Os melhores filmes de 2019 (Nuno Galopim)

Documentários, filmes-concerto e ficções… O universo da música retratado nos ecrãs (pequenos e grandes) estão aqui em balanço. Mas do restante cinema e das séries de televisão há também aqui listas. Texto: Nuno Galopim

FILMES

Editado em junho de 1972 “Amazing Grace” transformou-se rapidamente no maior fenómeno de popularidade, não apenas entre a discografia de Aretha Franklin como na própria história do gospel em disco. O álbum, editado no formato de duplo LP, nascera de gravações captadas ao vivo em duas noites de janeiro desse mesmo ano. E na verdade, desde o início, ao registo do áudio – destinado ao disco – estava prevista a criação de um documento visual. Um filme, para o qual foi convocado o realizador Sydney Pollack e uma equipa que ali o acompanhou durante essas duas noites. Porém, se no plano do áudio tudo bem, já entre as imagens a coisa foi diferente. Ninguém levou claquetes… Nem ninguém se lembrou de usar um dispositivo alternativo pelo que, na hora de procurar o sincronismo entre as filmagens captadas por câmaras de 16 mm e o áudio, as dificuldades foram tais que acabaram por ditar um fim inesperado ao projeto… E, durante anos, o filme, que tinha estreia agendada para 1972, ficou remetido a uma gaveta esquecida.

Passaram anos até que, em 2007, o produtor Alan Eliott adquiriu as bobinas com os brutos das filmagens de janeiro de 1972 na New Temple Missionary Baptist Church, em Los Angeles. Com outra tecnologia disponível lançou-se no desafio de dar voz síncrona às imagens. Mas desta vez as dificuldades chegaram da parte da própria Aretha Franklin, que se opôs à apresentação pública das imagens e processou o realizador. O contrato original, entretanto encontrado, acabou por ajudar a desbloquear o processo, sendo apontada então uma estreia para a edição de 2015 dos festivais de Telluride, Toronto e Chicago. Uma vez mais Aretha reagiu e ameaçou lançar novo processo por não autorizar a divulgação das imagens… O silêncio só foi novamente rompido quando, depois da morte da cantora (em 2018), a família alcançou um acordo, tendo “Amazing Grace” finalmente chegado ao grande ecrã numa estreia acolhida pelo Doc NYC em dezembro de 2018.

Desaparecido em 2008, Sydney Pollack não participou na etapa de (re)construção do filme. Na verdade o que vemos agora em “Amazing Grace” é o resultado da visão de Alan Eliott, trabalhada pelo engenheiro de som Serge Perron e o montador Jeff Buchanan. Mais do que um ‘making of’ ou um filme-concerto, “Amazing Grace” é uma experiência que pisca o olho ao cinema-verité e tem o condão de nos transportar para o local e o tempo em que tudo aconteceu. 

As imagens são arrumadas cronologicamente e acompanham a evolução de duas noites nas quais o reverendo James Cleveland (figura de referência do gospel) desde logo explica que se vão viver momentos especiais mas que, no fundo, não deixam de estar numa igreja e aqueles são, de certa forma, serviços religiosos. Desafia assim, como o fazia todos os domingos, a que participassem, respondesse, interagissem, com aqueles que cantavam e tocavam. A verdade participativa que então de vive dilui o que poderiam ser as fronteiras entre o concerto e o serviço religioso. É essa verdade que impede que se estabeleçam muros e distâncias. Antes pelo contrário, plateia, cantora, músicos e coro vivem um momento de comunhão.

Esta ideia de partilha não se limita aos espaços entre artistas e público (entre o qual vemos Mick Jagger e Charlie Watts, que nesse momento estavam em Los Angeles a trabalhar nas sessões do álbum “Exile On Main Street”). A música também atravessa fronteiras. E entre a pop e os terrenos mais claros do gospel emerge uma abordagem que conta com a voz de Aretha Franklin como o fio condutor. 

