Nuno Galopim (remix de Natal)

Em semana de Natal o GIRA-DISCOS espreita as coleções de discos de Natal de alguns colecionadores… E a fechar este breve ciclo, hoje, a contar as histórias dos seus discos da quadra… estou eu.

Porque colecionas discos de Natal?

Bom isto de fazer perguntas a mim mesmo tem algo de bizarro… Mas aqui vai… Porque coleciono discos de Natal? Acho que tudo começou no Natal de 1984. Já comprava discos, ao ritmo do que a semanada e os presentes de aniversário e Natal permitia gastar. Não se falava muito em discos de Natal no final dos anos 70 e inícios dos 80 (o período em que comecei a comprar discos com regularidade). E caso se falasse eu, pelo menos, não dava por isso… Em 1984, de uma só assentada, saíram três singles “natalícios” que comprei. Um era The Power Of Love, o terceiro single dos Frankie Goes To Hollywood, que era acompanhado por um teledisco de iconografia relativamente canónica. E inesperada depois do que haviam sido os telediscos de Relax e Two Tribes… Depois houve as doses de azeite de Last Christmas dos Wham! (na verdade a canção de que mais gostava era o Everything She Wants que se escutava na outra face do single). E, claro, a versão original de Do They Know It’s Christmas, do coletivo Band Aid, que juntou músicos de bandas como os Duran Duran, Culture Club, Bananarama, U2 ou Ultravox numa campanha contra a fome que, meses depois, teria expressão maior no Live Aid… E com três novos singles na mão (e mais os dois que, entretanto, tinha em casa há já uns anos) pensei: ooops, está aqui o ponto de partida para mais uma coleção… A coisa na verdade cresceu mais (em quantidade e diversidade) quando, já no século XXI, criei o hábito de fazer, a cada ano, um especial de Natal no programa Discos Voadores, que durante 12 anos apresentei na Radar. Este ano essa ideia voltou a ganhar forma nas Páginas Amarelas, o programa semanal que partilho – aos domingos, pelas 20.00 –  com o Álvaro Costa, na Antena 3.

Qual foi o primeiro disco de Natal que compraste?

Os primeiros que comprei foram mesmo esses três que referi na resposta anterior. E o dos Frankie Goes To Hollywood teve de ser via mail order, que não foi cá editado como single. Mas já tinha dois discos de Natal. O primeiro que tive foi Happy Xmas (War Is Over), de Lennon e Yoko, com a Plastic Ono Band, recebido como presente de Natal uns anos antes, dado por uma prima (cujo gira-discos era um meu passatempo preferido sempre que ficava uns dias em casa da minha tia). Depois, dado pela minha mãe, o LP dos Operários de Natal, com as vozes de Carlos Mendes, Fernando Tordo e Paulo de Carvalho… Este era cantado à exaustão pela minha mãe em casa… Ainda recentemente, ao fazer o episódio da série “Vejam Bem” dedicado a Paulo de Carvalho lá meti um excerto de O Lenhador… E no almoço de domingo que se seguiu à transmissão do programa, lá se voltou a escutar, em casa dos meus pais, a voz da minha mãe… “quando está na sala… o pinheiro fala”… São memórias que fixam o meu Natal. Juntamente com as rabanadas (numa receita conventual do Porto que mete calda de açúcar e raspas de laranja, miam miam)…

Tens algum disco de Natal raro?

Raro, acho que apenas um. A edição original do It Doesn’t Often Snow At Christmas dos Pet Shop Boys. É um CD single promocional de duas faixas, com essa canção de Natal e uma versão instrumental, que foi oferecida como “presente” de Natal em 1997 pela EMI. O CD single é transparente, com um floco de neve a branco ao centro. A capa é um envelope prateado, sem lettering. A canção teria depois uma edição comercial num EP editado em 2009. Apesar da “azeitice” (e o azeite é melhor do que o óleo) tenho várias edições do Last Christmas, entre elas a edição colorida e transparente em 12 polegadas (na foto acima) que assinalou o 30º aniversário da edição original. E tenho um CD single, edição canadiana, com áudio e vídeo, do dueto de Natal do David Bowie com Bing Crosby, mas este último não é uma raridade por aí além. É maizomenos…

Há algum que estejas à procura e ainda não tenhas encontrado?

