O formato do LP pode ajudar a contar a história da música

Entre finais dos anos 60 e o início da década de 80 o LP foi o formato de maior protagonismo e mais significativas vendas. David Heptworth fala, no seu novo livro, no modo como, neste intervalo de tempo, o LP mudou o modo de fazer música, de a escutar, de a mostrar e sobre ela falar. Texto: Nuno Galopim

Jornalista com um percurso que começou nas páginas dos jornais NME e Sounds, que passou pela etapa de maior visibilidade da Smash Hits e, depois, o viu a publicar textos na Mojo, The Word ou Empire, David Heptworth (nascido em 1950 no Reino Unido) teve ainda uma presença televisiva sobretudo nos anos 80, tendo sido um dos apresentadores da BBC na emissão-maratona que acompanhou o Live Aid em julho de 1985. Acumulou por isso memórias que, aliadas a um gosto (antigo) pelos discos e uma vivência pessoal e profissional passada entre música e músicos, têm gerado, nos últimos anos, material que deu já origem a vários livros. E depois de títulos como The Secret History of Entertainment, 1971 – Never a Dull Moment: Rock’s Golden Year ou Uncommon People: The Rise and Fall of the Rock Star, eis que surge um volume que mostra como podemos sempre olhar sob outros pontos de vista para a história da cultura pop do final do século XX.  

A Fabulous Creation, que tem como subtítulo How The LP Saved Our Lives é um mergulho em memórias que David Heptworth evoca tendo o formato do LP como protagonista. Não se trata, contudo, da história do LP em vinil, que chegou ao mercado em 1948 e ainda hoje habita as prateleiras das novidades. O livro foca atenções no período em que o LP é o protagonista maior do mercado discográfico, quer como afirmação de um discurso criativo, motor gerador de um novo discurso crítico (na imprensa musical) e como formato que maiores vendas vai gerando. E David Heptworth define esse intervalo entre 1967 (o ano de Sgt. Pepper’s dos Beatles) e 1982 (quando Thriller de Michael Jacskon gera um fenómeno à escala global). Antes de 67 o single era quem mais histórias contava. Depois de 82 a cassete ultrapassou o LP em vinil em vendas e, depois, o CD chegou para voltar a transformar o mapa discográfico mundial. Este é, portanto, um livro de memórias (e reflexões) sobre o tempo em que o LP (e não apenas o conceito de álbum) dominou o mundo da música.

Os capítulos estão estruturados ano a ano, a cada qual David Heptworth juntando memórias de discos em concreto e de como ajudaram a mudar os acontecimentos. Em 1968, por exemplo, nota como os LPs de Leonard Cohen ou Van Morrisson lançam novas possibilidades aos discos, nomeadamente a capacidade de poderem ter uma vida mais longa do que a eventualmente definida pelo impacte inicial (ou a sua ausência) na hora do lançamento. Em 1970 observa como o encantamento de Richard Branson pelos LP e pelas lojas de discos acabou por definir a rota de lançamento da Virgin. Do mesmo ano há memórias do modo como o surgimento dos bootlegs mudou o modo de fixar as experiências de música ao vivo em lançamentos oficiais, assim como a mudança de atitude na escrita da crítica musical que, com o LP a gerar reflexões mais próximas da crítica de livros do que até então se fazia face aos discos). E neste caso David Heptworth diz ser essa a maior contribuição da revista Rolling Stone para a história do LP. Mais adiante observa como os semanários britânicos tiveram igualmente um papel determinante durante o punk e as suas sequelas imediatatas.

Na década de 70 David Heptworth trabalhou em lojas de discos. E dessas vivências surgem outras histórias e observações como as que o fazem encarar, por exemplo, 1971 como um ano em que “nenhum dia foi aborrecido” pela quantidade e diversidade de LP que iam surgindo. O modo de apresentar os discos, de os mostrar tanto na loja como, debaixo do braço, para quem depois os levava para casa, são elementos importantes para refletir sobre como o design gráfico compreendeu que tinha novos desafios pela frente na hora de conceber capas. O caso de Ziggy Stardust, de Bowie, é um dos exemplos que o livro destaca. Nota depois como as transformações em curso (entre o punk e o disco) obrigaram a repensar estratégias. De 1980 destaca o modo como a morte de Lennon mostrou como as partidas de músicos geravam vendas astronómicas de discos (sobretudo LP)… E, logo depois, o modo como uma nova portabilidade da música (via Walkman) ditou uma rota de ascensão para a cassete (e consequente perda de terreno para o LP em vinil).

Convém notar que How The LP Saved Our Lives nem é um estudo académico sobre um format nem mesmo uma história factual de acontecimentos na janela temporal definida. É um livro de “autor”. Uma narrativa que olha para a evolução dos anos através dos LP que evoca, dos contextos em que surgem, das consequências que geram… Mas sem nunca perder um ponto de vista pessoal (necessariamente subjetivo) sobre o universo que comenta. Esta é, por isso, uma história comentada da música (nos universos pop/rock e cercanias) de finais dos anos 60 à alvorada dos 80. Podemos ou não concordar com as opiniões do autor. E até do modo como o seu gosto e experiências o levam a falar de uns discos em detrimento de outros. Mas esse é um dos valores de um ponto de vista autoral. E este autor tem boas histórias para nos contar.

“A Fabulous Creation – How The LP Saved Our Lives”, de David Heptworth, está disponível numa edição paperback de 348 páginas, pela Bantam Press

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