James Blake “James Blake” (2011)

Hoje temo-lo como uma certeza. Mas em 2011, quando apresentou o seu álbum de estreia, James Blake revelava já sinais de que podia ter ali chaves importantes para descodificar o que o futuro (da música) nos reservava. Texto: Nuno Galopim

São exceções e não regras aqueles anos cuja produção musical foi concentrada em torno de uma ideia com tal intensidade que, tempos depois, podemos afirmar: “soa ao ano tal”… Foi assim, por exemplo, em 1967, quando o psicadelismo moldou não apenas as estreias, dos Pink Floyd aos Jefferson Airplane mas também as novas propostas de quase veteranos, dos Beatles aos Rolling Stones. Em 1981, quando os ecos da new wave e a assimilação das eletrónicas permitiu o nascimento de uma nova pop (com os Human League, New Order ou Soft Cell). Ou em 1989, quando uma revolução na música de dança chegou aos espaços da cultura rock’n’roll com os Stone Roses, Happy Mondays ou Inspiral Carpets. 2011 guardou no tempo uma história semelhante através de discos de jovens músicos como James Blake, Jamie Woon, Nicholas Jaar ou Jai Paul. Todos em tempo de estreia. Todos usando as eletrónicas como ferramenta protagonista. Todos servindo-se de um visão minimalista de recursos, mas sempre cientes de uma vontade maior em nunca deixar de lado o gosto pela canção como objetivo a atingir. Todos experimentando ideias nas periferias do silêncio, como se escutando ecos dos ensinamentos de John Cage. Todos apontando o dubstep na raiz mais profunda do seu som… E todos muito jovens.

À frente desse grupo de visionários apresentava-se James Blake, a quem a revista britânica Q então chamou “mestre Jedi do dusbtep”. O músico tinha já editado alguns EPs desde 2009, brilhando depois, em 2011, com o álbum de estreia James Blake, que a Universal editou em fevereiro desse ano. A cada disco tinha já chamado atenções para uma música discreta, elegante, onde as batidas eletrónicas conviviam por vezes com as teclas de um piano e onde a voz, aos poucos, se ajustou à ideia de fazer canções. Em CMYK, EP que lançou em maio de 2010, garantindo primeiras chamadas de atenção, mostrara um interesse pela música de dança. Já em Klaviwerwrke, cinco meses mais tarde, revelava uma relação mais profunda com o piano, os silêncios e uma vontade em desenhar ambientes. Admira Erik Satie, Art Tatum ou, sobretudo, o norte-americano Arthur Russell. E, no fundo, ele é exemplo de como do cruzamento de universos que muitos poderiam julgar inconciliáveis podem nascer as melhores ideias. Em concreto, os espaços do dubstep, uma música essencialmente feita para a noite (e para a dança) e os da música para piano…

Este filho de um músico e uma designer tinha encontrado o seu caminho quando juntou ao piano a descoberta do trabalho de produtor (que depois desenvolveu em estúdio). E foi desbravando terreno em busca de uma voz. De uma afirmação de identidade. E foi entre esses universos que a foi encontrando, tendo o álbum de estreia sido então um primeiro retrato maior de uma obra que entretanto ganhou ainda mais solidez (e visibilidade). O disco propunha então um apelo à entrega do ouvinte à audição, revelando aos poucos um mundo feito de eletrónicas que aceitam por perto notas ao piano, uma voz frágil (mas incrivelmente expressiva) e um gosto pela exploração de ideias nos limiares do silêncio.

Sem repetir o que fora mostrando nos sucessivos EPs editados desde finais de 2009, mas confirmando em pleno as potencialidades que lhe foram apontadas sobretudo com CMYK e Klavierwerke, James Blake dava um passo em frente que colocava o jovem músico inglês na linha da frente de uma nova geração de criadores que começavam a definir uma ideia clara do que podiam ser novos caminhos que a música poderia seguir neste século.

