E assim mais uma ópera de Philip Glass entra no cânone “clássico”

Absolutamente arrebatadora, a produção encenada por Phelim McDermott para o “Akhnaten” de Philip Glass originalmente estreada pela English National Opera esteve depois em Los Angeles e passou recentemente pelo Met em Nova Iorque. Foi daqui que surgiu a versão que a Gulbenkian ontem apresentou. Triunfo reconhecido em várias frentes, a ópera ganha assim, merecidamente, um lugar entre o cânone de referência. Texto: Nuno Galopim

Passavam em 2016 quatro décadas sobre o momento em que a estreia de Einstein on The Beach mudara a vida de Philip Glass, a sua relação com a ópera num episódio que contribuiu enormemente para uma revitalização do género, sobretudo ao lançar pistas que abriram ligações a novos públicos. Foi contudo com as criações seguintes, nomeadamente as duas restantes óperas-retrato – Satyagraha (1980) e Akhnaten (1983) – juntamente com as suas criações para the Civil Wars (1984) e duas primeiras óperas de câmara – A Madrigal Opera (1980) e The Juniper Tree (1985), que Philip Glass encontrou não apenas os caminhos formais (menos electrónicos, mais orquestrais), mas também o ritmo de trabalho que, convenhamos, dele faria entretanto o mais prolífico compositor de ópera do nosso tempo, com um volume de trabalho e uma agenda de estreias apenas comparável às dos tempos do barroco.

Durante as últimas quatro décadas foram muitas as óperas estreadas, muitas também as ocasiões que devolveram algumas delas ao palco em novas produções, tendo já integrado a trilogia dos retratos no “cânone” das que mais habitualmente visitam os teatros de ópera. Mas, tal como há longos anos a música orquestral do compositor encontrou no maestro Dennis Russel Davis o seu colaborador ideal, só agora parece ter entrado em cena o encenador certo para materializar em palco visões de encenação capazes não apenas de dialogar com a música, personagens, lugares e temas, mas comunicar com o público que se senta na plateia. Depois de um magnífico Satyagraha criado para a English National Opera em 2007 (levado igualmente depois ao MET) e de um A Perfect American estreado em 2013 no Teatro Real de Mardid, o sublime Akhnaten estreado em 2016 Londres (uma vez mais na ENO) e que depois passou por Los Angeles e Nova Iorque, confirma Phelim McDermott como o grande encenador que a ópera de Glass tem hoje ao seu serviço (isto sem esquecer quão marcante foi a sua colaboração com Robert Wilson, não apenas em Einstein on the Beach, mas também no magnífico e injustamente esquecido O Corvo Branco, estreado em Lisboa na reta final da Expo 98).

Três imagens da produção da ENO em 2016

Levado ao palco da ENO durante sete noites durante o mês de março de 2016 – e eu estive presente na última récita, na qual o compositor estava na sala e, no final, foi ao palco – o Akhnaten de Glass, segundo McDermott, é um épico majestoso, inventivo nas soluções cénicas que diluem a necessidade de uma “representação de época” sem que tal faça tábua rasa sobre alguma iconografia do período de Amarna (assim se convencionou chamar ao intervalo de tempo a que corresponde o reinado de Akenatón).

Contrastando com o minimalismo da produção original que assinalou a estreia da ópera em 1983, a visão de Phelim McDermott divide atenções entre os cantores, as mutações que o cenário sofre e tem numa trupe de malabaristas um dos mais inesperadas (mas eficazes) dispositivos em palco, sugerindo até a precisão dos seus movimentos a solidez do regime, as peças só falhando as mãos de quem as manipula quando o reinado sucumbe perante a revolta que abre o terceiro ato. A gestão dos espaços e dos gestos acompanha assim a música numa narrativa que caminha entre os planos materiais do poder político e a dimensão mística do apelo divino diferente que fez de Akenatón e do seu culto de Aton (o deus Sol) o primeiro culto monoteísta da história. No fundo uma história de como um visionário dificilmente triunfa perante o apelo conservador de velhos ideais (e velhos poderes).

Tal como a escolha de um contratenor para o papel principal já o sugeria de raiz, há nesta produção uma vontade em explorar visualmente as ambiguidades que a figura do faraó colocam em cena (e que as suas representações na escultura e em desenho tão bem ilustram). A figura do protagonista é assim definida sob linhas andróginas, esbatendo noções mais normativas de identidade de género num corpo onde o masculino e o feminino coabitam. A nudez (na cena da coroação) foi contudo trocada por uma solução “de tanga” na récita do Met para transmissão para todo o mundo.

À visão de McDermott vale a pena juntar, nas loas que a produção merece, o reconhecimento pelo trabalho igualmente incrível de Tom Pye (cenário) e Kevin Pollard (guarda-roupa). Entre um elenco sólido, ao nível do alto patamar a que a música e a produção colocam a fasquia, há que destacar contudo o desempenho arrebatador do contratenor Anthony Roth Constanzo (no papel protagonista) e a presença imponente do escriba/narrador Zachary James, num registo mais teatral e pungente do que o que há muito escutamos na versão em disco editada nos anos 80. Estas duas presenças têm atravessado as várias vidas desta produção. Em Nova Iorque havia, como se viu na transmissão na Gulbenkian, outras opções no elenco, mas que em nada afetaram a excelência da produção. Venha o Blu-Ray!

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