O melhor de 2019 (Pedro João Santos)

O desejo seria fazer destas listas um monumento, tributo ao bom gosto e ao poder curatorial — mas a década de 2010 criou um ensejo para disso lavarmos as mãos. Fragmentaram-se belissimamente os consensos e rasgaram-se as unanimidades: em 2018, no top 10 da Stereogum, conviviam Beach House, Ariana Grande e Low. Que isto não nos dê nenhuma congestão é apenas sintomático do bom ecumenismo que passou a vigorar.

Para poder digerir este panorama, tive primeiro de entrar nele. Os últimos dez anos contam a história de um jovem inebriado com a pop pró-forma das rádios, mais passageira, cujo verniz bombástico teve maior taxa de desgaste do que na década anterior. Quando comecei a repelir esse material, tornei a comer muita sopa; conheci um sem-número de discos que mudaram a minha vida. Realizei o sonho de me iniciar na escrita sobre música, dormi pouco, viajei, entrevistei — acima de tudo, pensei. E, acima disso, escutei.

2019 foi um ano para considerar a força gravitacional da música em todas as vertentes. E um ano em que, não obstante o volume titânico de música consumida, tudo parece menos monumental. Os discos que me acompanharam nesta altura falam muito de bravura na sensibilidade, depois de um 2018 de regeneração e descoberta. São coisas que se furtam ao pulsar de um grand statement, mas realmente importam, perante tudo o que nos caleja fora da utopia: ser solidário, ser sensível.

Onde há hiperligação, há um texto meu no Rimas e Batidas (com a exceção de um no Espalha-Factos). Não vou falar dos meus concertos do ano, porque são demasiados — além da experiência sagrada de Björk (no Rockhal), foi um ano de transcendência. Robyn (NOS Alive), Solange (NOS Primavera Sound), Helado Negro (Super Bock em Stock), Janelle Monáe (Super Bock Super Rock), António & Variações (Torre de Belém), Holly Herndon (Culturgest), Massive Attack (Campo Pequeno)… Ui, que já me alonguei.

DISCOS INTERNACIONAIS

Chaka Khan começou 2019 por se devolver às pistas de dança e, por conseguinte, à felicidade. Não foi um disco fácil na imprensa, castigado pela sua leviandade; a estes ouvidos, contudo, Hello Happiness é um triunfo breve, capaz de cozinhar grooves disco e house — onde a sul-coreana 박혜진 park hye jin, com o astuto IF U WANT IT, é a melhor descoberta do ano — numa suave matriz pop. E, nesse estilo, Carly Rae Jepsen voltou a bater todos aos pontos. Dedicated sucedeu à roda-viva de Emotion com um caleidoscópio melodicamente rico, que revisita o amor como vestígio na memória, um agente corrosivo na psique, ou uma possibilidade à espera da correspondência — com menos voracidade, mais moderação.

Trocando a moderação pelo barroquismo das cordas, da voz deixada à viagem, Kelsey Lu conseguiu um trabalho sanguinário e proporcional às suas capacidades. Lana del Rey sublimou a sua musa e entregou um disco no ponto, confirmando-a como contadora de histórias sumptuosas, coadjuvada por Jack Antonoff num verdadeiro vitral sonoro. Mais poder visual apenas na obra de Emily King, um ponto de caramelo entre música e cinema que não consigo deixar de imaginar: cada linha de baixo é um rotoscópio a desenhar estradas ora pelo sol poente, ora pela meia-noite fria. A oscilar nesse espectro, Ariana Grande procurou o calor depois da tormenta: de r&b, trap-pop e soul de gravidade zero, fez coalescer veludo. 

E uma pequena pausa na criação inédita, para deixar desfilar Beyoncé, que transformou um dos catálogos mais ricos da música ocidental no melhor álbum ao vivo do ano. Sobram-nos, então, os dois álbuns pelos quais recordarei 2019 — e vou permutando-os no topo, mas acho que já me decidi. Solange produziu uma jornada musical transcendente, uma homenagem à sua terra natal de Houston, com estilhaços de canção: um imaginário truncado, luminoso, que Helado Negro reclamou para si, para a comunidade latina, para todos os que queiram aprender a sorrir.