O Christmas Raindeer dos The Knife. Saiu em 2006 em formato digital e comprei o ficheiro mp3 (com capa impressa e tudo, como se fazia nos tempos em que comprava ficheiros por download). Mas houve um CD single promocional… Que é difícil de encontrar. Não me importava nada de ter os discos de Natal do James Brown nas suas edições originais em vinil…

A tua capa preferida de um disco de Natal é…

Gosto muito das capas dos EP de Natal do Sufjan Stevens. E, naturalmente, das capas dos volumes das compilações A Very Special Chrismas, porque usam um desenho de Keith Haring. Agora a minha preferida é mesmo a do disco de Natal dos Peanuts.

E qual é o teu disco de Natal preferido?

Aqui não há nunca hipótese. É o improvável (mas aconteceu!) dueto que David Bowie assinou com Bing Crosby para um programa especial de Natal deste último em 1978. Bowie estava em plena “fase” Berlinense (1978 é o ano da digressão Isolar 2 que leva para a estrada as canções e os instrumentais de Low e Heroes… Não podia estar mais longe do registo “classicista” que, até mesmo visualmente, adotaria mais tarde. O encontro entre Bowie e Bing Crosby é semelhante ao avistar de um ovni. Parecem seres de mundos diferentes, e há um certo tom de humor no diálogo que precede a interpretação do standard da quadra Little Drummer Boy, ao qual se junta uma sequência nova com o título Preace On Earth. Apesar de o programa ter sido transmitido na televisão nesse Natal, a canção que resultou deste encontro inesperado só foi editada em single em 1982.

O disco de Natal mais invulgar que já ouviste é…

Talvez uma peça que mistura música e spoken word criada em conjunto pelos Disposable Heroes of Hiphoprisy e William S. Burroughs. Chama-se The Junky’s Christmas (está no alinhamento do álbum Spare Ass Annie And Other Tales, de 1993) tem cerca de 15 minutos e olha, como o título sugere, para o Natal numa narrativa que transcende os cânones com renas, prendas e afins… Este olhar, tal como a canção Christmas Card From a Hooker in Minneapolis de Tom Waits ou os retratos da América Negra nos álbuns de Natal de James Brown de 1968 e 1970 são peças importantes para mostrar como este universo (o da música de Natal) pode e deve ser mais do que repetições e variações em torno de mais do mesmo. Esteticamente há abordagens interessantes pelos Flaming Lips… E gosto mais ainda das loucuras e colagens dos discos de Natal dos Beatles. Do Natal musical no cinema destaco, de longe, as canções de Danny Elfman para The Nightmare Before Christmas.

Há discos de Natal com ‘standards’ e outros com originais. Quais preferes?

Costumo gostar mais dos que apresentam originais. Mas há exceções quando as abordagens aos standards são capazes de os reinterpretar, transformar ou, como agora se diz, desconstruir… Como o caso do dueto do Bowie com o Bing Crosby ou a versão “modificada” como Little Drama Boy dos Pop Dell’Arte.

Quem gostarias de ver a criar um disco de Natal?

Em primeiro lugar os Duran Duran, claro, mas esta é uma escolha bem pessoal… Deles, de Natal, só houve as contribuições de Simon Le Bon, Nick Rhodes e John Taylor no single de 1984 (o original) do coletivo Band Aid. Um Natal à la James Blake, FKA Twigs, Sophie, Arca ou Oneothrix Point Never seria coisa bem linda de se escutar.

Escolhe um disco de Natal menos conhecido…

Durante os anos em que apresentei os Discos Voadores na Radar procurei o que havia de música com temática natalícia a nascer nas várias frentes indie… E entre as melhores descobertas está uma compilação de 2002. Tem por título Seasonal Greetings e junta contribuições de nomes como os Low, Saint Etienne ou Múm. Mas a melhor memória que guardo da descoberta deste disco é a versão de Last Christmas (sim, o tema dos Wham!) numa versão melancólica e minimalista, no limar do desencantamento total, assinada por Erlend Oye (dos Kings Of Convenience).

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