Quatro retratos de Madonna nos anos 80 para reencontrar em vinil

Os três primeiros álbuns de Madonna e uma banda sonora editada em 1987 surgiram em novas prensagens em vinil. Peças para colecionadores e janelas de (re)descoberta do início fulgurante de uma carreira que cedo marcou o seu lugar na história da música popular. Texto: Nuno Galopim

O alinhamento do álbum de estreia de Madonna é, mais do que um corpo coeso de canções trabalhadas sob um espirito comum, um retrato de um ano de intensas transformações que, aos poucos, foram moldando as ideias, acabando por definir (sem que então ninguém o imaginasse), um clássico que não só traduz ecos do lugar e do tempo em que nasceu mas definiu também sugestões de caminho futuro não apenas para a artista mas para outras que ali encontraram pistas que definiriam igualmente os seus percursos individuais.

A história do álbum que teve até à última hora o título de trabalho Lucky Star (mas que foi editado simplesmente como Madonna) começou bem antes das sessões de trabalho em estúdio com o produtor Reggie Lucas. Longe dos caminhos mais rock que seguira com o Breakfast Club, Madonna trabalhara três maquetes sob caminhos mais próximos de descendências do disco, somando influências electro funk e pop. E numa noite, em plena Danceteria (uma das discotecas mais em voga na Nova Iorque da alvorada dos oitentas) conseguiu convencer o DJ Mark Kammins a passar um desses temas. Tinha por título Everybody e entusiasmou a pista de dança. Depois do disc jockey ter mostrado a cassete a editores (tendo o mítico Chris Blackwell recusado lançá-la), o tema surgiu em single (em 1982), assinalando a estreia de Madonna em disco, alcançando um discreto número 107 na tabela americana.

O trabalho em estúdio para criar um álbum ganhou forma com um corpo original de canções compostas pela própria Madonna. Entre elas estava Burning Up, que acentuava a abordagem a uma pop dançável e atenta aos caminhos mais atuais do labor com eletrónicas e programações, que foi escolhido como segundo single ainda antes de o álbum ter acabado de ganhar forma. Uma insatisfação com a forma final das canções ditou o afastamento de Lucas e a entrada em cena de John ‘Jellybean’ Benitez, DJ e produtor que remisturou então tanto Burning Up como Physical Atraction Lucky Star (canção que seria escolhida como quarto single) e apresentou a Madonna uma canção de Curtis Hudson e Lisa Stevens que havia sido recusada pela ex-Supremes Mary Wilson e que se tornaria, pela visão mais edgy que então abordaram, numa das canções-assinatura de Madonna. Trata-se de Holiday (terceiro single do álbum e o primeiro a gerar um fenómeno com expressão internacional global) que, juntamente com os três outros temas remisturados por Jellybean, define então a essência do som pop, com temperos do som electro que marcava a noite nova-iorquina de então e que representa o tutano musical de um álbum feito de canções que essencialmente falam sobre relacionamentos. Algo discreta no alinhamento, a canção I Know It acabaria por sugerir visões pop que teriam expressão mais evidente um pouco adiante…

O sucesso obtido por Lucky Star e Holiday e o modo como Borderline (quinto single), manteve a chama acesa, cativou atenções sobre um álbum que teve uma evolução lenta, mas segura, no mercado norte-americano (alcançando 2,5 milhões de unidades no primeiro ano, o que corresponde metade do seu saldo atual), definindo também percursos de sucesso em mercados em vários pontos do globo. Ninguém imaginava, contudo, o que o futuro então guardava a uma cantora que, como reza a história, na hora de fazer a sessão fotográfica para a capa do seu primeiro disco, surgira no estúdio do fotógrafo Gary Heery sem ninguém a acompanhá-la e apenas com uma bolsa de roupas e bugigangas no braço. E que no dia seguinte regressaria, também por si mesma, para ajudar a escolher as provas…

Apesar de talhado numa linha de continuidade o segundo álbum de Madonna assinala um salto tremendo face ao que fora a promissora estreia em 1983. Um salto que se revela no corpo de canções de um alinhamento mais vitaminado em potenciais êxitos pop (que o acabariam de facto por ser), na força de uma comunicação mais focada e num mais afinado rumo conjunto da produção, desta vez concentrada, além da própria Madonna, num outro pulso só: o de Nile Rodgers.