Há uma certa informalidade no ar. Que vem certamente do quotidiano daquela congregação e consegue ignorar a equipa que naquela noite a invadiu com luzes e câmaras. Sente-se o calor dos projetores no suor que escorre nas faces de alguns protagonistas. As trocas de olhares, os movimentos, mostram que não vemos um momento cenicamente projetado a rigor. E a capacidade em não alterar esse sentido de verdade, deixando visíveis alguns enganos, recomeços, ajustes de microfone, juntam-se às grandes interpretações por Artha, músicos e coro, para fazer de “Amazing Grace” um documentário que é bem mais do que um bom filme-concerto.  

1 “Amazing Grace”, de Sydney Pollacy

2 “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese”, de Martin Scorsese

3 “Homecoming – A Film by Beyoncé”, de Beyoncé Knowles Carter

4 “Rocketman”, de Dexter Fletcher

5 “Western Stars”, de Bruce Springsteen e Thom Zimny

DVD / Blu-Ray

Só ao fim de cinco anos de discos, e então já com uma mão-cheia de êxitos de escala global, os Pet Shop Boys resolveram experimentar o palco. E quando finalmente o fizeram deixaram claro que a apresentação das canções ao vivo era parte de um conceito que envolvia tanto a criação de imagens (nesse caso eram fimes de Derek Jarman) como a possibilidade de uma construção narrativa. Neste último aspeto foram ainda mais longe num segundo espetáculo – ao qual chamaram “Performance” no qual a sucessão de canções e proposta cénica que as alinhava em palco mais parecia coisa de dimensão operática do que as rotinas mais comuns em espaços da música pop… No fundo estavam já aí (e estamos a evocar memórias de finais dos anos 80 e inícios dos anos 90) marcas de uma mesma identidade que, em 2018, ao levá-los ao espaço da Roya Opera House – a principal sala de ópera londrina – os fez sentirem-se, afinal, em casa.

Ali viveram durante quatro noites consecutivas, de 20 a 23 de julho de 2016 (tendo repetido mais tarde a mesma residência, uma vez mais em quatro noites, em julho de 2018). Tinham recentemente editado “Super”, a segunda parte de um díptico intenso e cunhado pela força da música de dança (escola electro) criado em colaboração com o produtor Stuart Price (o mesmo de “Confessions on a Dance Floor” de Madonna). E não só as marcas de identidade das parcerias com o produtor dominaram a construção da abordagem musical como foram buscar a um dos temas do álbum – “Inner Sanctum” – o título para o espetáculo. Não era apenas um momento da Super Tour. Este era um alinhamento especial… E de facto o que a caixa quádrupla (2CD, DVD e Blu-Ray) agora nos mostra é o retrato de um acontecimento cenicamente sofisticado e musicalmente coerente que em nada escapa ao mesmo código genético que em tempos definira “Performance”. O tempo juntou mais canções, novas ideias, solidez e um claro domínio sobre as artes do palco. 

“Inner Sanctum” não é uma viagem de nostalgia, como acontece em alinhamentos de concertos de alguns companheiros de geração dos Pet Shop Boys. Há uma clara afirmação de um presente ativo quer pelas novas canções quer pela forma como a identidade sonora da obra recente dos Pet Shop Boys molda abordagens a velhas canções, como “Home and Dry” ou “Left To My Own Devices”. Há inevitáveis grandes clássicos. Mas também memórias importantes, embora de menor dimensão como êxitos globais, que visitam temas dos primeiros tempos como “Opportunities (Let’s Make Lots of Money)”, “In The Night” ou “Love Comes Quickly”.

O concerto assenta sob a construção de uma narrativa que valoriza a criação de vários momentos de surpresa e revela gradualmente a artilharia de palco e a própria infantaria depois chamada para um natural final apoteótico. Do trabalho inicial centrado nos dois músicos e em jogos de luz e vídeo à presença em cena de mais músicos e de dançarinos (que lembram o “papão” do “Nightmare Before Christmas” de Tim Burton, mas em cores pop) o caminho faz-se de somas, de inclusão. Não há solos de guitarra. Não há divas em agudos arrebatadores. Mas há um grande concerto. E sim… de música pop.