01 Helado Negro — This Is How You Smile

02 Solange — When I Get Home

03 Emily King — Scenery

04 Beyoncé — HOMECOMING: THE LIVE ALBUM

05 Carly Rae Jepsen — Dedicated

06 Lana del Rey — Norman Fucking Rockwell!

07 Kelsey Lu — Blood

08 박혜진 park hye jin — IF U WANT IT

09 Ariana Grande — thank u, next

10 Chaka Khan — Hello Happiness

DISCOS NACIONAIS

Prometo não divagar tanto para a minha seleção nacional, encabeçada por dois EPs — um formato que começa a ter os seus descrentes, e por boa razão, mas que na sua melhor configuração continua a ser o perfeito misto entre um acepipe sumarento e uma ameaça a muito álbum que por aí circula. 

É assim que se regista a última oferenda de Dino d’Santiago: Sotavento é uma descarga elétrica — bicéfala, olhando para os anos 80 e 90 de Cabo Verde, não como pastiche, mas para os reimaginar. O resultado? Uma das mais finas obras dos últimos anos, que no meu ranking pessoal, só perde para o novo kuduro de Pongo. Baia é uma reintrodução sísmica, fixada em melodias quase pueris, determinada na ginga mais inventiva — “Kuzola” e “Chora” são como folhas rasgadas de um diário adolescente, mas lapidadas, tornam-se hinos de consagração.

Já consagrada e agora revivescida, Lena d’Água deu-nos o triunfo modesto de Desalmadamente; os Capitão Fausto trouxeram-nos a comedida progressão de A Invenção do Dia Claro; os Throes + the Shine moveram-se para território mais celestial em Enza. E outros triunfos na companhia de DJ Nigga Fox, Mayra Andrade, Dotorado Pro, Perigo Público & Sickonce, e Odete.

01 Pongo — Baia

02 Dino d’Santiago — Sotavento

03 Lena d’Água — Desalmadamente

04 Capitão Fausto — A Invenção do Dia Claro

05 Throes + the Shine — Enza

06 DJ Nigga Fox — Cartas na Manga

07 Mayra Andrade — Manga

08 Dotorado Pro — Makumba

09 Perigo Público & Sickonce — Porcelana

10 Odete — Amarração

AO LONGO DO ANO

Confesso que esta é a parte que mais me entusiasma enquanto ouvinte: saber as próximas estradas que vou seguir, sem estar a falar do que está a bombar no ano atual. Do ano passado para trás, tudo está em jogo: em 2019, o trono da “grande descoberta” foi disputado em três frentes: o ícone Marcos Valle — com quem tive o prazer de falar longamente —, a lenda Aaliyah e a princesa Kylie Minogue (sendo as últimas duas não descobertas, mas nomes que ainda não conhecia a fundo). 

Alguns dos álbuns principais: a solarenga obra-prima do primeiro (com “Estrelar”, “Tapa no Real”, “Para os Filhos de Abraão”), o derradeiro e pioneiro LP da segunda (“Try Again”, “More than a Woman”) e a viagem camp da terceiro ao disco dos anos 70 (“Under the Influence of Love”). Talvez mais importante até seja Journey through the Secret Life of Plants, a obra mais imaginativa em que me deixei perder este ano; obrigado, Stevie Wonder, que fizeste música de flores e clorofila. 

Ou o esmagador segundo álbum dos Tears for Fears, que fica para sempre comigo. Ou a memorável estreia de Neneh Cherry nos discos, ou o mais divertido disco dos Talking Heads… Há ainda um pico comercial de Mariah Carey (“Always Be My Baby”, “Fantasy”) e, impulsionado pelo seu 15.º aniversário, Afrodisiac de Brandy, que em 2018 já tinha sido uma pedrada no meu charco. Que 2020 traga tantas outras.

01 Marcos Valle — Marcos Valle (1983)

02 Aaliyah — Aaliyah

03 Tears for Fears — Songs from the Big Chair

04 Stevie Wonder — Journey through the Secret Life of Plants

05 Neneh Cherry — Raw Like Sushi

06 Kylie Minogue — Light Years

07 Nelly Furtado — Loose

08 Mariah Carey — Daydream

09 Brandy — Afrodisiac

10 Talking Heads — Speaking in Tongues

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