O adeus do visionário que nos fez querer ouvir os discos da 4AD

Autor de muitas das capas dos discos das três primeiras décadas de vida da 4AD (e não só), Vaughan Oliver fez do trabalho de design gráfico uma ferramenta determinante no processo de construção de uma identidade para a editora. Morreu este domingo, aos 62 anos. Texto: Nuno Galopim

Somos o resultado daquilo que nos alimenta. E no caso de Vaughan Oliver foi entre capas de discos que encontrou os estímulos que o levariam a estudar design gráfico e, mais tarde, tornar-se ele mesmo num dos mais reconhecidos e aclamados autores de imagens para a música dos outros. Nasceu em 1957 em Sledgefield, no norte de Inglaterra, e ele mesmo descreveria o cenário da sua infância como o de um “filho de classe trabalhadora numa cidade aborrecida”. E foi precisamente através das capas de discos com as quais foi contactando que encontrou frestas para olhar mais longe. Acabou por estudar design em Newcastle-upon-Tyne e apontou azimutes a Londres na hora de procurar trabalho. Os anos 80 estavam a começar e, depois de perceber que não seria em grandes empresas que ia encontrar um ordenado e a sonhada realização pessoal, foi de um encontro furtuito com Ivo Watts Russel que acabou por ser contratado como um dos primeiros funcionários da independente 4AD (recentemente criada), estabelecendo uma parceria que o uniu à editora durante três décadas, tornando-o de resto numa das peças centrais na construção da sua identidade. Vaughan Oliver morreu este domingo, aos 62 anos. E da 4AD chegaram palavras que sublinharam a força dessa parceria, sublinhando que a editora não teria conhecido o percurso de sucesso que viveu sem a preciosa visão que o designer juntou à música que ali foi nascendo.

Vaughan Oliver começou a colaborar com a 4AD em 1981 e entre os seus primeiros trabalhos estão capas de discos dos Modern English. Juntamente com ele o departamento gráfico da editora contou a partir de então com o labor de Nigel Grierson, que assinava os trabalhos de fotografia. Juntos criaram a 23 Envelope. E entre as capas de nomes como os Cocteau Twins, This Mortal Coil ou Clan of Xymox definiu uma visão que em tudo se adequava ao perfil misterioso e onírico que brotava dos discos que então iam criando uma noção de identidade sonora para a 4AD. Na verdade, o poder sugestivo do trabalho gráfico da 23 Envelope ajudou a criar essa mesma ideia de “imagem de marca” que fez então da 4AD um caso particular entre a história das editoras independentes que emergiram depois da revolução (editorial) que surgiu como consequência das movimentações do punk.

Apesar da partida de Girerson em 1988 Vaughan Oliver manteve a ligação à 4AD (agora através da v23), aprofundando o sentido de uma demanda que tinha mais a ver com uma ligação ao coletivo da editora do que a um vincar de personalidade apenas centrado em cada um dos seus artistas ou bandas. Esta visão, que fez nascer uma gramática visual coerente e transversal a vários discos (e várias estéticas musicais) ajudou a vincar o peso da identidade da 4AD, mesmo quando em meados dos anos 80 ali entraram em cena bandas indie rock americanas (dos Pixies aos Ultra Vivid Scene) ou, mais tarde, já nos anos 90, o alargamento de horizontes musicais abriu o leque a outras possibilidades sem contudo macular a noção de coesão “familiar” que o design gráfico ajudava a manter bem firme.

Se é verdade que o percurso artístico de Vaughan Oliver tem uma ligação maior com a história da 4AD (um pouco como Peter Saville o fez com a Factory), o seu trabalho como designer não se esgotou aí (e muito menos em apenas criações para capas de discos). Mesmo assim, vale a pena lembrar, fora da 4AD, mas dentro do universo do design gráfico para música, capas como as que criou para Secrets Of The Beehive de David Sylvian ou Crazy Clown Time, de David Lynch.

O trabalho de Vaughan Oliver pode ser revisitado não apenas nas capas de discos mas em livros da sua autoria como This Rimy River – Graphic Works 1988-1994 ou Visceral Pleasures. Apoiado por uma campanha via Kickstarter, os dois volumes de Vaughan Oliver: Archives conheceram recentemente uma edição limitada de 900 exemplares, que estão disponíveis via United Editions.  

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