Como extra é incluído no Blu-Ray a gravação da atuação do grupo no Rock In Rio (do Rio de Janeiro) integrada na Super Tour… Sem surpresa o alinhamento é encurtado, como acontece em tantos ‘slots’ de festivais… Mas perante a mega-plateia esvai-se a intensidade e envolvência que o trabalho de luz estabelece entre quem assiste e quem está no palco. Se querem ter um bom exemplo do que se ganha e perde entre uma atuação em sala e um concerto em festival, este “Inner Sanctum” pode dar respostas. Cada um tire, depois, a sua conclusão. Porque não temos de pensar todos da mesma maneira.

1 “Inner Sanctum”, Pet Shop Boys

2 “Cureation 25 Anniversary”, The Cure

3 “Rock’N’Roll Circus”, Rolling Stones

4 “All you need is Love”, série de Tony Palmer

5 “Joni 75: A Birthday Celebration”

É verdade que o GIRA-DISCOS trata de música… Mas quem aqui escreve vai ao cinema e vê séries de televisão. Aqui ficam, assim, outras escolhas a ter em conta na hora de fazer o balanço de 2019.

CINEMA

Quantas vezes ouvimos dizer que só “quem lá esteve” é que sabe… E, de certa forma, é dessa velha consciência de que não há como uma testemunha ocular para garantir a verdade de uma descrição que criamos uma primeira ligação com um filme que, logo no, título deixa evidente essa sugestão. “Vem e Vê… E quem “vai” e vê é Flyora, um jovem adolescente bielorusso que, arrancado da mãe e irmãs por um grupo de partizans que recruta almas para combater os alemães, acaba por ser testemunha de terríveis atrocidades cometidas pelos invasores. 

O filme convida-nos a acompanhar Flyora… Com ele saímos de casa e começamos por sentir um prazer de descoberta ao caminhar entre florestas, conhecer outros partizans ou a procurar armas perdidas entre areias que assistiram a combates recentes. Mas o invasor está perto. Perto demais… E aos poucos Flyora dá conta de outras dimensões numa história que vai conhecer na pele até que o horror entra numa espiral descontrolada que atinge patamares de loucura. Flyora está lá. Foi e viu. E nós, com ele, vemos também.

Realizado por Elem Klimov (1933-2003), cineasta russo com parte significativa da sua obra criada na década de 60, “Vai e Vê” data de 1985 e correspondeu à última obra que o realizador concluiu. Teve uma pré-história longa, com oito anos de espera gerados por confrontos com organismos soviéticos pouco entusiasmados com a proposta narrativa e, sobretudo, estética. Mas quando finalmente foi rodado, montado e estreado, representou um fenómeno de sucesso tremendo, tendo só na URSS alcançado uma bilheteira no limiar dos 29 milhões de espectadores. Uma cópia restaurada, premiada recentemente em Veneza, está na base desta nova vida do filme nas salas de cinema.

Apesar de não ter assistido a momentos como aqueles que o filme retrata Klimov não deixa de ter na história da sua própria vida memórias de um “inferno” (como ele mesmo chegou a descrever) vivido naqueles tempos. Na verdade quem esteve mais próximo das situações que o jovem protagonista “viu” foi Ales Adamovich (n. 1927), autor do livro no qual o argumento é baseado. Tal como Flyora o então jovem Ales (que é natural de Misk) foi partizan durante a guerra num tempo em que fizeram história os ataques de forças alemãs a aldeias bielorussas nas quais queimaram populações inteiras. 628 aleias conheceram esse destino, como lemos no ecrã no final do filme. 

Há uma dimensão poética, sobretudo na criação das imagens. Mas o choque entre o realismo que desenha algumas das sequências mais dramáticas e o surrealismo com que Klimov caracteriza a pulsão de revolta e desejo de retaliação do protagonista fazem de “Vem e Vê” um caso único e distinto na história das representações de cenários de guerra no cinema. Se é o “melhor filme de guerra”, cada um decida por si… Não é filme novo. Mas para mim “Vem e Vê” foi o melhor filme que este ano vimos nas nossas salas. E que agora está também disponível em DVD.

