de Bowie por caminhos para si mesmo e ajuda a compreender o seu processo criativo. Tem por título Conversation Piece e é uma edição exclusivamente disponível em livro e CD na forma de uma caixa com cinco discos sobretudo cheios de maquetes, gravações caseiras e sessões de rádio que nos ajudam a compreender como Bowie partiu de um primeiro álbum “falhado” (no reconhecimento popular, entenda-se) e caminhou rumo a Space Oddity.

Além deste corpo de gravações históricas – que ao longo deste ano foram surgindo em edições em vinil – a caixa / livro Conversation Piece junta uma coleção remasterizada dos temas então editados em disco (singles e LP), incluindo aqui a versão italiana Ragazzo Solo Ragazza Sola e um álbum extra que revela uma nova mistura, feita meio século depois, do álbum de 1969, assinada por Tony Visconti. Contra a semana de estúdio que lhe fora dada em 1969, agora Tony Visconti teve tempo para valorizar os detalhes da gravação. E um dos exemplos desse novo labor mais cuidado surge num aproveitamento mais cuidado da orquestra em Wide Eyed Boy From Free Cloud (que por acaso era a canção do disco de que Bowie mais gostava). Outra das novidades desta nova versão do álbum é o facto de integrar Conversation Piece, que na altura não “coube” na face B por falta de capacidade do corte de vinil em registar mais do que 20 minutos de música em cada lado do disco.

O livro que acompanha esta edição junta não apenas textos sobre todas as canções e uma narrativa sobre este período, como acrescenta ainda fotografias e documentos da época que acrescentam dados e olhares a esta história. E assim se conta (e bem) a história de um ano na vida de David Bowie.

Este é o título que destaco após um ano cheio de boas surpresas discográficas nos domínios da memória. E que passam ainda por um dos melhores volumes da Bootleg Series de Bob Dylan, uma caixa que olha a fundo (e transforma) a obra tardia dos Pink Floyd e ainda novas edições com material até aqui inédito de Patrick Cowley, John Coltrane ou Arthur Russell. Um retrato da música ambiente japonesa dos anos 80, uma reunião de sessões na BBC feitas pelos Echo & The Bunnymen para o programa de John Peel, as maquetes de um álbum histórico de Gary Numan e uma segunda caixa antológica dos Go-Betweens encerram este lote de grandes edições.

1 David Bowie “Conversation Piece”

2 Bob Dylan ft. Johnny Cash “Travelin’ Thru – The Bootleg Series Vol 15 – 1967-1969”

3 Pink Floyd “The Later Years”

4 Patrick Cowley “Mechanical Fantasy Box”

5 John Coltrane “Blue World”

6 Vários “Kankyo Ongaku – Japanese Ambient, Environmental & New Age Music 1980-1990”

7 Arthur Russell “Iowa Dream”

8 Echo & The Bunnymen “The John Peel Sessions 1979-1983”

9 Gary Numan “Replicas – The First Recordings”

10 The Go-Betweens “G Stands For Go-Betweens – The Go Betweens Anthologu Vol. 2”

REEDIÕES

Editado em novembro de 1981 o álbum “Movement” traduziu um tempo de transição entre a história (recentemente) interrompida dos Joy Division e o achar de um caminho para o futuro dos New Order. No mesmo ano em que se assinalam os 40 anos de “Unknown Pleasures”, o álbum de estreia dos Joy Division surgiu nas lojas uma edição “especial” de “Movement” que, espero, represente o início de uma arrumação progressiva de memórias dos New Order segundo o modelo que aqui se revela.

A edição – que faz jus ao rótulo DeLuxe – inclui numa caixa não apenas uma reprodução do álbum original em vinil (bela prensagem, bom som, artwork bem reproduzido) como junta depois dois CD, um DVD e um livro com conteúdos adicionais. Um dos CD representa uma versão literal do álbum. O outro junta conteúdos áudio inéditos que incluem duas sessões de gravações de maquetes (uma de setembro de 1980, a outra de janeiro de 1981), gravações de ensaios em estúdio (igualmente de 1980 e 1981), uma primeira mistura de “Ceremony” (o single de estreia como New Order) e uma versão alternativa de “Temptation”.

Já o DVD traz gravações ao vivo – que não evitam as “marcas” do vídeo de então de atuações em Nova Iorque em 1980 e 1981, sessões gravadas nos estúdios da Granada TV em 1981 e na BBC em 1982 e ainda uma série de excertos de atuações ao vivo registadas entre 1981 e 1983 em palcos de Manchester, Paris, Toronto, Newcastle, Norwich e Minneapolis.

