A nova criação de Jean Michel Jarre é uma aplicação. Mas há uma versão (muito) limitada em disco.

O novo disco de Jean Michel Jarre tem por título “Snapshots from EōN” e é uma caixa, com edição limitada a 2000 exemplares, que fixa momentos de uma experiência de música infinita que o músico agora propõe na aplicação a que chamou EōN. Texto: Nuno Galopim

A crítica musical – entidade não anónima porque os textos são assinados – por vezes tem birras coletivas. E uma delas, pelo menos entre nós, teve em tempos por alvo a música de Jean Michel Jarre. O berço na cultura “de guitarras” de muita da opinião sobre música popular que surgiu nas décadas de 70 e 80 justifica parte do modo suspeito como as suas propostas eram encaradas. Se juntarmos elementos de ideologia de gosto (hmmm, bela expressão, vou usar mais vezes), uma consciência classista pouco dada a elogiar filhos de famílias mais abastadas (os Strokes e os Vampire Weekend ainda levaram na cabeça pelo meio “betinho” em que circulavam) ou uma comichão clássica gerada pelos fenómenos capazes de juntar grandes multidões (e Jarre começou a fazer grandes espetáculos ao ar livre nos anos 70), então encontramos em seu redor uma conjunto de elementos capazes de libertar preconceitos que tantos textos foram depois veiculando. É claro que Jean Michel Jarre fez do melhor e do pior. Rendez Vous, de 1986, é para lá de azeite… É mau óleo. Mas tanto antes (Oxygène, Equinoxe, Les Chants Magnetiques ou o ousado Zoolook) como depois (Révolutions ou Chronologies) houve na obra de Jean Michel Jarre instantes que justificam a sua inscrição na história da música eletrónica (para lá, claro está, das históricas atuações na Praça da Concórdia, na China ou em Houston), entre muitos outros lugares. Os dois volumes de colaborações que Jean Michel Jarre lançou sob o título comum Electronica entre 2015 e 2016 foram uma profunda “chatice” para o legado das birras escritas nos setentas e oitentas (nos noventas já ninguém lhe deu a mesma atenção, pelo que a birra, como é reativa ao mediatismo, esmoreceu). É que nesses dois discos ficou clara a admiração transversal de outros músicos ao papel pioneiro de Jarre na história da música eletrónica em terreno popular. E desde contemporâneos veteranos como John Carpenter, Laurie Anderson (que com ele trabalhara em Zoolook) ou Gary Numan a descendentes de várias gerações, de Vince Clarke, Yello, Pet Shop Boys ou Moby aos The Orb, Air, Peaches, Primal Scream, M83, Robert del Naja, Little Boots, Boys Noize e Julia Holter e até mesmo heróis com obra que vinha de antes como os Tangerine Dream ou Pete Townshend, uma multidão mostrou que, afinal, a coisa não era motivo para tanta birra.

Ficou já bem claro que cresci com a música de Jean Michel Jarre e no outro lado da birra. De resto sempre lidei bem com as birras dos outros desde que não contaminassem o meu gosto. Se tivessem depois azia não passava para mim. E não passou. Acompanhei com interesse a sua obra. Escutando tanto o melhor como o menos bom. Falei com ele em várias ocasiões (e devo dizer que no meu top 10 das melhores entrevistas que fiz estará certamente uma das vezes em que conversámos em Lisboa).

Em inícios dos anos 80 fiquei surpreendido com a edição de Music For Supermarkets, um disco que Jarre criou e do qual apenas prensou um exemplar em vinil, que foi vendido em 1983 num leilão (tal e qual como se faz no mercado da arte). Valeu-nos uma emissão da Rádio Luxemburgo que deixou escutar o disco (daí nasceram as gravações que hoje em dia circulam online). E mais recentemente a antologia Planet Jarre deu vida pública alargada a um excerto do álbum (ouvir em baixo) . Mas logo ali nascia uma visão possível para outro relacionamento entre quem faz a música e quem o escuta. Uma visão mais focada. Mais pessoal.

De certa maneira essa noção ganha agora outra dimensão (e novas possibilidades) em EŌN, uma aplicação que Jarre desencolveu com dois programadores e uma equipa de desenho de gráficos digitais e pela qual a cada utilizador é dada a hipótese de escutar (e ver), de modo infinito, uma música que nasce apenas para os seus ouvidos.

Cada vez que alguém usar a aplicação EŌN vai ter acesso a “uma orquestração envolvente e única da música e das imagens”, como o próprio Jean Michel Jarre explica no seu site oficial. EŌN é, acrescenta, “uma peça de arte orgânica infinita e nunca repetida que viverá para sempre no universo singular do espaço-tempo de cada um”.

Filho de um tempo em que a materialização da música importava – coisa não necessariamente garantida em cenários de futuro, é certo – Jean Michel Jarre resolveu fixar alguns momentos entre as possibilidades orquestrais de EŌN e criou uma edição especial limitada a apenas 2000 exemplares. Exclusiva como o seu disco de 1983, ma non troppo.

Chamou-lhe Snapshots From EŌN e basicamente apresenta ali o que o título sugere. Há três fragmentos musicais que se podem escutar em dois LP em vinil e dois discos em CD (o excerto 3, de quase uma hora, é exclusivo do CD2). E aqui encontramos caminhos não muito distantes das visões que a música instrumental de Jarre tem seguido nos últimos anos, por um lado com um cunho ambiental e paisagista, mas ao mesmo tempo revelando a presença de arquiteturas de batidas que traduzem um labor com máquinas e estéticas recentes. A composição e gravação gerou módulos e soluções que, depois, se cruzam, misturam, transformam e sequenciam. Sempre de modo diferente.

A esta música – sempre instrumental – juntam-se “instantâneos” das imagens criadas pela aplicação. Estes instantâneos são reproduzidos num livro (com as dimensões de um LP de 12 polegadas de diâmetro) que guarda em si capas para guardar tanto os dois LP como os dois CD. Um certificado de autenticidade, numerado e assinado pelo próprio Jean Michel Jarre, completam a edição. Sim, é coisa para gastar mais do que uns trocos… Mas o futuro da música como experiência material (mesmo quando criada para uma solução digital) passa por ideias como esta… Afinal o visionário que gravou Oxigène na cozinha da sua casa, em 1976, ainda está para as curvas…

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