The Fast Set "Junction One" (1980)

A 1 de janeiro de 1980 a editora (que pouco depois teria o nome 4AD) estreava-se com uma série de lançamentos. Este teve o número um no catálogo. Texto: Nuno Galopim

Depois de ter passado por balcões de lojas de discos, Ivo Watts Russel trabalhava no escritório da editora Beggar’s Banquet quando, em 1979, o single Are Friends Electric?, de Gary Numan (então ainda dividindo créditos com os Tubeway Army) chegou ao número um da tabela de singles no Reino Unido. Foi o primeiro single de pop eletrónica a alcançar esse patamar e traduziu para a editora um fenómeno de sucesso que ajudou a sustentar a sua estrutura financeira. Mas entre as consequências desse êxito esteve também uma avalanche de maquetes que, então, chegaram aos escritórios da Beggar’s Banquet. Perante esse universo de possibilidades Ivo Watts Russel e o seu colega e amigo Peter Kent resolveram então, e perante uma sugestão do próprio Martin Mills (patrão da Beggar’s), criar uma etiqueta que pudesse servir de radar para novas ideias e projetos… Começaram por lhe chamar Axis… Mas, mais do que as conotações com o “eixo” contra o qual tinham lutado os aliados na II Guerra Mundial, foi a existência de uma outra companhia com a mesma designação que os obrigou a mudar de nome. No flyer de apresentação havia uma série de inscrições nas quais se traduzia o sentido da nova editora:

1980 FORWARD
1980 FWD
1984 AD
4AD

E assim nasceu, com nome definitivo, a 4AD Records.

Porém os seus quatro primeiros lançamentos ficaram registados como Axis (salvo os que tiveram depois reedição via 4AD ou Beggar’s). A ideia, na base do lançamento da editora, era a de apresentar quatro singles de quatro bandas diferentes no primeiro dia de 1980… No fundo era como uma variação, em quatro discos, do sampler de apresentação da Factory, como nota Martin Aston no livro em que conta a história da 4AD. E, de facto, o single com o número de catálogo Axis 1 chegou à rua nesse dia. 1 de janeiro de 1980.

O nome que assina o single está hoje defendido do esquecimento precisamente porque guarda em si o primeiro episódio da história da (futura) 4AD. Mas não fosse essa característica e o single Junction One do projeto The Fast Set, era hoje um entre os muitos que então entraram discretamente em cena e desapareceram (quase) sem deixar rasto.

O projeto The Fast Set – nome que é título de um filme perdido de 1924 de William Churchill DeMille  – apresentava como protagonista o teclista londrino David Knight, que tinha um sintetizador VCS3 (que tinha ganho visibilidade através do trabalho de Brian Eno) e  deixara uma maquete na loja que o grupo editorial tinha em Earls Court. A maquete chegou aos ouvidos de Peter Kent que então sugeriu a David que gravasse uma versão de um tema de glam rock, naturalmente segundo uma visão contemporânea. Se assim fosse admitiu que poderia editar o single numa nova editora que iria lançar brevemente.

David escolheu Children of the Revolution (original dos T-Rex) e logo foi marcado um estúdio para gravar a versão, que teria John Lewis como produtor. Tendo então sobrado algum tempo, David criou ali mesmo outra canção num registo cold wave minimal lo-fi semelhante, que surpreendentemente acabaria no lado A do single: Junction One (esta sob produção de Peter Kent).

Ainda antes do lançamento do single David juntou alguns músicos para um concerto no qual contou com a colaboração do realizador de cinema John Maybury (que anos depois assinaria Love Is The Devil, um biopic sobre Francis Bacon e também os telediscos de West End Girls dos Pet Shop Boys e de Nothing Compares 2 U de Sinéad O’Connor), que então projetou imagens de filmes em Super 8 sobre a banda. Tanto no som como na dimensão visual as afinidades com o início de carreira dos Human League eram notórias. Como consequência desta parceria em palco John Maybury acabou por desenhar a capa do single.

O disco não causou impacte maior mas terá sido suficientemente notado entre os mais atentos à emergência de uma nova cena eletrónica no Reino Unido, tanto que surgiria representado, cerca de um ano depois, na compilação de apresentação da editora Some Bizarre, onde se revelavam também nomes como os Soft Cell, Depeche Mode, The The ou Blancmange. A contribuição do projeto The Fast Set para a Some Bizarre foi King Of The Rumbling Spires, curiosamente outra versão de um origibal dos T-Rex. Em 2011 a compilação The Hiden Tapes, da editora Minimal Wave, revelou um outro tema: o instrumental Kaleidecon.

O projeto não voltou a gravar, tendo David Knight trabalhado depois com nomes como os de Shockheaded Peters ou Danielle Dax.

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