Dream Warriors “And Now The Legacy Begins” (1991)

Não foi por acaso que se lhe chamou a “golden age”. Mas é verdade que, entre a segunda metade dos anos 80 e a alvorada dos anos 90 o universo do hip hop viveu momentos inesquecíveis que tanto podemos associar à descoberta destes terrenos por novos públicos como a um tempo de expansivo alargar de horizontes de muitos músicos ligados a estes espaços da invenção musical. Com uma visibilidade que os pioneiros de alguns anos antes não haviam conhecido, discos de nomes como os Public Enemy, Eric B & Rakim, EPMD, De La Soul, Run DMC ou Beastie Boys colocavam o género na linha da frente das atenções.

Quando, em inícios dos noventas, uma nova geração de músicos de hip hop descobriu nos terrenos do jazz uma importante fonte de matéria prima a trabalhar assistimos à emergência de outro dos mais nutritivos, inspirados e vibrantes momentos entre os que a história do rap (e da cultura a si associada) já assistiu. Nomes como os A Tribe Called Quest ou Guru (dos Gang Starr) tornaram-se importantes líderes de uma nova mensagem que abriu portas à descoberta de uns Digable Planets, Us 3, Ronny Jordan, criando diálogos que chegaram mesmo a seduzir nomes do jazz como Miles Davis ou Brandford Marsalis. Mas há mais nomes a ter em conta neste universo, alguns deles com memória algo erodida pelo tempo mas que vale a pena não esquecer. E um desses nomes chegou do Canadá…

Muito por conta de My Definition of a Bombastic Jazz Style, uma canção irresistível, trabalhada sobre um sample de Soul Bossa de Quincy Jones, os canadianos Dream Warriors foram reconhecidos como uma das forças maiores do género. Mas na verdade o seu brilhante álbum de estreia, And Now The Legacy Begins, editado em 1991, que visita de facto ecos do jazz em outros instantes (como no luminoso Wash Your Face in My Sink), é sobretudo uma celebração das linguagens de um género que então atingia a sua plena maturidade.

Musicalmente o álbum é um verdadeiro festim de referencias, da assimilação de elementos da cultura jamaicana em Ludi ou da exploração contemporânea das derivações hip house em Face in The Basin à celebração de heranças blaxplotation em U Could Get Arrested, passando por citações a formas exploradas pelo hip hop na alvorada dos oitentas, como no tema-título onde “samplam” Tom Tom Club ou Twelve Sided Dice (entre ecos da memória electro).

A impressionante diversidade de caminhos tomados ganha depois um sentido de corpo coeso pela abordagem vocal e liricamente consistente, apresentando King Lou e Capital Q sob um invariável tom cool. Quase três décadas depois, e mesmo que a memória da canção nascida sob o sample da orquestra de Quincy Jones seja ainda lembrada, And Now The Legacy Begins merecia ser um dos primeiros discos marcantes na construção de uma noção de hip hop alternativo a recuperar, agora que este universo ganhou um lugar evidente na linha da frente da criação da música popular. – N.G.

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