É aí mesmo que o álbum começa a ganhar forma: na escolha do parceiro certo no momento certo. Satisfeita com o que escutara em Let’s Dance, de David Bowie, Madonna chamou Nile Rodgers que, com ele, trouxe os também ex-Chic Bernard Edwards e Tony Thompson, convocando ainda o engenheiro de som Jason Corsaro, equipa que nesse mesmo ano estaria associada a projetos dos Duran Duran. O ponto de partida para a identidade sonora do disco assentou na mesma relação de diálogos entre a pop e a música de dança que então povoava as noites mais in de Nova Iorque, com evidentes ecos do hi-nrg e, sobretudo, ainda o electro. A composição das canções e as opções da produção vincariam, contudo, uma faceta pop mais evidente, deixando para as versões “máxi” o papel de assegurar a continuação de uma relação com as pistas de dança.

O alinhamento guarda em si episódios que definem o processo evolutivo entre os dois discos. E se a Pretender cabe uma expressão de maior proximidade com o que se escutara em Madonna, já em canções como Like A Virgin, Over and Over ou Material Girl cabe a evidência da conquista de um novo patamar, servindo Love Don’t Live Here Anymore como janela de possibilidades para eventualmente explorar adiante.

Mas se na escrita há um requintar de ideias e na produção um aprumar das ideias, a um terceiro rumo de acontecimentos podemos apontar possíveis justificações para o incremento de popularidade: a imagem. E o modo como a identidade visual acrescenta uma nova e mais sólida dimensão à obra de Madonna por estes dias tanto passa pela sessão fotográfica com Steven Meisel que gera a capa, como o trabalho de conceção dos telediscos que atinge também aqui uma outra dimensão. E se a popularidade do tema-título fez das imagens captadas em Veneza um quadro iconográfico marcante, já a citação de memórias de Marilyn Monroe em Material Girl abre um outro capítulo na história da multiplicação dos rostos de Madonna. Afinal mais uma herança de Bowie (o primeiro artista que uma jovem Madonna em tempos vira ao vivo) a passar por este disco.

Se em 1983 o álbum de estreia (e os singles dele extraídos) tinham revelado Madonna ao mundo como uma voz que expressava ecos da cultura de dança nova-iorquina pós-disco na alvorada dos anos 80 e se Like A Virgin (1984) encetara um acerto de rota rumo a outros destinos mais pop, foi com True Blue, editado em 1986, que Madonna firmou definitivamente o seu espaço na linha da frente do panorama da música popular, conquistando um estatuto que ainda hoje mantém.

Stephen Bray, que colaborara em Into The Groove (editado como single em 1985 mas fora do alinhamento dos seus álbuns de estúdio), manteve-se na equipa de produção à qual chegou Patrick Leonard, cuja visão ajudou a moldar uma imagem pop mais eclética e firme para as canções de Madonna na segunda metade dos anos 80. Madonna, que também é creditada como uma das produtoras do disco, tem um papel igualmente mais firme na escrita das canções, não havendo nenhuma na qual não tenha havido uma intervenção sua nem que, como sucedeu em La Isla Bonita (originalmente oferecida ao álbum Bad de Michael Jacskon, mas rejeitada), contasse com letra por si reescrita.

True Blue nasceu num período de casamento com Sean Penn, a quem o disco foi dedicado. As canções refletem sobre várias temáticas, revelando primeiros sinais de uma consciência social que ganharia espaço regular nos discos, atuações e entrevistas de Madonna. Um dos exemplos mais claros surge em Papa Don’t Preach que fala sobre a gravidez em adolescentes. O levar de temas deste fulgor a um álbum (e inclusivamente fazendo da respetiva canção um single) não apagou a faceta mais festiva de Madonna, que está aqui bem presente em canções como Where’s The Party ou White Heat, que esteticamente representam os momentos de maior proximidade para com os ecos dos universos da cultura de dança visitados nos álbuns de 1983 e 1984.

Além do afinar da sonoridade na produção a própria opção tomada pelos arranjos das canções revela sinais de mudança no curso da música de Madonna. A presença de outro tipo de instrumentos, nomeadamente a presença de uma orquestra em Papa Don’t Preach ou a dimensão mais dramática de Live To Tell (primeiro single, correspondendo a uma canção cedida à banda sonora de Fire With Fire, de Duncan Gibbins), juntamente com o tom mais grave com que Madonna aborda o canto definem em True Blue um importante momento de viragem que o impacte de singles mais luminosos como True Blue, Open Your Heart e La Isla Bonita ajudaram a reforçar. Vale a pena assinalar ainda um flirt com a cultura latina que não se esgota em La Isla Bonita, manifestando-se ainda em Love Makes The World Go Round, que encerra o alinhamento.

Tal como sucedera em Like a Virgin a capa do álbum resultou de uma sessão com um fotógrafo de referência. Coube desta vez a Herb Ritts a criação de imagens que se tornariam numa das expressões mais marcantes de toda a iconografia de Madonna.