Com raízes no dubstep, mas juntando as experiências de quem viveu as etapas de um ensino “clássico” numa escola de música, James Blake ensaiou nos EPs uma série de caminhos e ferramentas. Em James Blake confirmou o que nos havia sugerido ao escolher como single de estreia para o álbum a sublime versão de Limit To Your Love (um original de Feist). É a canção que o desafia, a sua voz suave, de sedutoras tonalidades soul caminhando sobre a discreta e minimalista base de sons onde batidas, silêncios e discretas linhas instrumentais desenham o espaço onde as ideias depois ganham forma.

Na altura falei com James Blake, na ocasião em que se apresentou entre nós no NOS Alive. Aqui fica a transcrição dessa conversa.

Estudou piano antes de experimentar os caminhos que o levaram a encontrar a sua “voz” na música…

Tive lições de piano mas não fui a uma escola de música. Estiva numa escola normal, estudei numa universidade que não tinha nada de diferente a não ser mais geografia e humanidades e o que se passava era que eu estava a estudar música. As lições que aprendemos quando estudamos piano clássico ensinam-nos normas que podemos usar depois em muitas situações. É como se fosse uma teoria. É o DNA da música e é importante conhecer essas coisas porque são ideias que podemos depois usar ou simplesmente não usar. São ensinamentos muito válidos. São mesmo como tijolos que nos podem ajudar a ser ainda mais criativos… Porque adquirimos um vocabulário muito rico. Aprender num sistema de ensino clássico não quer dizer que depois não se possa ser criativo. Muitas pessoas que estudaram música ficam com algo mais que os outros porque adquirem outras maneiras de ver as coisas. Não que as faça superiores ao que quer que seja, é apenas algo diferente na forma de ver as coisas. Na verdade por vezes até encontramos pessoas que estudaram música clássica que desejariam que pudessem ver a música como o faziam antes de ter aprendido. Mas eu não sinto isso dessa maneira. 

A descoberta do dubstep e outras formas foi tão importe para si como foi a música de um Debussy?

O piano foi mais importante. Foi sempre o elemento mais importante. 

Daí o facto de ter dado a um EP um título muito habitual em peças para piano na área da música clássica [em concreto o EP Kavierwerke, de 2010]?

É o meu disco preferido…

Como descreveria o processo que o conduziu a uma “voz” tão pessoal no atual panorama musical?

Não descobri apenas o meu som nos dois anos que estive a produzir. Aprendi também a produzir. Senti que o processo de estar no escuro, sem saber o que fazer, acaba por ser o mais indicado quando queremos que surjam ideias. Porque assim estão não adulteradas por qualquer processo já existente. São ideias que assim sendo surgem como se do nada. Frescas e muitas… E mais orientadas segundo os meios de produção. Na verdade estou sempre a mudar o meu modo de trabalhar porque nunca estou no mesmo sítio. Se me aborreço as ideias acabam menos espontâneas e menos entusiasmantes. 

Tem-se aproximado da canção, o que podemos constatar no percurso entre os EPs de 2009 e 2010 e o álbum de estreia…

Sim, mas o curioso é que ao mesmo tempo sinto também vontade em escrever coisas que tenham a ver sobretudo com batidas. Vou editar um disco na Hemlock que é apenas feito de batidas. Não tem voz. Há ambientes, sounsdcapes, mas são apenas beats… São os meus dois lados. A dada altura senti-me polarizado por um dos lados, mas sinto que agora estou a regressar um pouco ao outro lado. Mas mais amalgamado… Mas vamos esperar para ver…

É filho de um pai músico e de uma mãe designer. Sente que herdou de ambos algo que agora ganha forma no seu trabalho?

Há um elemento gráfico na minha música, sim. Se a minha mãe fosse uma terapeuta seria um terapeuta musical… 

Em pequeno já sabia qual seria o seu futuro profissional?

Sabia que ia ser músico, que não faria outra coisa nem tinha outro plano.

Qual é a sua opinião sobre Arthur Russel, músico americano com quem, de certa forma, parece partilhar algumas importantes afinidades?

