Os melhores livros de 2019 (Nuno Galopim)

Concluímos uma semana de listas com um olhar pelos livros sobre música que fui lendo ao longo de 2019. Aquele de que mais gostei apresenta um olhar exaustivo pela obra dos músicos que integraram os Japan, acompanhando os respetivos percursos após a separação do grupo. Texto: Nuno Galopim

Não falta bibliografia sobre a vida e obra de David Sylvian. E as escolhas podem ir desde a visão de arco narrativo mais amplo de “The Last Romantic”, de Martin Power (que inclui um relato da etapa vivida nos Japan) a olhares mais foacados como os que surgiram em livros como “On The Periphery” de Christopher Young ou “David Sylvian as a Philospher: A Foray Into Postmodern Rock”, de Leonardo Vittorio Arena. Relativamente difíceis de encontrar estes dois últimos são, respetivamente, um extenso olhar sobre a obra a solo de Sylvian entre 1982 e 2015 (em mais de 600 páginas), e um ensaio de um académico que ensina filosofia contemporânea na Universidade de Urbino (Itália). Longe de ser o mais detalhado dos relatos, o livro de Martin Power cumpriu durante anos a fio o papel de narrar a história dos Japan e de Sylvian. Até que, em 2015, Antony Reynolds (que também escreveu já sobre Scott Walker), apresentou “A Foreign Place”, um primor de biografia sobre os Japan com um tremendo mergulho no detalhe, acompanhando a evolução da música, da relação entre os músicos, o impacte dos discos e dos concertos e, claro, a sua progressiva demanda que os conduziu em 1981 a essa obra prima que é o álbum “Tin Drum”. O contraste entre o sucesso imediato no Japão e o silêncio que lhes era inicialmente votado no Reino Unido, o desenvolvimento dos elementos do grupo como músicos (que de resto se revela bem nítido na passagem dos discos de 1979 em diante), são apenas alguns terrenos abordados numa biografia que acompanha minuciosamente a gravação e edição de cada disco ou o desenrolar de cada digressão, contando para tal com entrevistas com todos os elementos do grupo e muitos daqueles que com eles trabalharam naqueles dias. Não falta alguma tensão no retrato da desagregação da banda, que chega a partir da digressão que, logo em 1981, apresenta as canções de “Tin Drum”. A ideia de que esse era um disco insuperável, de resto, parece que habitava já os músicos durante a sua criação.

Agora a história tem continuação em “Cries and Whispers / 1983 – 1991”, um segundo volume biográfico no qual, mantendo o mesmo estilo e gosto pelo detalhe, Antony Reynolds acrescenta novos destinos ao relato da vida dos Japan, acompanhando os vários projetos a solo, encontros e desencontros, que ocorreram entre 1983 e 1991.

É claro que o volume sobre os Japan já tinha abordado o primeiro single conjunto de Sylvian com Sakamoto (“Bamboo Houses”/”Bamboo Music”, de 1982), assim como a criação e edição do álbum de estreia a solo de Mick Karn (assim como a história das suas colaborações com Gary Numan) e a aproximação de Steve Jansen e Yukihiro Takahashi, da Yellow Magic Orchestra, da qual nasceria também um disco em colaboração. Todas essas experiências tinham ocorrido antes do anuncio oficial do fim, que chegou com a etapa japonesa da digressão de 1982, que seria depois documentada no álbum ao vivo “Oil on Canvas”, de 1983.

“Cries and Whispers” continua a história aí mesmo, arrumando a narrativa cronologicamente e olhando um a um os protagonistas. Abre com Sylvian e a criação de “Forbidden Colors” com Sakamoto e a edição do seu livro de fotografia. Segue-se a criação (com pouca naturalidade e tempo de sedimentação) do projeto Dali’s Car de Mick Karn e Peter Murphy (ex-Bauhaus). Entramos então no percurso a solo de Sylvian nos álbuns, acompanhando ao pormenor a criação e reações a “Brilliant Trees”, o EP instrumental “Words with the Shaman”, “Gone To Earth” e “Secrets of The Beehive”, sem esquecer as parcerias em estúdio com Holger Czukay. Pelo caminho acompanhamos o fortalecimento da dupla Jansen / Barbieri (que culminaria no disco pop que editam como Dolphin Brothers e em projetos mais experimentais assinados pelos seus próprios nomes). A digressão que se segue a “Secrets of The Beehive” é olhada dia a dia… E a fechar o volume fica a história, finalmente bem contada, do projeto Rain Tree Crow que, por apenas um disco, juntou os antigos músicos dos Japan (na sua formação final), desta vez sob um método de trabalho diferente. Rob Dean, o guitarrista que os acompanhou até 1980, tem direito a um capítulo no fim do livro.

Não haverá admirador da música dos Japan que não fique satisfeito com o grau de exigência que o autor colocou na narrativa. Isto sem falar na quantidade de imagens inéditas que tem sabido juntar nestes livros. E agora é esperar pela continuação da história nos anos 90 e na viragem do milénio.

Entre a lista dos melhores livros sobre música que li este ano está ainda a narrativa biográfica dos Joy Division, contada pelas vozes dos próprios músicos, numa história oral que Jon Savage apresentou em This Searing Light, The Sun and Everything Else e a versão, com uma parte recentemente acrescentada, da biografia de Leonard Cohen, que teve este ano edição entre nós.

1 “Cries and Whispers”, de Anthony Reynolds

2 “This Searing Light, The Sun and Everything Else”, de Jon Savage

3 “I’m Your Man”, de Sylvie Simmons

4 “Ashes To Ashes – The Songs of David Bowie”, de Chris O’Leary

5 “The Beautiful Ones”, de Prince e Dan Pipenbring

6 “A Fabulous Creation – How The LP Saved Our Lives”, de David Hepworth

7 “Morning Glory On The Vine: Early Songs and Drawings”, de Joni Mitchell

8 “Music a Subversive History”, de Ted Gioia

9 “Me”, de Elton John

10 “Scott Walker – The Rhymes of Goodbye”, de Lewis Williams

Da produção livreira made in Portugal destaco os livros que li este ano:

“À Minha Maneira – Vol 1 1979-1999”, de Ana Ventura

“Sobreviventes – O Rock em Portugal na Era do Vinil”, de Pedro de Freitas Branco

“Com os Beatles… Caro Jó”, de Luís Pinheiro de Almeida 

“Gramofone”, de João Carlos Callixto

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