Estes complementos de arquivo acrescentam imagens e sons ao relato que encontramos no livro, num texto de John McCready onde se contextualiza este álbum tanto na história da música popular como no próprio relato de vida de uma banda que então vivia, mais do que um renascimento, uma transformação. As imagens – desde fotos da banda, dos instrumentos, de bobinas e de documentos da época – completam o quadro de memórias.

Esta forma exaustiva de fixar numa reedição o âmago de uma etapa na vida de uma banda (ou artista) gerou outra das grandes edições do ano: a que nos deu a escutar inéditos dos tempos de 1999, de Prince. Entre as grandes reedições de 2019 está ainda uma caixa que abre novos olhares sobre a criação de Abbey Road dos Beatles e uma versão, com temas inéditos de um disco marcante de Brian Eno nos anos 80. A recuperação de um LP de culto lançado pelo fotógrafo Steve Hiett, a (re)descoberta da música de Fernando Falcão, a primeira edição em vinil do álbum instrumental que David Sylvian lançou em 1985 e uma nova edição, agora assinada pelos Prefab Sprout, de um álbum a solo de Paddy MacAloon, integram uma lista que destaca ainda o reencontro (em vinil) com discos dos Magnetic Fields e de Caetano Veloso.

1 New Order “Movement – Definitive Edition”

2 Prince “1999 (Super Deluxe Edition Box Set)”

3 Beatles “Abbey Road – DeLuxe Edition”

4 Steve Hiett “Down On The Road By The Beach”

5 Fernando Falcão “Memória das Águas”

6 David Sylvian “Alchemy: An Index of Possibilities”

7 Brian Eno “Apollo: Atmospheres and Soundtracks”

8 Prefab Sprout “I Thrawl The Megahertz”

9 Magnetic Fields “69 Love Songs”

10 Caetano Veloso “Caetano Veloso (London London)”

NACIONAL

Apesar de não ser tão frequente entre nós como em outros lugares, o interesse pelo lançamento póstumo de gravações deixadas por músicos começa a ganhar outro fulgor. Não há entre nós exemplos comparáveis ao volume de títulos que as discografias póstumas de Jeff Buckley ou Jimi Hendrix juntaram aos discos que um ou outro haviam lançado em vida. Nem tínhamos até aqui um projeto de edições com alguma regularidade como o que tem vindo a colocar no mercado discos de David Bowie ou Prince desde que ambos nos deixaram. É verdade que temos vindo a descobrir gravações inéditas de Amália, mas muitas delas integradas como extras em reedições de títulos históricos. Com o espólio deixado por Bernardo Sassetti – que tem vindo a ser inventariado pela Casa Bernardo Sassetti – vamos conhecer ao longo dos próximos anos uma série de lançamentos que, possivelmente ao ritmo de dois discos por ano, tornarão disponível material gravado num volume que poderá ser arrumado em nove novos álbuns.

Uma seleção de gravações efetuadas no Teatro Micaelense (Ponta Delgada) em 2005 numa “residência” à porta fechada que durou três dias ganha agora forma em “Solo”, claramente a melhor forma de abrir esta janela sobre memórias ainda inéditas registadas por um dos maiores músicos que conhecemos no nosso tempo.

“Solo” abre a série de lançamentos, à qual se juntará brevemente uma gravação da música criada para um espetáculo criado a partir de “Menina do Mar” de Sophia de Mello Breyner Andressen. Para 2020 está já agendada a edição, com a Sinfonietta de Lisboa, da música para “Maria do Mar” de Leitão de Barros… O resto, que fica para a frente, é ainda surpresa…

O ano nacional de edições no campo da memória destaca ainda uma caixa que junta a obra de Conan Osiris até aqui apenas disponível em suporte digital, uma edição de material de arquivo do projeto Dwart (que nos leva a reencontrar pistas da autora da música eletrónica feita entre nós) e ainda uma caixa que junta edições do segundo álbum dos Ornatos Violeta em LP, CD e cassete.

1 Bernardo Sassetti “Solo”

2 Conan Osiris “Música do Tempo da Loja”

3 Dwart “Electricidade Estética”

4 Ornatos Violeta “O Monstro Precisa de Amigos”

5 Telectu “CTU”

6 Alex FX “Underdub”

7 Amália Rodrigues “Com Que Voz”

8 António Variações “Dar e Receber”

9 Mão Morta “Vénus Em Chamas”

10 Pedro Abrunhosa + Bandemónio “É Preciso Ter Calma”

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