1 “Vem e Vê”, de Elem Klimov

2 “Parasitas”, de

3 “Socrates” de

4 “Era Uma Vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino

5 “A Favorita”, de Yorgos

SÉRIES

À proliferação de tramas policiais em séries que se multiplicam pelos muitos canais de cabo e serviços de streaming chega, de muito em muito, uma proposta diferente, desafiante e capaz de acrescentar novas ideias a um mundo de facto sobrepovoado de histórias e imagens. Foi assim com “The Wire”, um dos melhores exemplos de excelência ao serviço de uma série que, mais do que mera narrativa policial, revelava, em apenas cinco temporadas, um somatório de histórias do quotidiano numa cidade (a de Baltimore, neste caso). A educação, a corrupção, a imprensa, entre outros, eram temas que acrescentavam corpo a uma série que se centrava numa unidade policial e que com ela nos levava a ver muito mais do que os objetos imediatos do seu labor diário.

É claro que são espaços (e tempos) diferentes os que vemos retratados em “Mindhunter”. Mas a série produzida pela Netflix – já com duas temporadas disponíveis – é talvez a que mais se aproxima dos patamares de cuidado na escrita, na direção de atores e na realização, juntando ainda uma contribuição importante de uma direção de arte que tem entre as suas missões a de nos transportar às épocas em que decorrem as ações, sem que para tal esteja sistematicamente a esborrachar marcas de tempo no ecrã. 

O projeto ganhou forma depois de Charlize Theron ter oferecido a David Fincher um livro sobre esta divisão criada pelo FBI em finais da década de 70. A presença de Fincher está bem evidente nas entranhas de “Mindhunter”, tanto que ele mesmo assinou a realização de episódios em ambas as temporadas já produzidas (quatro na primeira, três na segunda). A ele juntaram-se já, na realização, nomes como os de Asif Kapadia (o autor de “Amy”), Tobias Lindholm (“Borgen”) ou Andrew Dominik (“O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”).

Ficção com base em alguns factos reais, “Mindhunter” acompanha a criação e desenvolvimento de uma unidade que, dentro do FBI, começou a aplicar ideias e métodos das ciências comportamentais para, primeiro, criar o perfil de serial killers condenados e presos e, depois, aplicar dados recolhidos e conclusões em situações de investigações em curso. A primeira temporada decorre no final da década de 70, acompanhando o surgimento destes novos métodos dentro do FBI. A segunda está temporalmente localizada entre 1979 e 1981, tendo como arco narrativo central a investigação dos chamados “Atlanta murders”, um conjunto de assassinatos em série de adolescentes negros de vários bairros da cidade georgiana. 

O trio central de atores (e respetivas personagens) – Jonathan Groff (Holden Ford), Holt McCallany (Bill Tench) e Anna Tory (Wendy Carr) – tem o carisma característico dos grandes triângulos narrativos. São eles o epicentro do corpo especial – alojado numa cave do FBI – mas parte de um lote maior de figuras que juntam aos episódios figuras e histórias de vida que fazem com que “Mindhunter” transcenda a lógica mais recorrente das histórias de crime, solução e castigo. Os assassinos entrevistados juntam uma assombrosa profundidade a todo um jogo de situações que constroem, episódio após episódio, vários arcos narrativos que se vão desenhando e eventualmente resolvendo – uns mais depressa do que outros. Às histórias dos casos (os resolvidos e os em aberto) a série acrescenta uma capacidade rara em explorar cada uma das três figuras centrais, todas elas acabando por juntar à série argumentos do foro pessoal que a construção da narrativa “macro” da série faz bem em nunca secundarizar. Caso estejam naquele momento de “orfandade” sem série, não há no presente melhor proposta do que a que podem encontrar em “Mindhunter”.

1 “Mindhunter” (Netflix)

2 “Chernobyl” (HBO)

3 “When They See Us” (Netflix)

4 “Years & Years” (Studio Canal / BBC)

5 “Street Food” (Netflix)

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