Habitado por cinco singles de impacte global, True Blue superou os feitos dos dois primeiros álbuns de Madonna e alcançou vendas milionárias, somando hoje mais de 25 milhões de discos.

A campanha de reedições em vinil dos primeiros LPs de Madonna junta aos seus três álbuns um quarto disco, este editado em 1987. E aí a escolha apontou não ao álbum de remisturas You Can Dance (o que é pena) mas antes à banda sonora de Who’s That Girl, disco no qual na verdade há apenas quatro canções de Madonna, três delas então editadas como singles. Se o álbum de remisturas poderia aqui representar uma síntese de um arco de visões pop nascidas de ideias colhidas nas pistas de dança e a elas depois devolvidas, já Who’s That Girl traduz antes uma ideia de mera continuidade nas ideias de escrita e produção, longe de indiciar o salto estético e pleno de significados políticos, que chegaria, pouco depois, com o marcante Like a Prayer.

O trabalho para este filme de James Foley (o terceiro na filmografia de Madonna) retomou as equipas criativas de True Blue, repartindo Who’s That Girl e a balada The Look of Love por Patrick Leonard e Causing a Commotion (que plasticamente sugere uma bela síntese dos primeiros cinco anos discográficos de Madonna) e o algo esquecido Who’s That Girl, por Stephen Bray. Os singles, particularmente o da canção com o título ao filme e Causing a Commotion, tiveram impacte significativo num tempo em que Madonna atingia patamares de uma popularidade global que está bem documentada na magnitude do entusiasmo da multidão que vemos à sua frente no vídeo Ciao Italia!, editado em 1988. Mas o tempo apagou relativamente estas memórias de uma etapa de transição entre True Blue e o álbum de 1989. Porque aí sim, a coisa continuou com outro fulgor, nova visão, e maior capacidade de incomodar e transformar sem em nada perder viço e popularidade. Antes pelo contrário.

Além de Madonna esta banda sonora inclui ainda temas de nomes como os Club Nouveau ou Scritti Politti.

“Madonna”, “Like a Virgin” e “True Blue” de Madonna e a banda sonora de “Who’s That Girl” estão disponíveis em novas reedições em suporte de vinil num lançamento da Warner.

One thought

  1. Obrigado pelo artigo! Muito bom!

    Who’s That Gril tem 4 canções (não 3) de Madonna das quais 3 foram singles que chegaram ao TOP 10 em UK:

    “Who’s That Girl” – #01 em EUA e UK (e em muitos outros países)
    “Causing a Commotion” – #02 em EUA e #04 em UK
    “Look of Love” – #09 em UK (não foi editado nos EUA)
    “Can’t Stop” – não foi single

    O Album “Who’s That Girl OST” foi TOP 10 em quase todos os países do mundo. Os singles não foram colocados em nenhum Greatest Hits de Madonna (para não canibalizar as vendas deste album) até 2009 quando “Celebration” foi lançado. Isso também não ajudou a manter vivas as músicas desta banda sonora. A banda sonora chegou ao TOP 10 em quase todo o mundo e #01 no European Album Charts (IFPI) e acabou por vender cerca de 5 milhões de cópias (que apesar de serem muitas cópais são poucas em comparação com os 3 primeiros albuns).

    O single “Who’s That Girl” mantém-se um dos 10 singles físicos de Madonna que mais venderam até hoje (e como os singles físicos já quase não vendem assim vai continuar). Se para alguns artistas isso poderia não significar grande coisa para a artista femina que tem mais Hits nos TOP 10’s dos EUA e UK (38 e 63 respectivamente) isso significa mesmo muito estando as suas vendas acima de outros singles icónicos como “Holiday”, “Borderline”, “Lucky Star”, “Material Girl”, “True Blue”, “Live To Tell”, “Express Yourself” ou até mesmo “Frozen” ou “Ray of Light”.
    .
    “You Can’t Dance” é muito bom mas tinha apenas uma música nova (“Spotlight” que nem foi single) e músicas que pertenciam aos 3 primeiros albums remisturadas. Este album foi re-prensado em Vinil vermelho em Abril de 2018, há menos de 2 anos e talvez por isso não o tenham re-lançado novamente tão cedo em Vinil transparente (como os outros são).

    https://www.discogs.com/Madonna-You-Can-Dance/release/11899540

    Estou certo de que irá ter uma outra re-presensagem limitada em breve pois aquela esgotou quase de imediato, talvez para quando saia uma nova colectânea da Madonna.

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