Uma história oral dos Xutos & Pontapés… Para já recordam-se memórias de 1979 a 1999.

Tem por título “À Minha Maneira” e é um volume de 559 páginas que, com a autoria de Ana Ventura, conta memórias (contadas na primeira pessoa) dos primeiros 20 anos de vida dos Xutos & Pontapés. Lancei há dias umas perguntas à Ana. E aqui estão as suas respostas.

Qual foi o método de trabalho para fazer esta narrativa? Havia um livro já em mente deste o início ou o projeto foi ganhando forma?

Quando me sentei com cada um dos elementos da banda, já todos sabíamos o objecto que estávamos a construir. Na verdade, tal como os Xutos, este livro nasce de um sonho do Zé Pedro, eterno curioso e constante elemento de partilha, que considerava que, quase duas décadas depois da primeira biografia dos Xutos, assinada pela Ana Cristina Ferrão, havia mais história para ser contada. A grande dúvida passava por saber como fazê-lo – os Xutos nunca tinham falado, em discurso directo e na primeira pessoa, sobre tudo aquilo que tinham vivido. Foi isso que aceitaram fazer em À Minha Maneira, que parte de uma entrevista comum, feita isoladamente. A primeira vez que as declarações dos cinco Xutos se cruzam é, precisamente, nas páginas do livro. O que faz com que as surpresas não fiquem, apenas, reservadas a quem lê À Minha Maneira mas sejam partilhadas, também, por quem o fez. 

Quais foram as maiores surpresas encontraste no decurso das entrevistas? Houve revelações maiores? E histórias que afinal não eram bem como a eventual mitologia fora criando?

De certa forma, há histórias que fazem (quase) parte do imaginário colectivo de quem vive a música. Os mitos do primeiro concerto relâmpago, em Janeiro de 1979, por exemplo. Mas, até aí, é incrível perceber que os próprios músicos não se lembram bem do que aconteceu – mas lembram-se que o António Variações estava lá a cortar cabelo. Porém, há pormenores que nunca antes foram contados: as dificuldades vividas no Brasil, por exemplo, quando decidem gravar Gritos Mudos no Rio de Janeiro; o compasso de espera que coloca o futuro da banda em risco logo a seguir, depois de problemas financeiros e com um manager; ou ainda, a forma como não desistem e acabam, mesmo, por dar a volta por cima. Hoje, pode parecer inacreditável mas os Xutos chegaram a ter que dar concertos em escolas para honrar patrocínios. Tudo isto acaba por deixar bastante evidente o nervo que estes cinco homens entregam à sua arte. 

A primeira parte do livro ajuda a fazer um retrato do punk em Portugal… Quase não houve discos (na altura só os Aqui d’El Rock), mas na verdade o “boom” do rock português não começa a emergir dali?

Por um lado, os Xutos surgem no momento do boom do rock português mas só conseguem vingar quando o “tal” rock português já parecia ter-se tornado um mito. Basta pensar que, apesar de serem uma banda de culto, os Xutos só conseguem chegar a uma grande editora em 1986. O mais incrível ainda? Fazem-no num bolo de contratações mas nem sequer eram a banda na qual a editora mais apostava. A história veio a mostrar o erro…

Quando achas que os Xutos transitam de uma esfera de culto para uma visibilidade maior? E como reagem eles a essa mudança?

Acho que há dois momentos muito distintos – e com reacções igualmente distintas. Depois do sucesso de Circo de Feras, vem a exposição de 88 e os Xutos chegam a um patamar que sempre tinham buscado mas para o qual, de alguma forma, não estavam preparados. É o próprio Kalú, em À Minha Maneira, que assume que o sucesso é algo difícil de gerir. Para que os Xutos se tornassem aquilo que são hoje foram precisos dois momentos muito distintos: por um lado, foi preciso que o futuro da banda fosse equacionado e, por outro, foi preciso que os Xutos se sentassem num auditório e deixassem para trás aquilo que sempre fez parte da respiração do seu ser – a electricidade. É com o Ao Vivo na Antena 3 que os Xutos fazem as pazes com as suas canções mas, também, que o público faz as pazes com os Xutos. A partir daí, como se costuma dizer, é história. 

A história acaba em 1999 neste volume. Haverá um segundo? E caso sim como vais lidar com a ausência do Zé Pedro?

A perda do Zé Pedro será, provavelmente, um dos momentos mais marcantes do segundo volume de À Minha Maneira, cuja publicação está prevista para o final de 2020. A sorte quando se pensa no Zé Pedro é saber que ele adorava conversar, adorava dar entrevistas e deu muitas. Algumas dessas declarações – feitas a mim ou noutras publicações – servirão como complemento para a história que ainda está por contar. 

Como surgiu e cresceu a tua relação com os Xutos? Quando os ouviste pela primeira vez? Quando os conheceste? E o que mudou então entre os músicos que idealizavas e as figuras reais que com o tempo foste descobrindo?

Há coisas realmente surreais: não sei qual foi o primeiro concerto dos Xutos que vi, não sei qual foi a primeira canção que soube cantar… De alguma maneira, parece que momentos como Contentores ou a versão da Casinha sempre fizeram parte de mim. Mas, claro, tudo mudou quando entrei para a redacção do semanário Blitz e comecei a trabalhar mais de perto com eles (ainda que tivesse conhecido o Zé Pedro no ano anterior, depois de um concerto da digressão de Dados Viciados). Os Xutos, no entanto, não são músicos que idealizamos – são pessoas que convivem connosco, venhamos nós de onde viermos. Porventura, é essa uma das grandes magias da banda. Os músicos que vemos no palco são as figuras reais com quem jantamos, com quem conversamos, com quem rimos e choramos. É essa “a maneira” dos Xutos – e, espero, é essa “maneira” que fica evidente nesta autobiografia. 

“À Minha Maneira – Volume I 1979-1999”, de Ana Ventura, é um volume de 559 páginas lançado pela Showtime.

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