Só o facto de se mencionar do nome dele faz-me logo sorrir… Não tinha ouvido a música dele até ter feito o álbum. Mas nele descobri grande consolo. Sinto que ele fez tudo o que eu sempre quis fazer 20 anos antes de mim. Sinto que também não teve o reconhecimento devido, mas hoje felizmente já vai havendo mais gente que conheça a sua música. E isso deixa-me feliz. Eu próprio sou um recente convertido. Identifico-me com ele. Era alguém que produzia a sua música. E quase sinto culpa porque tive sucesso rapidamente. E ele, que escreveu canções espantosas, não o alcançou. Ele não recebeu o reconhecimento que merecia. De outro modo a música dele existe. É música pela música. E é com isso que me identifico. Quando estava a escrever o meu disco era nisso em que pensava. Fazer música pela música. Não para ser assinado pela Universal ou o que quer que seja. É o processo que me interessa. E isso é o que sentimos na música dele. Sentimos que microfone está a usar, as discrepâncias na sua forma de tocar violoncelo. E não traçaria mais paralelos entre mim e o Arthur Russel além de algo comum que é a solidão em que ele trabalhou. E era muito versátil. Teve uma carreira bastante ecléctica. Ainda não li a biografia mas vou fazê-lo agora. Se eu alcançar metade do que ele fez já serei um homem feliz.

Como é que uma música tão privada se comporta frente a tanta gente nos concertos que tem dado em festivais. É uma música muito pessoal…

Tornamo-nos menos tímidos à medida que o tempo avança e vamos trabalhando. Tenho actuado muito como DJ e dado também bastantes concertos. E temos de falar com tanta gente a todo o momento que não podemos no fundo ser mais assim… Mas na verdade sempre falei com as pessoas, nunca fui introvertido. Sempre pensei muito… Sou filho único e sempre tive muito tempo para estar sozinho entre os meus pensamentos. Mas nunca fui introvertido.

Não lhe parece contraditória esta ideia de ver uma música que nasceu num espaço solitário frente a tamanha multidão?

É uma contradição, sim… Até mesmo um paradoxo, mas interessante. Mas tem sido um processo muito positivo e não me arrependo nunca de tocar frente a muitas pessoas. Tem sido uma experiência interessante, mesmo. Há artistas que não o conseguem fazer, é certo. Artistas cuja música é tão pessoal, que sentem que aquele não é o seu lugar. Antes de começar a tocar em festivais comecei por pensar como é que tudo isto seria… E o que aconteceria com a minha música. Mas depois do primeiro concerto, que teve lugar no Primavera Sound, em Barcelona, senti que o podia fazer. Se toda esta gente veio para me ver então é porque tenho algo em comum com eles. Há uma ligação que já estava ali mesmo antes de eu começar a tocar e isso deixa-me confortável.

Esta passagem pelos palcos e estas vivências de multidão inspiram o que possa vir a ser o futuro próximo da sua música ou anseia, antes, por um regresso ao quarto e ao trabalho mais solitário?

Talvez, mas não sei… E não sei sobretudo porque na verdade quase não tive tempo de folga nos últimos seis meses. Trabalho todos os dias. Mas ao mesmo tempo tenho escrito alguma música nestes últimos meses… E tudo vem de um sítio que é muito agitado na minha mente. Não estou num lugar sereno neste momento. Estou num lugar que me obriga a levantar cedo na manhã seguinte para ir de avião para outro sitio… E esse não foi o ambiente em que escrevi o primeiro álbum, daí que o segundo possa ser diferente. De certa maneira gosto de escrever música para saír de tudo isto. Mas no fim sinto que soa muito a mim. E estou muito orgulhoso com o que fiz nestes últimos meses. Sinto que é uma progressão e, senão mesmo, melhor que o que fiz antes. Mas não vai ser um álbum. Não vou editar um álbum no futuro mais próximo. Sinto que o que tenho escrito recentemente é um passo em frente. Tocar ao vivo tem ajudado. A minha voz está mais forte. Sinto que a controlo melhor e que estou mais à vontade.


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